Você me deixa abrir seus olhos?

Você me deixa abrir os seus olhos?
A muito tempo que eles permanecem fechados, não porque você quis assim, mas porque o fecharam para você. Desde seu nascimento, até o dia de hoje, mas neste momento, eu lhe faço essa pergunta, você permite que eu abra seus olhos?
Muito bom.
Mas o que quer ouvir? Qual mentira quer que eu desminta? Qual segredo quer ver revelado? Qual verdade quer entender? Levantar o véu não é uma tarefa prazerosa, pelo contrário, quando ver o mundo com os olhos despertos, verá uma realidade que não é tão boa quanto parece.
O mundo não funciona como está, você me diz. Há realidade pior do que essa? Você poderá perguntar, e eu responderei com um suspiro compreensivo, sim. Há aquele mundo onde você entende que boa parte dos seus esforços são podados, são levados a falha, não por você ou por falta de tentativa, mas simplesmente porque você não pode ter sucesso.
Então, ainda quer que eu abra seus olhos? Aviso, olhos abertos jamais podem se fechar novamente.
Ok, então vamos lá…
É, existe o Grande Irmão. Sim, existem pessoas no poder que regem as leis. Sim, o país é governado, melhor, administrado como uma empresa. Sim, as pessoas entram em concurso e faculdades sem fazer certames. Sim, alguém vai conseguir um transplante de órgãos antes de você, ainda que você seja o primeiro. Sim, a educação é ruim porque eles querem que seja ruim… Sim… Sim… Sim…
Eu poderia dizer que tudo que lhe disseram, até o momento, é mentira. Mas você acreditaria em mim? Eu poderia dizer, por exemplo, que a religião que você acredita, que suas opiniões políticas e sociais e até mesmo boas partes dos seus gostos não são realmente seus, são deles, da massa que criaram, do status quo imutável implantando pelo comodismo de existir.
Apenas exista, dizem eles. Lhe daremos o básico. Você vai poder até se casar, veja só! Mas na realidade somos apenas a fonte de renda deles. Ah sim… É ruim se achar no fundo da cadeia alimentar, não é? Você aí, todo inteligente, capaz de magnificas criações, nada mais do que um peão, um coitado que trabalha para um sistema que compra cada segundo do seu tempo, e meu caro, o seu tempo é tudo que você tem para vender. Acha que vende serviço? Mão de obra? “Capital intelectual”? Não, você vende seu tempo, uma das poucas coisas que uma vez vendida, não tem volta, nem reembolso, nem porra nenhuma.
Ah, mas que mundo de merda esse seu. Abri meus olhos apenas para ser ainda mais triste e frustrado. Abri meus olhos apenas para ver que nada sou além de uma fonte de renda para mamãe Dilma ou qualquer outro governante…
É, seus olhos foram abertos. Mas cabe a você o que fazer com seus olhos.
Posso lhe dizer mais? Quer ouvir?
Tem certeza? Então vamos lá.
A religião só existe para lhe manter longe dos grandes segredos, segredos esses que vão lhe levar para o sucesso assim ó, puf! É… Eu sei, você tem medo da sua alma imortal ser consumida nas chamas da danação eterna, não é? Bom, isso é realmente uma pena. Mamãe Dilma não tem medo disso, nem papai Bill Gates, nem ninguém que você vê nadando em seu dinheiro. Isso mesmo, SEU dinheiro. Se livre de mais essa meu caro, é… Desse paradigma mesmo, dessa religião, não tenha medo. Acredite no Deus que existe em seu coração, se quiser, mas não acredite no Deus que eles mandaram você acreditar.
Mas aí é que tá, não é? Difícil tirar isso da cabeça. É ainda mais difícil do que passar todo domingo e aguentar aquela horinha lá, aquela que “te salva” da danação eterna. Parceiro, não adianta se arrepender de nada, ação e reação é o que rege a Lei. Traiu a mulher? Bateu nos filhos? Aceitou propina? Deu fechada para chegar mais cedo em casa no transito? Não devolveu o troco? Pois é, tudo isso volta, de uma forma, de outra, mas volta. Ir à igreja não tira você dessa parceiro. Talvez ir à igreja seja seu castigo… Talvez.
Ah, quer saber o segredo? Não… Ainda não. Seus olhos não foram abertos por completo. Ainda há dúvida, ainda há medo, e quem hesita, hum, esse não chega lá nunca. Hesitou, perdeu. Vá atrás dos mistérios quando não tiver dúvida, quando não tiver nenhum medo, quando ter a absoluta certeza que você quer despertar, que vai ter a gana necessária para atravessar o umbral. Antes disso você vai encontrar apenas sofrimento e frustração.
Existe sim uma saída de tudo isso, ela está com você, sempre esteve, sempre estará. Não vou dar o mapa, mas vou dizer onde tá o pote de ouro. Vai, faça assim comigo, feche os olhos… Isso… Agora respire bem fundo, inale… Exale… Faça isso durante uns minutos, três ou cinco, relaxe bastante. Pausadamente não, inale e exale, inale e exale, lento, mas sem parar. Agora não pense em porra nenhuma, limpe sua mente… Isso. Taí, agora é só pegar.
Está dentro de mim? E você ainda tem coragem de me perguntar isso?
Mas cuidado meu caro… Os olhos que se abrem, jamais se fecham, a mente que se expande, jamais retorna ao seu estado original.

Apodrecer da mente

Um dia lindo, mas não, pois se o dia fosse feito de sol ou brisas, de frescor e calmaria, todos os dias poderiam ser lindos dias, onde tudo daria certo, onde todas as coisas estariam em seu lugar. Com meus olhos vejo tudo isso, através de uma janela  com adesivos fume para diminuir a claridade natural do sol, grande  coisa, as lâmpadas de neon em cima da minha cabeça apenas me mostram a esterilidade da sala de aula da universidade.

Meu intelecto que deveria ser regado com o conhecimento dos professores mais parece pisoteado por interpretações pobres vindo de leituras maçantes de grossos livros onde simplesmente me despejam conceitos e frustrações pessoais. Minha mente se defende, divaga, sonha acordada. Meus olhos voltam à janela escurecida, as arvores do pátio dançam tocadas pelo vento, tão exuberantes, tão simples e belas, tão belissimamente simples que chegam a ser caricias e poesia para a mente inquieta e que se defende em um ambiente estéril que deveria me adicionar valores inestimáveis. Mas isso simplesmente não acontece e para meus ouvidos, o canto de um pássaro consegue superar a voz melancólica e cansada do professor, que reclama e enfia goela abaixo em seus alunos palavras desanimadoras e um ensino que mais atrapalha do que ajuda.

