O Casulo

O casulo, como era carinhosamente chamado, foi acionado. Uma câmera de crio-sono que permitia aos tripulantes ficarem em estase durante viagens muito longas, permanecendo na idade de quando foram congelados. A primeira coisa que Simon viu quando acordou foi um rosto velho e sorridente através do vidro embaçado. No final do processo, Simon saiu e logo foi coberto por um roupão branco pelo homem, que o enxugava e aquecia.

__Há quanto tempo dormi? –disse ainda batendo os dentes-

__Quarenta anos. Vocês foram acordados porque a Pioneira IV finalmente aterrissou.

__Aterrissou? –disse com os olhos arregalados de surpresa- Achamos um planeta para habitar!

__Sim Simon, finalmente encontramos. –deu um tapinha nas costas e deixou que se vestisse- Como está se sentindo?

__Bem, meio desnorteado…

Olhou finalmente ao redor, os casulos se abrindo, vários, centenas. As pessoas saiam e já eram atendidas por alguém. Alguns não tinham tanta sorte quanto Simon, vomitavam, sentiam uma fraqueza que mal aguentavam em pé, alguns não conseguiam se lembrar de nada, desmaiavam e outros ainda entraram em choque, mas logo eram atendidos pelos paramédicos da estação de crio-sono.

__Quarenta anos… Onde está meu irmão Solomon? –voltou a olhar o velho que sorria com os olhos cheios d’agua- Você… Solomon?

O homem o abraçou forte, sorrindo, a barba roçando o pescoço do irmão mais novo, de apenas vinte e um anos. Ele olhava as pessoas que saiam, todas elas eram recepcionadas pelos seus familiares. O abraço, ainda que carinhoso, doía suas costelas de tão apertado.

__Quarenta anos… –repetiu- Solomon, o que aconteceu? Você não foi para o crio-sono?

__Não, não pude. Eu estava na área de manutenção da nave, tivemos um grande problema com os geradores de gravidade, tinham picos e ficaram mal calibrados e…

__Entendo… –sorriu e apertou o rosto do irmão, puxando para cima e para baixo- Continua a mesma coisa, só com umas rugas aqui e ali. Está com quantos anos? Sessenta?

__Setenta. –retribuiu o sorriso e limpou as lagrimas com as costas da mão- Venha, vamos ao vestiário, precisa se vestir para conhecer nosso novo lar.

__Lar?

__Sim, vamos ter uma casa só nossa. Todo esse tempo que passei acordado consegui créditos suficientes para comprar um pedaço de terra e uma casa já pronta, além de uma pequena nave cargueira para trabalharmos.

__E Xinê? Onde está ela?

__Xinê… –disse em um suspiro- Xinê faleceu há cinco anos, em um acidente gravitacional… Você perdeu muita coisa, casamos eu e ela…

__Sinto muito… Xinê era uma boa amiga.

__Sim, e uma excelente esposa…

Andaram pelos corredores branco-gelo da nave que levava para os vestiários, estava quente e as pessoas já suavam e ofegavam ao andar de lá para cá, trazendo e levando os acordados para vestiários, enfermaria ou onde precisassem ir. Simon trombou com um ou dois rostos conhecidos, se cumprimentaram e sorriram, satisfeitos por terem acordado. O vestiário também estava lotado, homens distribuíam uniformes para aqueles que precisavam, Simon conseguiu o seu, um colante que cobria todo seu corpo, cinza e com uma pequena marca da Aliança Terrestre na altura do coração. O colante tinha pequenas placas de proteção e contava com um revestimento hermético para minimizar o contato da pele com a atmosfera.

__Não é exagero isso? –olhou seu reflexo no espelho com o colante-

__Não, pessoas que ficaram muito tempo no casulo tendem a enfraquecer, suas resistências diminuem. Daqui vamos direto para casa, lá eu tenho alguns sérum para passar nesse seu rostinho de bebê e logo logo você vai poder usar suas roupas “da moda”.

__Moda? Depois de quarenta anos? Nem imagino como possa estar.

__Olhe em volta. –Solomon riu, girando com os braços abertos- Essa vai ser a moda entre vocês durante um bom tempo. Novaesperança é um tanto diferente da nossa Terra.

__Novaesperança?

__Ah, é o nome provisório do planeta.

Caminharam entre os corredores estreitos da estação de crio-sono até saírem para a zona de extração, um imenso galpão com naves e pequenos veículos terrestres. Solomon levou Simon para uma nave em especial, grande, lembrava uma gota vista horizontalmente, de um metal azul escuro e com duas pequenas janelas na ponta. Era uma nave cargueira comum, conseguia carregar um peso considerável e era ideal para a colonização, podia carregar minérios, madeira e até água graças à versatilidade de seus compartimentos. Solomon acionou o botão holográfico na porta e um pequeno painel avermelhado surgiu, digitou rapidamente uma senha e uma porta cujas frestas eram quase invisíveis se abriu em um sopro agudo.

__Preciso arrumar essa porta. –disse sorrindo, deixando o irmão subir primeiro- Bati em uma arvore quando pousei uma vez, acho que deve ter empenado alguma coisinha… Não sei bem o que é.

__Dou uma olhada depois, não parece ser nada. –passou o polegar pela extensão da abertura- Nada que de para ver assim ao menos.

A nave levitou suavemente, emitindo um pequeno ruído rotatório, ao sair da zona de extração, as pequenas janelas se abriram e Simon pode ver Novaesperança, um céu azul com grandes nuvens brancas, limpas e claras. Uma floresta rala, com pequenos conjuntos de arvores de um verde-limão claro e brilhante graças ao reflexo do sol.

__O céu me lembra os vídeos que vi quando era criança… Da Terra. As arvores… Elas são diferentes não são?

__São sim. Tem menor concentração de clorofila, são mais fáceis de cortar, mas são pouco resistentes. Isso é bom, sinal de que não vamos usar muita madeira. Tem grandes montanhas mais ao sul, de minério e…

__Solomon… –Simon se soltou do banco acolchoado e se agachou ao lado do irmão, que pilotava a nave- De volta ao casulo… Onde estão o pai e a mãe? Já faleceram?

__Não… Não sei. –Solomon ligou o piloto automático e se desprendeu da poltrona- Eles também foram congelados, só eu fiquei de fora.

__E onde estão?

__Eles não tiveram a mesma sorte que você, o crio-sono foi feito para pessoas mais novas, antes dos vinte. Mamãe perdeu a memória e logo entrou em choque, que evoluiu para coma em poucos minutos. O choque em me ver mais velho… Eu sabia que eles deveriam ter tirado ela de lá, cuidado dela e só depois ter me visto. Papai… Ele não acordou. Está vivo, mas não acordou. Também não está em coma, só está… Dormindo.

__Eles continuam na nave? Digo, na capital?

__Sim.

__O casulo… é errado sabia? Nós não deveríamos ser encasulados, o crio-sono é como, eu não sei nem explicar. Tudo fica escuro e então você não é nada, mas você quer acordar, como quando dormimos demais e… Não é bem isso, é como se sentíssemos que deveríamos acordar, entende?

__Por isso que existem pessoas que ficam acordadas durante toda a viagem, não fomos feitos para viver dentro de uma nave, mas acostumamos. Estamos há o que, três gerações na nave, você nem mesmo sabe como é estar ao ar livre. Aqueles ambientes simulados nem mesmo chegam perto.

__É verdade, as nuvens… –pôs o rosto quase colado na janela, olhando o céu de nuvens brancas e claras- São muito mais bonitas ao vivo.

__Simon, eu quero te perguntar uma coisa. Nós tivemos um problema na Pioneira IV, não durou muito, foi coisa de minutos… –Solomon suspirou, encarando o irmão- Você se lembra de ter acordado?

__Acordado? Nesse meio tempo?

__Sim. O sistema de emergência foi ativado e todos os casulos foram abertos durante três minutos, muitos acordaram e logo foram congelados novamente. Havia… Pessoas… –Solomon procurava as palavras certas- Elas… Essas pessoas foram congeladas com uma feição de desespero no rosto.