Não me surpreende que a maioria das mentes brilhantes e de sucesso nunca conseguiram terminar um curso na universidade, e estamos falando dos países de primeiro mundo, agora entenda que estou no Brasil… Quando penso assim, muitos me  censuram e tantos outros me criticam, mas ao que parece, apenas eu sinto o canto do pássaro e o farfalhar das folhas pelo vento.

Realidade 2.0

Primeiro eu achei que era uma brincadeira, só poderia ser. A ideia de que alguém construiu em um computador um outro mundo e, aí vem a parte engraçada, conseguiu criar uma porta que o levasse para esse mundo, só poderia ser uma piada. Mas não era.

Eu o conheci online, depois o visitei em casa. Seu nome era Ichiro, um japonês cansado, de olhos fundo e a barba sempre a fazer deixava seu rosto quadrado como um cubo de Rubik, só não era colorido. Esse homem me mostrou todo seu projeto, no porão da casa de seus pais. Um laptop plugado a uma grande máquina e da máquina, fios emolduravam uma porta de madeira que dava acesso a um quarto de ferramentas, os fios eram conectados a pequenos cubos de ferro onde um led verde ou vermelho piscava regularmente. Era um caos, mas ele não se perdia naquele emaranhado.

Ichiro conseguiu juntar mais seis pessoas que acreditavam em seu projeto e o financiaram, não com muito, por mais incrível que tudo aquilo parecesse, não era caro, apenas trabalhoso. Todas essas pessoas se uniram ao japonês por um simples motivo.

Sua vida era sem graça. Achavam a realidade extremamente entediante e monótona.

Eles se dispuseram a participar do seu projeto e eu também pois compartilhava da sua visão sobre o mundo. Era sem graça, monótono e sem sentido. Ajudei ele com alguns detalhes, estudamos possibilidades, modos, meios e tudo que era preciso para criarmos o mundo e sua porta. Por mais que eu estudasse e o ajudasse, era a sua ideia, sua genialidade que tornou aquilo possível.

Nos reunimos em uma manhã quando finalmente abrimos aquela porta e lá estava, ao invés do quarto de ferramentas, uma grande planície, linda, a paisagem perfeita imaginada por uma das mulheres do grupo. O céu, as nuvens, a grama e as flores… Tudo era perfeito. Eles entraram sem pensar duas vezes, eu segurava a porta aberta.

Havia um porem com a porta, no momento que ela fosse fechada, não haveria volta. O portal seria fechado e nunca mais aberto. Votamos por deixar a porta aberta, mas quando eles entraram e finalmente sorriram, eu entendi.

Aquele mundo era o mundo deles e nunca precisariam voltar, essa realidade era horrível para eles, mas não aquela, nunca seria. Olhei o laptop, olhei a máquina e percebi que, se elas fossem desligadas, o mundo iria se perder e inclusive eles que foram capaz de adentrar naquele novo universo.

Com a pior sensação de perda que já tive em minha vida, cerrei os olhos e fechei a porta. Seria o guardião daquele mundo, estaria cuidando para que todos pudessem aproveitar uma vida naquele lugar.

Não sabia como explicar para os pais de Ichiro a ausência do filho, então por falta de desculpa melhor, disse a eles que fiquei encarregado de terminar seu projeto enquanto estivesse ausente, mas sobre sua ausência nada pude dizer. Em uma noite em especial, notei que algo estava incoerente no algoritmo que Ichiro criou e, acima de tudo, sobre a possibilidade da criação de um mundo virtual. Ele não compartilhou uma informação essencial comigo, a de que não era possível transformar matéria em dados e vice versa, logo, sua porta de fato foi aberta para outro mundo mas de longe era virtual. Passei meses analisando os dados até descobrir que de fato ele criou um universo naquele porão, mas aquele universo era físico e real, e ao se expandir, tomou para si uma das 11 dimensões.

Ele sabia que eu não concordaria com isso.

Já ouviu dizer que nada se cria, tudo se transforma? A partir dessa ideia você pode entender que eles destruíram matéria deste lado, já que a levaram para aquele outro. O resultado disso a longo prazo não poderia ser calculado, mas com certeza não poderia ser algo bom.

Através do laptop enviei uma mensagem para o grupo, que logo responderam que eu estava me preocupando a toa, que não haveria efeitos colaterais e que tudo ficaria bem. Após alguns dias recebi outra mensagem, de um dos membros do grupo, dizendo que eles estavam dispostos a ficarem lá não importando as consequências acarretadas no nosso mundo. Eu entrei em pânico. Tentei abrir a porta, religar a máquina do portal, cheguei ao ponto de pensar em desligar o computador, mas isso apenas traria a certeza de que eu teria apagado toda a matéria deles que pertencem a esse mundo.

Quase um mês depois, Ichiro concordou em voltar com o grupo e poderia recriar a máquina, faze-la funcionar da forma correta, trocando massas idênticas para que não houvesse desequilíbrio entre nenhum dos mundos e foi o que eu fiz, durante dois meses construí uma “válvula de escape”, uma forma de abrir a porta ao contrário, Ichiro teve de construir a mesma coisa do outro lado, mas ele levou questão de segundos, o que pensassem se concretizava daquele lado. Parecia maravilhoso a ideia mas eu estava muito preocupado para admirar a proeza.

Graças a uma trava de segurança que Ichiro havia implementado no algoritmo chamada “Buraco negro de Monroe” não era possível trazer nada daquele mundo para o nosso, exatamente com a ideia de que não interferíssemos na nossa realidade voltando daquela outra com coisas maravilhosas ou até mesmo perigosas.

Então ativei o Buraco negro de Monroe e desativei a trava, o processo havia iniciado, na tela negra do laptop as linhas de comando em branco passavam ligeiras, mostrando todos os passos que estavam sendo executados até o momento que começou o processo de transporte.

O maior medo que senti foi a ler os nomes, de um a um, de quem havia voltado. Havia o de Ichiro e os outros seis, mas também havia mais dois. Duas entradas onde diziam <nome_desconhecido transportado com sucesso>.

Ichiro não conseguia entender o porquê eles haviam sido transportados já que não havia razão para tal e, além disso, qual das inteligências artificias daquele mundo que foram tragadas pelo Buraco negro de Monroe, e também onde as entidades foram parar, já que não estavam naquele porão.

Foi então que percebi nossa sucessão de erros. Primeiro anulamos a existência da matéria deste lado e, então, destruímos a existência também do outro. Houve aí um desequilíbrio não só do nosso universo mas aquele que criamos que, por ser físico, responde as mesmas leis que o nosso. O problema foi que, naquele mundo, poderiam ser o que quisessem e todos estavam mais fortes, mais magros e esbeltos… O peso deles havia mudado e, quando retornaram, não era o mesmo peso que esse universo precisava, o Buraco Negro de Monroe foi obrigado a pegar mais duas entidades para que o peso entrasse em acordo com a massa total do nosso universo.