__Acho que qualquer um que acorde de um crio-sono prefere nunca mais voltar e…

__Você era um deles. Seu rosto estava distorcido, parecia… Deformado. Mas você está bem agora é o que importa, não é? Você está bem?

__Onde quer chegar?

A nave chegou em seu destino no sopé de uma montanha, várias outras naves de carga chegavam ou saiam de lá, ao mergulhar entre grandes arvores de folhas quase transparentes, uma base instalada alguns quilômetros antes da montanha mostrava sua face. Era grande, com uma base de pouso na ala leste, tão grande que suportava quase uma centena de naves ao mesmo tempo. Simon olhou aquelas pessoas e naves, trabalhando, andando de um lugar para outro como formigas em suas rotinas diárias, em busca de alimento e sustento.

__Solomon… Há quanto tempo estamos em Novaesperança?

Solomon ficou calado por um momento, a nave pousou suavemente, sem nem mesmo balançar. O rosto velho e cansando foi esfregado por mãos calejadas e fracas. Solomon respirou fundo encarando seu irmão que buscava resposta para uma pergunta tão simples, mas tão complicada.

__Estamos há cinco anos em terra firme. –soltou todo o ar dos pulmões, encarando o irmão- Estamos há cinco anos… Xinê morreu na descompressão gravitacional, depois do pouso, enquanto a Pioneira se transformava na capital. Durante a movimentação das placas e áreas da nave, Xinê… Bem, não vou entrar em detalhes. –seus olhos cheios d’agua se fecharam com força- Olha Simon, tem coisas que você… É melhor você não saber meu irmão. Vamos voltar a nossa vida normal e…

__Solomon, qual é? Eu sou seu irmão! Sei que estou fora há muito tempo e…

__Simon, você não se lembra de nada mesmo? Não lembra de ter acordado nesse meio tempo?

__Eu já disse que não droga! –socou a poltrona, sentiu a vibração e a dor nos ossos, olhou para seu braço por um tempo tentando entender- Mas o quê…

__Vá com calma, seu corpo ainda não está acostumado a gravidade do planeta, além do que, seus músculos ainda devem estar fracos por causa do crio-sono.

Simon olhou ao redor, a nave ainda fechada, as pessoas do lado de fora correndo de um lado para o outro, trabalhando. Algo estava errado para Simon, mas ele não conseguia ver bem o que era. Olhou para o irmão que, apreensivo, o olhava de volta, como se esperasse por alguma coisa, algum sinal.

__Abre o jogo Solomon, o que há de errado? Porque você está assim, agindo dessa maneira?

__Simon… Você se lembra de quando erámos crianças? –olhou o irmão que estava suando, um tanto pálido, nervoso o encarando-

__Sim, claro!

__Qual era o nome do nosso gato? Aquele branco, que te arranhava quando você puxava o rabo dele?

__Era sn… Sn… Sno… Sno… Sno alguma coisa.

__E o nome da irmã da Xinê?

__Sa… Su… Que se foda! O que isso tem haver?

Solomon respirou fundo e esfregou os olhos, tentando conter as lagrimas que insistiam em incomodar seus olhos. Ele abraçou o irmão com força, depois o soltou, olhando em seus olhos.

__Vamos voltar. Vamos voltar… Você vai voltar para o crio-sono, vai ficar…

__Eu não vou voltar… –Simon foi interrompido por um forte espasmo na barriga, seguido de um vomito esbranquiçado- Solomon…

Solomon saltou na poltrona e digitou os comandos no painel holográfico, a nave zumbiu alto e levantou voo com imensa velocidade, Simon perdeu o equilíbrio e caiu, zonzo e com a visão turva. Quando a nave estabilizou, Solomon saltou da poltrona e correu até o irmão, o levantando e prendendo ao banco de passageiro.

__Eu sabia! Você estava pálido demais, seus olhos… Estão com um brilho tão apagado…

__Solomon, o que está acontecendo?

__Você é forte, mas os sintomas te pegaram também, do mesmo jeito. Meu Deus! Vai ser um caos na Capital, todos vocês devem estar assim e…

__Solomon, que porra está acontecendo?

__Você não está bem, você não está nada bem! Nenhum de vocês está! Por causa da descompressão! Tenho certeza! O expert em crio-sono disse que era seguro liberar vocês, mas eu sabia que ele estava errado! Eu sabia! Agora você e mamãe e…

Escuridão, apagaram as luzes, silêncio.

__Acorde! Acorde! Pelo amor de Deus acorde!

__Solomon?

Vácuo, nada, vazio.

__Acorde Simon! Porra fique acordado maldito!

Então a escuridão voltou, o nada estava ali novamente. Simon sabia, e muito bem, que seu sono não acabaria assim tão fácil, era tudo muito bom para ser verdade. Seus olhos se fecharam enquanto Solomon esbofeteava seu rosto e o balançava, mas não adiantava, adiantava?

Simon sabia que não. Sentiu o frio tomando conta do seu corpo, seus ossos implorando para que aquilo não acontecesse, mas ele nada podia fazer. Sua mente se entristeceu e aceitou mais uma vez o fardo do sono, mas desta vez, segurou firme na ideia de que estavam em terra firme, e que nome mais bonito é esse, Novaesperança. Foi tudo tão rápido, tudo tão utópico. A Pioneira IV tinha completado seu objetivo, mesmo que, para Simon, tocar a terra com os pés descalços fosse um sonho inalcançável. 

Singularidade Humana


Singularidade Humana.

Classificação de risco: Vermelho – 5

Nome: Nacy Winnifreda

Status: Desaparecida

 

Nacy Winnifreda, uma mulher francesa, filha de Roy e Simonette Winnifreda, ambos engenheiros ambientais a bordo da Pioneira I, sofreu na idade de vinte e um uma transformação singular nomeada de “Singularidade Cosmica I”. Segue abaixo relatos do contato de  Danilo Alves, brasileiro, filho de Roberto Alves e Debora Alves, ambos viajantes da classe Elite A da nave Pioneira I.

 

Primeiro trecho, gravado em vídeo, transcrito por Eduard Rickston, segurança.

“Danilo Alves e Nacy Winnifreda se conheceram na escola de ensino médio, com a idade de 12 e 13 respectivamente. Seu primeiro contato foi em sala, durante o inicio do ano letivo para alunos nascidos na Pioneira I. Naquela época, Nacy ainda mantinha o cabelo natural castanho e seus olhos mantinham a coloração castanha. Nacy não era uma aluna exemplar ou que se destacava por qualquer outro mérito, enquanto Danilo, filho da Elite dos tripulantes da Pioneira, parecia engendrado e encaminhado para tomar a posição dos pais durante a colonização ou até mesmo na nave. Danilo e Nacy se conheceram graças a sorteio aleatório da professora Elen Mascarenhas, que na época lecionava Cosmologia I.

Danilo e Nacy foram obrigados a fazerem um trabalho em dupla sobre a natureza do brilho estrelar e suas emanações, interessante constar que Danilo fez o trabalho, e outros que surgiram, praticamente sozinho. Nacy não tinha capacidade intelectual suficiente para tratar de assuntos demasiados complexos. Isso não atrapalhou porem o relacionamento deles, de onde surgiu uma amizade duradoura, mas com falta de afeto padrão das crianças da Pioneira.”

Segundo trecho, conversa gravada entre Danilo e Nacy, cinco anos depois, lobby principal panorâmico da Pioneira I.

__Sabe Danilo, eu tenho escutado…

__Sim?

__Nada, deixa pra lá. Loucura da minha cabeça.

__É mesmo?

__Eu tenho escutado vozes, todos os dias que acordo. Mas sabe, eu não entendo nada do que dizem, são simplesmente vozes.

__Já procurou a ala psiquiátrica? Sabe, somos crianças pioneiras, não nascemos em nosso planeta como nossos pais, talvez isso venha nos afetando de certa forma.

__Eu seria chamada de louca. Melhor não. Não quero ser internada ou presa. Talvez sejam só vozes…

__Nacy? Seus olhos… Seus olhos estão estranhos.

__Porque?

__Estão mais claros, onde tem um espelho aqui… Ali, no banheiro, vá lá dar uma olhada.

Nacy não voltou este dia.