Sei que pode soar complicado, mas não é. Como eles entraram com um peso , esse mesmo peso deveria voltar, então eles voltaram com um peso y e o necessário para nosso universo se estabilizar seria então . Mas a diferença de x e y significou uma massa equivalente a duas entidades daquele lado que passaram para cá para que assim o universo voltasse a ter sua massa de sempre.

Eles estavam preocupados em saber como voltariam para aquele outro mundo, o Buraco negro de Monroe seria usado para trazer massa daquele lado equivalente a massa deles, poderia ser até mesmo areia e eles fariam isso de novo, eu tenho certeza. Ichiro já cogitava criar outro mundo, melhor, outra porta, em outro lugar, uma máquina que seria abastecida e energia solar e por aí vai, ficaram teorizando e teorizando, mas apenas eu estava calado, o mundo deles já não me importava.

Eu fiquei preocupado não com eles, mas em quem eram os dois <nome_desconhecido> e o que fariam do nosso lado…

Agentes da Balança -O vermelho e o prata-

Eva não viu Adão aquele dia. Na faculdade ou depois dela, preferiu assim, até lhe agradou não o ter visto. Pela manhã seu corpo não estava tão dolorido ou cansado, pela tarde já se sentia sem nenhuma diferença. Isso a agradou e, no fim da tarde, a aventura com Adão já parecia ter sido a muito tempo, uma lembrança distante.

Um misto de tristeza e alivio confundia seus sentimentos enquanto dirigia tranquilamente pelas ruas noturnas da cidade. Eram sete horas e o horário para visita no hospital em que Olavo estava se estendia apenas até as oito e meia. Lembrava da visão e de Locke, do armeiro e da espada, da Baldur e Hodur. Ficava imaginando, fantasiando até, o que Olavo poderia descobrir do véu que tampava os mistérios de suas visões, mas ainda assim, algo a deixava triste.

Seria o descaso de Adão?

Ou seria o medo de que nada daquilo fosse verdade ou não tivesse sentido algum?

Ficou no carro alguns minutos antes de sair ao estacionar, a lua mantinha o brilho da noite anterior, as nuvens contribuíam para um céu limpo e estrelado. A recepcionista que lembrava um canário lhe entregou um crachá de visitante, que Eva prendeu no vestido preto que usava, ia até os joelhos, sem detalhes, de um tecido fosco mas de um negro sem falhas.

Olavo estava mais corado, sua aparência débil ainda permanecia inalterada. Selene também estava lá, sentada na poltrona, lendo sem muito interesse uma revista de fofocas. Eva a cumprimentou rapidamente e foi até a janela, abrindo as persianas e deixando que a luz do luar entrasse no quarto.

__Olá Olavo! Está melhor?

__Até que estou, ao menos a febre está mais fraca.

__Que bom… –olhou para Selene que lia a revista com leves oleiras no rosto- Olavo… O que é Lunin Solza?

__Eu não sei. –apertou um botão na cama e ela começou a se inclinar para frente- Eu sei que esse nome vive ressoando na minha cabeça. Amanhã eu já vou receber alta e vou poder sair, vou atrás do que significa.

__Aí –Selene se intrometeu- Isso não é nada, você estava viajando na febre.

__Não, significa alguma coisa, eu sei e eu vou descobrir o que é. –Olavo olhou para Eva, estava simples mas linda ainda assim- E você Eva, o que acha disso? Por que o interesse?

 __A história é longa… –disse um tanto desconfortável- Mas eu não sei o que pode significar… Eu acho que, não sei bem, mas se você souber onde procurar, deveria dar uma olhada. Existe tanta coisa que não podemos explicar nesse mundo…

Eva ficou lá durante todo o horário de visitas e Olavo agradeceu profundamente a presença daquela mulher ali. Estava entediado, cansado e frustrado pela doença que o debilitava, ainda mais por não lembrar de nada do dia passado. Sabia que tinha andado, e muito, quase vinte quilômetros em baixo de sol quente e descalço. Os pés enfaixados incomodavam, as pernas doíam o tempo todo, a coluna parecia ter sustentado o peso do mundo nas costas. Receberia alta no dia seguinte, mas seu pai já havia comprado as muletas que teria de usar durante quase um mês.

Isso o entristecia, mas a presença de Eva parecia fazer tudo aquilo desaparecer.

Por Eva, sabia que faria tudo de novo.

Já era madrugada quando Olavo levantou da maca e caminhou lentamente até a janela. Estava sozinho no quarto, abriu a janela e se encostou na parede, respirando o ar da noite e deixando o luar lhe tocar a face. Fechou os olhos e sorriu, sentia-se revigorado ao estar ali, com os pés machucados doendo no chão, mas ainda assim, sentia como se uma força o alimentasse. Podia até contemplar o que era Lunin Solza, ela brilhava, era curvada e lembrava as terras árabes.

Quando Selene voltou para o quarto, viu Olavo sorrindo, ainda de olhos fechados. Ao seu redor uma suave aura esbranquiçada, alva como o próprio luar cobria todo seu corpo. Selene o olhou da cabeça aos pés, aquela aura também estava onde a luz não o tocava. A garota o guiou de volta para a cama, mas a imagem da aura que viu em Olavo ainda permanecia em sua mente, não sabia se era um efeito do luar ou se realmente alguma coisa diferente estava acontecendo com o irmão.

Em seus sonhos, Olavo caminhava em um deserto, sob o luar. Usava uma túnica amarela, pesada e, amarrado na cintura, estava um cinto de couro grosso, enrolado diversas vezes ao redor do corpo, onde Lunin Solza era carregada.

Já era sexta-feira e Eva ainda não havia encontrado com Adão novamente. Ele não havia ligado, a procurado na faculdade ou mesmo em casa. Eva praticava sua arte tediosamente, pintava um quadro onde copiava o seu celular, abandonado sobre a cômoda, tons pasteis e sombras deixavam o aparelho ainda mais triste, como se esquecido, como se esperasse por alguém. Nos toques finais, Eva sabia que era a ligação de Adão que esperava. Controlou a raiva e a vontade de destruir aquele quadro, esperando que aquela sensação fosse embora. 

Mas não o fez, sabia que a sensação não a abandonaria…

No fim de tarde de sexta, Adão experimentava duas braçadeiras, ajustando o couro e as presilhas no antebraço. Passou a semana inteira treinando e aperfeiçoando aquelas duas peças, até que se deu por satisfeito quando elas finalmente lhe serviram, ficando justas em seus braços. Fernanda havia chegado de viagem na quinta-feira, trazendo com ela uma boa quantidade de dinheiro pela venda dos quadros de Damasceno, comemoraram, fizeram amor, tudo como manda o figurino, mas Adão voltou para forja deixando Fernanda na cama, sozinha, até concluir seu trabalho. Era o que queria, e conseguiu.