Terceiro trecho, conversa gravada entre Danilo e Nacy, dois dias depois, lobby principal panorâmico da Pioneira I.

__Nacy?

__O que foi?

__O que tinha em seus olhos, fiquei preocupado esses dias.

__Nada. O médico não soube dizer. Estou sob observação.

__Seus olhos estão normais hoje.

__Sim. Realmente não sei explicar. Minha visão está perfeita.

__Estranho.

__Realmente.

__Já está trabalhando?

__Não. Ainda não consegui nada além de serviços gerais e cozinha. Não me decidi ainda. E você?

__Estou trabalhando com o capitão, sou seu “office boy”.

__*risos

__Porque está rindo?

__Nada demais. Filho de Elite A, office boy.

__Pretendo ser capitão.

__Boa sorte.

Quarto trecho, conversa gravada entre Danilo e Nacy, dez dias depois, lobby principal panorâmico da Pioneira I.

__Seus olhos…

__O médico disse que é despigmentação, mas ainda não sabe ao certo, não coletou amostras.

__Eles estão cinzas.

__Sim. Mas isso não é o que me preocupa.

__O que aconteceu?

__As vozes… Eu as ouço o tempo todo agora.

__Está ouvindo agora?

__Não nesse momento. Mas por muitas vezes as ouço.

__Isso pode ser sério, você deveria ir ao psiquiatra. É melhor se tratar agora Nacy.

__E se não for doença?

__Seus olhos perdem a cor, você começa a ouvir vozes. O que acha que pode ser? Provavelmente seus genes estão sofrendo mutações, algo está gerando isso.

__Deixe que o médico decida. Você não sabe disso.

__Claro que sei, eu que fiz todos os trabalhos da época do ensino médio. Ei! Nacy! Volte aqui! Nacy!

Quinto trecho, vídeo gravado de Nacy, dez dias depois, ala de Vida Natural, parque natural III, transcrito por Eduard Rickston, segurança.

“Nacy estava sentada encostada em uma arvore, lia um livro intitulado “Cozinha básica de A a Z” quando soltou o livro e olhou para o teto que mostrava um céu azul coberto por um lençol de nuvens. Ela observou por um momento a movimentação na tela, depois sussurrou algo que não pode ser compreendido em vídeo, se levantou, curvou a cabeça como se ouvisse com mais atenção e sentou-se de novo. Deixou o livro de lado e abraçou as pernas, colocando o rosto entre os joelhos. Nacy ficou assim durante vinte minutos e depois se ausentou do parque.”

Sexto trecho, vídeo gravado de Nacy, um mês depois, lobby de Visão Urbana, transcrito por Eduard Rickston, segurança.

“Nacy estava sentada no bar, bebendo café e encarando uma tela que mostrava uma janela onde mostrava um cenário urbano, com carros e pessoas trafegando. Nacy novamente apresentou comportamento estranho, como se prestasse atenção ao nada, como se olhasse algo que não estava ali. Aquele foi o primeiro dia em que começou a usar óculos escuros.”

Sétimo trecho, vídeo gravado de Simonette Winnifreda, mesmo dia, ala de contenção de pragas, Núcleo de Vida Natural, transcrito por Eduard Rickston, segurança.

“Simonette encarou uma flor durante doze horas, até ser encontrado por Roy Winnifreda, que a levou ao médico e posteriormente ao psiquiatra, onde foi internada. Sem mais dados relevantes, a causa de sua demência não foi esclarecida.”

Primeiro documento oficial, retirado do dossiê “Singularidade: Nacy”.

“Simonette Winnifreda apresentou esquizofrenia catatônica, provocada por causas desconhecidas. Em seus raros momentos de lucidez, Simonette balbuciava palavras incompreensíveis, e às vezes frases como “que você chama de cosmos” e “o universo está ali”. No mais apenas se questionava “Onde está o portal?” e “Ela já foi embora?” Simonette não saiu desse estado desde então.”