Movia os braços para cima e para baixo, sentia o peso das braçadeiras, mas não o incomodava, conseguia se movimentar sem problemas. Como uma criança que fez um trabalho bem feito, correu até a sala e mostrou para uma Fernanda seminua no sofá, que assistia a um filme cult dos anos 70. Ela tocou o aço, avaliou o trabalho e o parabenizou com um sorriso e um beijo sincero. Eram realmente bonita as braçadeiras, o aço cromado refletia uma Fernanda desfocada e embaçada, mas não se esperava mais daquele material e ela sorriu ao se ver daquela maneira, sem uma forma definida.

Passou pela sua cabeça cortar os cabelos e usar um corte curto e militar.

Passou pela sua cabeça aqueles sóis estranhos que Adão desenhava sem parar.

Desviou o pensamento voltando para o sofá e o filme que assistia.

Banteng encarava Olavo de forma duvidosa. Tudo bem, sabia dos lacaios e o que seu pai lhe havia ensinado, mas para ele, Olavo era franzino e doente demais para suportar o que estava por vir e, levando em conta a veracidade dos acontecimentos, seu oponente o esmagaria como uma uva entre os dedos. A caixa em que Lunin Solza repousava estava sobre o balcão, a loja já fechada, Olavo curioso não conseguia conter o nervosismo enquanto Banteng ponderava se realmente lhe entregaria aquele objeto.

__Posso pelo menos ver o que é?

__Não. –respondeu cruzando os fortes braços sobre o peito- Já disse, espere meu pai sair do armazém.

__Mas ele já está lá a horas!

__Você está aqui a menos de meia hora. Controle-se! Você nunca nem a viu? Nem em sonhos?

__Não. Sei que eu a carregava em um deserto, mas não a vi, não sabia o que era. Mas só posso imaginar que seja uma…

__Banteng! –disse o armeiro, o corpo encurvado saia sem esforços da pequena porta- Se ele disse o nome, ela pertence a ele! Por quê hesita?

__Olhe você mesmo para ele, pai. Não sei nem mesmo se o homem consegue levantar uma arma!

__Uma arma? –Olavo arregalou os olhos, depois voltou a encarar a caixa- É uma arma?

O armeiro pegou a caixa de madeira velha e a abriu, revelando uma cimitarra, uma espada de lamina curva, com uma empunhadura de couro vermelho. Sua lamina era lustrosa, refletia bem os olhos de Olavo, cansados e fundos, mas surpresos e admirados. Era uma espada, era uma arma e parecia bem afiada.

__Lunin Solza… –tocou a empunhadura, deslizou os dedos e depois a segurou com firmeza- É a minha espada!

__Sim, é. –Banteng observava bem aquele momento em que Olavo se perdia em admiração pela arma- E o que você vai fazer com ela?

__Isso não é da sua conta Banteng. –disse com rispidez o armeiro- Deixe que o homem siga seu destino. Não esqueça de devolver quando terminar.

Olavo pode sentir a areia nos seus pés, o vento gelado do deserto, o peso e a dormência no braço de incontáveis combates. A experiência do manejo daquela arma parecia ser apenas uma memória latente que agora estava totalmente desperta, como se sempre soubesse como brandi-la. Sabia quem era o seu inimigo e não importava o porquê.

Era por ela que lutaria, por Eva.

Adão ainda estava com as braçadeiras quando Fernanda saiu para mais um evento, ainda viu Olavo chegando a pé, carregando uma caixa de madeira velha debaixo do braço. Se cumprimentaram se seguiram seus caminhos.

Tocou a campainha um tanto nervoso e logo foi atendido por um Adão sorridente, de braços abertos que pediu que entrasse. Levou Olavo até a fornalha e vestiu as braçadeiras molhadas de suor para mostrar para o amigo. Ele por sua vez abriu a caixa e pegou a espada.

__Opa! –disse Adão surpreso- Onde arranjou essa arma?

__Ela é Lunin Solza. –disse refletindo a luz da lua em sua lamina- E você… Você é o mal que macula a noite.

__Anh… –Adão o olhou sem entender- Desculpe?

__Você é o inimigo da noite Adão!

__Ei! Se você está bravo comigo por que eu transei com a Eva… Cara, isso não é motivo para…

Adão esquivou do primeiro e do segundo golpe, Olavo brandia aquela espada como se já estivesse acostumado com ela, a precisão dos seus golpes surpreendeu seu adversário. Pego desprevenido, Adão não sabia como lidar com a situação, apenas pensava no que poderia estar acontecendo.

__Ei Olavo! Pare com isso! Que porra é essa?

Olavo atacou novamente, descendo a espada sobre Adão. Ele defendeu com a braçadeira, sentiu o impacto no braço, o peso do golpe. De onde aquele homem fraco e doente conseguia toda aquela força? Pensou quando defendeu mais um golpe, a lamina zunindo e vibrando pelo golpe no aço.

__Olavo, não sei que porra você está fazendo, mas eu vou ter que quebrar sua cara se você não parar com…

Olavo deu uma estocada com a espada, acertando de raspão na lateral do abdômen de Adão. O sangue escorreu sem pressa, a dor latejou em aviso. O homem pôs a mão e viu o sangue nos dedos, seu inimigo não sorria, mal esboçava alguma expressão. A lamina da espada estava linda, brilhante, sem uma gota de sangue.

__Foi só um arranhão… –disse para si mesmo, assustado- Mas que porra…

Um golpe o pegou de surpresa, Adão defendeu com os braços juntos sobre a cabeça e, depois do impacto, perdeu o equilíbrio, dando passos trôpegos para trás até que bateu as costas na fornalha quente. Por sorte não se queimou, mas encontrou um martelo no alcance da mão. O pegou e ameaçou dar um golpe no amigo, que não recuou, apenas parou, o olhando, como um caçador esperando o movimento da sua presa.

Adão já havia visto aquela lamina, podia ter certeza que sim.

__No início minha mestra reinava soberana, linda em sua paz primordial. Por que você decidiu pôr um fim a isso?

__Eu não sei do que você…

Desviou de um golpe que teria lhe custado o braço, a lamina bateu na forja e arrancou uma lasca de concreto. Adão tentou golpear mas o martelo era pesado, estranho, não conseguia conter a investida que fez, era muito desengonçado com aquilo. Olavo esquivou sem dificuldades e em um contra ataque, acertou um golpe em seu peito. Lunin Solza cortou fundo, o sangue verteu com vontade e empapou a camisa rapidamente.

Empalideceu, o suor escorria de sua testa pelo seu rosto, estava com medo. Olavo estava certo do que queria e deixou bem claro neste golpe. Via aquele que era seu amigo ali, os pés ainda enfaixados, o corpo franzino, o rosto sem expressão. Queria ver um sorriso, queria que ele se preocupasse e dissesse desculpas, que foi longe demais.

Mas não aconteceu.

Adão parou e manteve o martelo levantado, esperando o próximo ataque, mas parecia que Olavo havia adquirido uma experiência em combate fora do comum. Ele descansou a espada abaixando o braço, relaxando os músculos e a tensão, ao contrário de Adão, que forçava o braço a segurar o martelo e começava a se sentir tonto.

__Por que você não brilha? –disse Olavo o encarando- Vê? Estamos sob o véu de minha rainha, você não pode…

__É, eu não posso. –disse e abaixou o martelo- Puta que pariu, acho que você vai me matar mesmo… E tudo por causa de uma boceta.

__Ainda zomba? –sorriu-

__Rainha, mestra, que porra idiota… É só mais uma boceta que comi e pronto. Levei duas facadas por isso? –riu- Quer saber Olavo? Você sempre foi muito frouxo para conseguir alguma mulher. Você é o marmita, sabe que é. Esquenta para os outros comerem.

__Vou acabar com sua vida de uma vez. –aprontou a espada e a girou- Vou arrancar seu coração em nome de…

Adão investiu em uma corrida desesperada, Olavo apenas sorriu, preparado para lhe  dar o golpe de misericórdia assim que chegasse mais perto.

Mas ele não chegou.

Adão arremessou o martelo parando a poucos passos do alcance da espada e Olavo. Ele tentou desviar, mas estava muito próximo e ainda assim o acertou no ombro, esmigalhando os ossos da clavícula, do braço e algumas costelas. Ele caiu no chão e a espada foi atirada longe.

__Puta que pariu… –disse Adão ofegando e segurando o corte no peito que ainda sangrava- Acho que matei… –Olavo se levantou com apenas um braço, o rosto com uma expressão clara de dor- Ah, graças a Deus.

Olavo correu curvado, sem jeito até a espada e Adão de volta a forja, pegou outro martelo, ainda maior e mais pesado. Sentiu o peso, deu dois golpes no ar e o segurou com as duas mãos. Agora sim, pensou, esse vai servir.

Olavo balançou a espada com o outro braço, mas não conseguiu o resultado que esperava. O ombro quebrado inchava e o braço pendia mole, imóvel.

__Vai embora cara. –gritou Adão- Seu louco! Vai embora daqui!

Ele resmungou alguma coisa e correu até a caixa de madeira, pegando com dificuldade e saindo pela mesma porta que entrou. Adão correu até a porta e ainda pode ver ele dobrando a esquina, correndo de forma esquisita, quase sem se importar com a dor no ombro. Bateu a porta e a trancou, ainda sangrava, mas sabia que o corte não era assim tão profundo.

Ligou para Rodrigo, mas não foi atendido. Não queria ir para o hospital, nenhum médico ia cair em uma conversa fiada vendo os dois cortes. Não podia incriminar Olavo, acreditava que o amigo estava febril, doente, que a doença que a tanto ia lhe degenerando finalmente havia lhe atacado a sanidade.

Ligou novamente, sem resposta. Pensou em quem ligar, Fernanda iria carregá-lo direto para um hospital e que se fodesse Olavo, ele era mais importante e a vítima ali.

Riscou o nome de Fernanda.

Ligou então sem muita vontade, não era o número que queria discar, mas era o único que poderia contar naquele momento.

Agentes da Balança -Locke-

__Mas pai! –Locke gritou- Minha vida é aqui! O que você quer indo para um país tão longe? Nem mesmo neva lá!

__Claro que neva.

Seu pai era um homem grande, um tanto redondo. Tinha uma barba grossa, cheia e de um louro limão. Seus olhos eram escuros, castanhos, diferentes do de Locke, o cabelo ia até os ombros, presos em um rabo de cavalo arrumado. Seu terno estava desabotoado, a barriga saliente estava à vontade na camisa social branca. Era um homem grande, quase dois metros de altura.

Locke massageou as têmporas, não aceitava a ideia de abandonar a Eslovênia, de abandonar sua vida, seus amigos, seus amores… Até mesmo a política do país lhe interessava. Seu pai sentou em uma poltrona laranja e suspirou, não gostava de ver Locke daquela forma, sabia de sua capacidade, de seus talentos.

__Locke… Você sabia que esse dia chegaria.

__Não, você me disse que um dia, talvez, pode ser que iriamos nos mudar para o Brasil. É bem diferente de –disse imitando a voz do pai- “Locke, agora nós vamos para o Brasil, arrume suas malas”.

__Lembra das aulas de português? Lembra dos livros sobre a cultura daquele país e tudo mais? Locke, seremos felizes lá. –sorriu sincero e fraterno- Eu sei que terá que recomeçar sua vida naquele país, mas sabe que seremos muito mais ricos lá do que aqui.

__Não se trata do dinheiro. –Locke caminhou em passos rápidos pela casa, apanhando seu cachecol e suas botas- Se trata de… –Baldur veio a mente, junto com a arvore parasitada pelo visco- Se trata de quem eu sou.

“Se trata de quem eu sou”. Repetiu em sua mente. Ao abrir a porta, pegou a pá em um suspiro aborrecido e começou a tirar a neve do caminho para a rua. Seu pai sorriu e se levantou, pegando outra e indo ajudar Locke. Quando terminaram, ele sorriu e se apoiou na pá, ofegante.

__Você nunca mais vai precisar fazer isso.

Locke fincou a pá no chão, o rosto vermelho, os olhos da cor do mar estavam cheios d’agua. Sofria, sentia a dor de perder tudo pelo que lutou, tudo que criou e cultivou. Era uma eslovena, não uma brasileira. Se ajoelhou e apanhou um punhado de neve suja, a amou como era, perfeita em sua impureza. Olhou para o pai que retribuía o olhar de forma mais amável possível, mas Locke não suportava o fato de precisar ir embora.

__Tudo bem. –disse e levantou, devolvendo a neve para o chão- É amanhã?

__De madrugada. Viagem de urgência. –pegou a pá de Locke e voltou para dentro da casa-

__Filho da puta. –disse por fim quando o pai fechou a porta-

Locke tremia com as mãos no bolso, os braços juntos ao corpo. Tentava não mostrar o nervosismo enquanto o homem da loja tediosamente pegava o troco da caixa registradora antiquada. Ele olhou para Locke como se olha para um criminoso de rua, comprando uma faca para tentar seu primeiro roubo, mas não era proibido por lei, logo Locke poderia comprar o que quisesse naquele supermercado.

Tinha comprado uma faca pequena de caça e um pacote de bolacha. Quando o homem olhou para Locke tremendo com as mãos no bolso, simplesmente disse que era para o seu pai. O caixa deu de ombros, um sorriso com barba a fazer que agradou Locke. Depois de lhe devolver o troco, o homem no caixa se apoiou no balcão de madeira e chamou sua atenção.

__Eu não sei o que você vai fazer com essa faca, e não me importo. –disse sorrindo- Mas eu posso te perguntar uma coisa?

Locke suspirou sem paciência e ajeitou os óculos vermelhos no rosto, forçando um sorriso.

__Claro.

__Se eu te convidasse para sair… –limpou a garganta, olhando para os lados- Eu seria um gay ou um macho?

Os olhos caribenhos brilharam e Locke sorriu sacana, pôs as duas mãos na cintura e inclinou um pouco o corpo para frente. Usava uma jaqueta verde de lã pesada pelo frio, seu corpo escondido pela roupa que lhe protegia do inverno.

__Vai ter que descobrir quando tirar minha roupa, topa?

O homem riu um tanto constrangido com a resposta tão direta e atendeu outro cliente que já despejava as compras no balcão de madeira. Locke deu de ombros e disse um “você que está perdendo” enquanto caminhava sem pressa para fora do mercado. O caixa ainda olhou Locke saindo, quase em um rebolado. Ficou realmente curioso em saber se Locke era uma menina com cara de menino ou menino com cara de menina e sentiu receio de si mesmo, qualquer das opções estaria errado na concepção dele.

Estavam caminhando fora dos limites da pequena cidade, passando entre pinheiros acinzentados e coberto por uma fina camada de neve. Ela se acumulava gentilmente nos galhos, fazendo o papel das folhas que antes ficavam ali. Baldur ia na frente, meio sem jeito, caminhando um tanto apressado, sorridente. Se apoiava em um ou outro pinheiro enquanto, ao tropeços, desciam em direção a um riacho que passava na região.

__O que foi Locke?

__Quieto! –disse com as mãos no bolso, a testa franzida em linhas retas-

__Vamos para o riacho? –perguntou com o mesmo sorriso, Locke viu seus lábios circulados por aquela penugem que se esforçava para ser barba- Eu lembro quando fomos lá a primeira vez…

__Quieto! Já disse, quieto!

Baldur levantou as mãos em um “tudo bem” e continuou andando. Parou um momento ao ver um coelho se afundando na neve, saltando novamente e mergulhando. Imaginou uma coisa boba, “os coelhos são os peixes da neve”. Riu de si mesmo e voltou a caminhar, Locke olhou o coelho marrom sujo de neve, saltando para longe deles e pensou a mesma coisa, mas não riu.

Quando chegaram ao riacho, a água escorria fina, as margens levemente congeladas. Havia pedras grandes e redondas por toda a extensão que viam até entrar na floresta, onde se estreitava ainda mais e desbancava em uma série de rochas, onde fez o seu caminho ao passar dos séculos, as pedras esculpidas pela água. O riacho se estreitava ali a não mais que dois metros, escorrendo rápido e seguindo seu caminho. Baldur sorriu ao ver como a natureza era bela ali, as pedras no meio do riacho eram cobertas por um musgo verde e salpicadas de branco pela neve, saltou sem medo sobre uma delas e ficou olhando a água que passava entre aquela rocha, um sorriso sincero no rosto esculpia aquela cena.

Locke olhava para Baldur com um misto de raiva e pena.

__Eu vou embora Baldur.

__Mas já? Nós acabamos de chegar!

Locke segurou firme o cabo da faca por dentro da jaqueta.

__Eu vou embora para o Brasil.

Baldur ponderou por um momento, tentando se lembrar onde ouviu aquele nome.

__É um país, em outro continente. –respirou fundo, sentia a mão suada em volta do cabo- Eu não vou voltar mais Baldur, vou embora hoje de madrugada.

O rapaz saltou de volta e escorregou, caindo de quatro na margem do lago. Locke se agachou e o ajudou a se levantar. Seu rosto estava vermelho de vergonha, os olhos cheios d’agua pareciam ainda mais com grandes bolas de gude do que antes. Locke bateu a neve de seus braços e acariciou seu rosto, segurava as lagrimas que insistiam em se formar ao vê-lo assim.

__Mas Locke… Você é tão importante para mim quanto Hodur. –pensou por um momento e disse choroso- Hodur é meu irmão, você é diferente, você é um importante diferente…

__É, eu sei. –os lábios tremiam, uma lágrima escorreu no rosto firme de Locke- Eu sei, você também é um importante diferente para mim. –o rosto de Baldur estava frio, gelado, sentia na ponta dos dedos- Você… Você não faz ideia do que sente por mim, não é?

Baldur abaixou o rosto por um momento, não conseguia raciocinar direito sentindo o toque de Locke em seu rosto, sempre admirou aquela pessoa que estava ali, em sua frente, lhe tocando de forma tão carinhosa, tão compreensiva. Era a única pessoa que o entendia de verdade, que realmente gostava de conviver com ele, não apenas na escola, não apenas como “um garoto inteligente” na turma, mas uma pessoa, um homem.

__Não sei não Locke. –disse em um sorriso bobo- Mas… Você sempre vai ser a pessoa mais especial para mim.

Baldur se segurou um pouco e depois abraçou Locke com força. Aquela pessoa que lhe era tão especial retribuiu o abraço, segurando-o com firmeza. Era incrivelmente fofo, pensou, era como abraçar um grande urso de pelúcia. Locke afagou os cabelos esquisitos de Baldur por um tempo depois os segurou com força e os puxou, deu-lhe um beijo estralado nos lábios e o encarou por alguns segundos, onde Baldur retribuía o olhar com um sorriso acanhado e corado.

__Isso foi…

__É. –responde Locke- É, é, é… Tá! Vai embora! Xô! Corre! Foge! Some!

Baldur sorriu e voltou a caminhar, fazendo o caminho de volta. Quando subiu um pouco o morro, se apoiou em um pinheiro para não cair e gritou para Locke.

__Ei! Você sempre vai ser minha pessoa mais importante!

__Ainda está aqui? –gritou de volta- Vai embora!

__Ainda vamos nos falar pela internet, não é? –disse esperançoso- Boa viagem Locke!

__Vai embora caramba! –se agachou e fez uma bola de neve, jogando em Baldur- Sai! Me deixa só!

Baldur fez o mesmo movimento de “tudo bem” e voltou a caminhar. Locke sentou na neve segurando o choro até que ele se afastasse o suficiente, depois deixou-se chorar a vontade.

Eslovênia… Locke olhou aquele riacho e se levantou depois de quase meia hora, pegou a faca e jogou-a no riacho, com raiva. Quando enfiou a mão no outro bolso, lembrou da bolacha que havia comprado para Baldur e que havia esquecido de lhe entregar, era a sua preferida, recheada de polpa de morango.

__Filho da puta… –encarou o brilho da faca na água cristalina- Filho da puta… Eu ainda mato aquele filho da puta. –olhava a bolacha e sentia o carinho que tinha por Baldur- Filho da… –jogou também o pacote de bolacha no riacho, a raiva fluía sem rédeas- Filho da puta! –gritou- Eu ainda te mato seu maldito! Eu vou voltar só para te matar Baldur seu filho da puta!

Agentes da Balança -Lunin-

Rodrigo esmurrava com força o portão da casa de Adão. Os vizinhos mostravam a cabeça pela janela e observavam o homem esmurrar o portão bege e sem detalhes. O barulho era alto, incomodo e constante. Ele gritava e bravejava, tocava o interfone e nada. Se afastou por um momento e acendeu um cigarro, encarou os vizinhos curiosos e os mandou cuidarem da própria vida. Não chegou a das duas tragadas e voltou a esmurrar e chutar o portão.

Quase cinco minutos depois, Adão abriu a porta ao lado do portão e o olhou, os olhos ainda se acostumando a claridade. Rodrigo parecia um dragão, a fumaça saia consistente da boca, a testa tão franzida que os olhos ficavam miúdos naquele rosto. Adão sorriu sem jeito, apenas de bermuda, controlava a respiração. Foi pego em um dos momentos fogosos com Eva.

__Mas que porra Adão! Por que não atende a porra do seu telefone? Tem essa merda para quê? Enfiar na bunda? Mas que porra!

__Ei, ei… –o convidou a entrar, mas ele recusou- O que houve?

__Olavo está sumido. Selene ligou para todo mundo o procurando. Teve uma recaída ontem, piorou, o pai o levou ao hospital. –deu uma tragada longa e o encarou- Ele receberia alta pela manhã, estavam acostumados com isso, não é a primeira vez, mas Olavo sumiu. Deve ter saído enquanto o pai dormia. Selene está desesperada atrás do irmão, ninguém sabe o que aconteceu com ele. E você aí trancado dentro de casa.

__Eu não tenho bola de cristal para adivinhar as merdas que vão acontecer também né Rodrigo?

__Mas você tem um celular porra! –deu uma tragada longa e atirou o cigarro na rua, sem terminar- Olha, vou atrás da Eva agora, vai ver ele foi na casa dela ou sei lá.

__Não, não… –disse e se aproximou do Rodrigo- Depois que Eva me trouxe da sua casa ela acabou ficando por aqui.

Rodrigo cruzou os braços e o olhou com os olhos cerrados. Sorriria se não estivesse preocupado com Olavo. Alisou o queixo e voltou para o carro, parando na porta.

__Sabe de algum lugar que ele possa estar?

__Não sei Rodrigo. –respirou fundo e coçou a barba- Mas vou só por uma camisa e vou ajudar a procurar. Só não sei aonde começo… Pelo que sei ele pode estar em qualquer lugar.

__Também não sei aonde procurar Adão. –confessou um tanto frustrado- Não faço a menor ideia. Vou a bares, lojas, não sei… Selene e o pai já procuraram na faculdade e nada. Tentamos ligar para a polícia mas os filhos da puta falaram que apenas depois de vinte e quatro horas que é considerado desaparecido.

__Certo, vou ver o que eu faço também. –Adão coçou a cabeça, perdido- Nenhuma dica, nenhuma informação, nenhum nada?

__Selene disse que tinha ligado para ele, mas depois que atendeu, ouviu como se o celular tivesse caído no chão e ficou lá, depois só ouvia o barulho dos carros passando.

__Não é muita informação mesmo. Certo, nos vemos mais tarde então.

Eva estava sentada no sofá vestida apenas com um roupão de Adão. Acompanhou com os olhos o homem entrar, parecia preocupado, nervoso até. Ela não disse nada, apenas esperou que se explicasse.

__Precisamos ir Eva.

__Fernanda está vindo para cá? –disse com um sorriso maldoso-

__Não, é Olavo. Ele está perdido desde ontem à noite, ele fugiu do hospital de madrugada.

Eva saltou do sofá e foi a passos largos para o quarto, pegar suas roupas e se vestir, Adão a acompanhou. Quando ligou o celular, viu algumas chamadas perdida, como imaginou, do seu trabalho, de Fernanda, Selene e Rodrigo. Vestiu-se rapidamente, nervoso, sem conseguir imaginar onde procurar.

__Tem ideia de onde ele foi? –disse Eva pondo os brincos-

__Não, nenhuma. –Adão calçou o tênis e saiu do quarto, falando alto- Vamos dar uma volta por aí. –o celular vibrou no bolso, era uma mensagem de Rodrigo- Vou procurar nos hospitais, Rodrigo me deu a ideia, ele está fazendo o mesmo. –sorriu ao ver os nomes- Ele me passou até um roteiro, olha só… –achou graça em como a mensagem era bem organizada- Foi uma boa ideia.

__Realmente, vamos? –disse incrivelmente arrumada em tão pouco tempo- O que foi?

__Nada… Você é rápida.

Já era quase seis horas da tarde, Adão visitava o ultimo hospital sem sucesso. A enfermeira lhe lembrava uma toupeira, enfiada em um cubículo, via apenas do nariz para cima, com um olhar de tédio e frustração. Depois de dizer que ninguém que bate com a descrição foi internado ali, socou o balcão com raiva, sentindo a própria frustação. Eva o acalmou, lhe puxando pelo braço e dizendo para que continuassem a procurar.

Recebeu uma ligação de Rodrigo, disse que estava procurando nas delegacias e que retornaria assim que terminasse. Não havia muitas, pediu que Adão tomasse um tempo para si, para que as ideias voltassem para o lugar. Quando chegaram ao estacionamento, Adão olhou para a lua, grande e clara no céu. Faltava poucos dias para que fosse lua cheia, voltou os olhos para Eva que também olhava para o céu, em busca de respostas. Sua pele branca parecia brilhar sobre os raios lunares, isso mais o incomodou que o agradou.

O celular tocou novamente e Adão o atendeu prontamente, Ricardo o avisou que Olavo havia sido encontrado em um parque pelos vigias e levado a um hospital, cerca de trinta minutos atrás. Quando recobrou a consciência, pediu que o hospital ligasse para seu pai. Adão avisou a Eva que sorriu aliviada, o chamando para que lhe fizessem uma vista. Ricardo concordou com a ideia e decidiram se encontrar lá.

Voltaram ao hospital onde estava inicialmente internado, grande, moderno, com divisórias de vidro trabalhadas e com a pintura informativa em azul e verde claro. A recepcionista mais parecia um canário do que uma toupeira, o que imediatamente agradou Adão, que foi se informar com um sorriso sincero e cansado no rosto. Rodrigo vinha em um corredor, esquivando o corpo grande de macas ocasionais.

__Adão! –chamou com a mão- Venha.

A recepcionista fez um sinal positivo com o polegar e sorriu, ele agradeceu chamando Eva e indo um tanto apressado. Rodrigo cumprimentou Eva com um olhar que dizia “eu já te avisei, mas você que sabe, eu já tô sabendo de tudo”, ela sorriu um tanto corada, mas estava firme em suas escolhas, já se considerava adulta o suficiente para saber onde pisava.

Rodrigo levou-os ao quarto onde Olavo estava, era grande e espaçoso, mas só podiam entrar três pessoas por vez. Adão ficou do lado de fora e acenou para Olavo, que retribuiu o aceno em um sorriso fraco. Eva entrou e foi até o rapaz na maca, segurando sua mão. Ele recebia soro e respirava com ajuda de um pequeno tubo conectado ao seu nariz, estava desidratado, sua mão estava fria, fraca, mas segurou a de Eva com firmeza.

No quarto Selene estava em pé ao lado de Eva e seu pai, um homem que parecia um Olavo com 50 anos, gordo e saudável, com um cavanhaque loiro, estava sentado em uma poltrona, cochilando.

__Pegou mesmo então, não resistiu a novinha. –disse Rodrigo com um sorriso sacana-

__Não é hora cara. –respondeu Adão, os braços cruzados sobre o moletom branco-

__Olavo me disse que não se lembra de nada. –alisou o cavanhaque e encarou Adão- Nada. A última coisa que se lembra foi cochilar no sofá da casa com Selene ao seu lado, mudando canal da TV. Pelo desgaste que ele está, parece que correu uma maratona, tem queimaduras de sol, está muito desidratado… –respirou fundo e também cruzou os braços- Os pés estão feridos e queimados, parece que estava descalço todo esse tempo.

__O que foi que aconteceu, alguém tem alguma ideia?

__Não. Palpitaram o seguinte, que é a doença alcançando o cérebro, degenerativa sabe? Vamos lá fora, quero fumar um cigarro.

Olavo conversou um pouco com Eva, tentou explicar o que aconteceu e como chegou ali, Eva preferiu que conversassem depois, para que pudesse descansar, Selene concordou.

__Tudo bem. –disse com a voz fraca- Só abra aquela cortina, por favor.

Selene puxou a corda de bolinhas de plástico e a cortina se abriu, deixando a luz do luar entrar no quarto. O rosto de Olavo ficou mais claro com a luz, ele sorriu ao vê-la tão grande no céu e fechou os olhos. Eva afagou seus cabelos e lhe beijou o rosto, quando foi beijado, Olavo disse sem pensar.

__Lunin Solza. –piscou algumas vezes e olhou para Eva-

__O que foi que disse?

__Não sei. –Olavo sorriu- Eu disse alguma coisa?

__Luni Souza. –disse Selene com a testa franzida- É um nome? De alguém?

__Não foi Souza. –Eva fez mais um cafuné e se afastou- Descanse Olavo, amanhã à noite venho te ver, OK?

__Claro! –sorriu feliz com a notícia- Boa noite Lunin.

__Boa noite.

Eva saiu e Selene a acompanhou, fechando a porta do quarto. Ela caminhava em passos apressados, um tanto chateada pela situação em que Olavo se encontrava.

Lunin.

Eva sabia que já ouviu esse nome antes, só não lembrava onde. Adão e Rodrigo estavam próximos ao esportivo de Rodrigo, ele estava sentado no capô, fumando um cigarro, Adão ao seu lado, os braços cruzados e a testa franzida. Estava nervoso, incomodado. As duas garotas chegaram e atualizaram os dois sobre Olavo.

__Bem, eu preciso ir. –disse Adão-

__Eu também, preciso trocar essa roupa. –sorriu Eva, Selene a estranhou-

__Vamos, eu vou retribuir a carona. –Adão a chamou-

__Claro…-olhou para o hospital e lembrou de Olavo na cama, Lunin…- Claro, vamos.

Se despediram rapidamente, Rodrigo com um cigarro na boca olhou o carro sair do estacionamento e se distanciar. A fumaça lhe dava aquela aparência draconiana, um tanto ameaçadora. Selene estava acostumada com aquela cara e sorriu, pedindo um cigarro para o homem.

__Eu posso ser jovem, mas não sou burra. –Selene disse ao acender o cigarro- Puta que pariu esse Adão. Não sei como a namorada dele consegue ficar com a cabeça em pé.

__Ela dá seus pulos também. –completou- Ninguém é santo. Estou mais interessado em saber o porquê disso tudo.

__Como assim? Provavelmente beberam e Adão se aproveitou.

__Adão? –disse rindo, a fumaça saia do canto da boca como uma bafora se preparando para se cuspida- Adão se aproveitou? Você não é burra, mas também não precisa ser ingênua.

__Ele disse uma coisa, Lunin Solza. –Eva estava com as chaves de casa na mão, encostada na porta de ferro ainda fechada- Me lembra lua…

Adão estava encostado no capô, os braços cruzados, a testa ainda franzida. Agora que teve tempo para absorver as visões e o que estava acontecendo, sentia-se agoniado e impotente em não poder fazer nada.

__Ele estava delirando, conheço Olavo a muito tempo. Nunca tive nenhuma visão ou coisa do tipo com ele. –passou a mão nos cabelos e foi até Eva- Olha, vamos dormir, amanhã podemos nos encontrar na faculdade, se tiver alguma novidade, alguma ideia, podemos compartilhar.

__Sei. –disse desanimada- Vai voltar para sua casa agora, sua fornalha e essas coisas. Vai fingir que nada aconteceu?

Adão odiava essa pergunta.

__Não posso fingir que nada aconteceu, mas eu tenho minha vida, tenho Fernanda e…

Eva sorriu, como se ele tivesse caído em sua pegadinha.

__Não falo de nós, falo do que compartilhamos, nossas visões, aquela… Espada. –suspirou e olhou a lua com seu brilho complacente- Lunin Solza, eu tenho certeza Adão que isso tem algo a ver conosco. Eu vou pesquisar…

__Faça isso. –disse aliviado e voltou para o carro- Amanhã então?

__Até amanhã.

Eva se virou e mexeu um pouco nas chaves, esperou que Adão a chamasse, a convidasse para mais uma noite de conversa e aventuras, mas isso não aconteceu. Ele fechou a porta do carro, disse um rápido adeus e uma pequena buzinada. Ela olhou o carro partir e suspirou, sentia-se estranha ainda entre as pernas, sentia o corpo relaxado e cansado, tinha certeza que dormiria com a lembrança do corpo de Adão por cima do seu.

Se odiou por isso.