Segundo documento oficial, retirado do dossiê “Singularidade: Nacy”

“Roy Winnifreda foi internado na ala psiquiátrica com esquizofrenia catatônica, um dia depois de sua esposa, Simonette Winnifreda. No caso de Roy, o mesmo não tirava os olhos do telhado e se recusava a comer ou a realizar suas necessidades fisiológicas. Graças a Danilo Alves, Roy foi internado em ala hospitalar, onde sobreviveu graças a aparelhos. Após ser cogitado a entrada de Roy em criosono, o mesmo cometeu suicido sufocando-se com os tubos. Os médicos não sabem explicar como Roy saiu do estado catatônico ou mesmo venceu os anestésicos.”

Oitavo trecho, conversa gravada entre Danilo e Nacy, cinco dias depois, lobby principal panorâmico da Pioneira I.

__Danilo. Eu preciso falar com você.

__O quê houve? Porque você está assim, toda coberta? E esses óculos escuros?

__Você não entenderia, mas eu preciso dizer uma coisa para você.

__O que houve?

__As vozes, eu consigo entender elas. Na realidade, é apenas uma voz. Ela me diz que…

__Nacy, você deveria consultar os psiquiatras. Você claramente está doente, está pálida. Tenho medo de você ter a mesma doença que afetou seus pais.

__Não foi doença, fui eu. Deixe-me explicar…

__Olha o que está dizendo, nem ao menos faz sentido.

__Por favor. Eu sou uma singularidade, ao menos é isso que ele diz. Eu sou uma espécie de portal, meu corpo está se transformando.

__Como assim?

__É por isso que estou coberta desse jeito, meus olhos estão azuis, minha pele… Minha pele não existe em algumas partes do meu corpo, aonde não tem é como se o universo estivesse ali. Ou um portal para ele, eu não consigo atravessá-lo, e todos que viram enlouqueceram.

__Deixe-me ver então.

__Não!

__Nacy, espere! Volte aqui! Nacy eu só quero te ajudar.

Nono trecho, video gravada de Nacy, mesmo dia, próximo ao espelho em uma loja do setor comercial, transcrito por Eduard Rickston, segurança.

Primeiro a mulher levantou um pouco os óculos e os conferiu em frente a um espelho, depois após verificar se alguém a olhava, desceu um pouco a gola do pescoço e havia uma mancha preta logo abaixo do pescoço. Essa mancha não pode ser captada pela câmera, ela era apenas a falta de dados ali, na realidade a mancha poderia ser qualquer outra coisa, poderia ser uma cor, uma imagem, mas a câmera simplesmente causou uma falta de dados ali.

Naquele momento Daniel a alcançou, então ela rapidamente cobriu aquela mancha e voltou a correr. Eu estranhei aquele comportamento e acreditei que poderia ser uma doença, a mesma que afetou seus pais. Logo contatei as autoridades para que averiguassem o caso.

Décimo trecho, vídeo e conversa gravada de Nacy e Daniel, uma semana depois, ala de Vida Natural, parque natural III, transcrito por Eduard Rickston, segurança.

Nesse ultimo encontro, Daniel procurou por Nacy e a encontrou no parque natural III, sentada encostada a uma arvore nos limites finais do parque, sozinha e quieta. Ao ver Daniel, Nacy se levantou mas ao pedido do homem, ela parou e sentou novamente. A conversa a seguir foi a ultima conversa que temos registro, ao menos que eu tenho registro. De acordo com a segurança Nacy foi considerada uma ameaça de nível Vermelho – 5, ou seja, que pode comprometer toda a missão da Pioneira I.

__Por favor, não fuja dessa vez.

__Eu não tenho para onde fugir, mas posso impedir que mais pessoas fiquem loucas.

__Mais?

__Sim, mais duas pessoas olharam nos meus olhos. Uma caiu de joelhos chorando, a outra apenas deu as costas e foi embora. Mas acredito que ela já deva estar na ala psiquiátrica agora.

__O que você tem?

__Eu estou me transformando, eu não pintei meu cabelo de amarelo. Minha pele… Eu não sei nem explicar, mas minha pele parece mostrar uma parte do universo, pode ate ver um planeta ao longe. Sou como um portal, ou uma tela melhor dizendo, já que não consigo atravessar.

__E o que você pretende fazer? Não pode viver se escondendo. E as vozes? O que elas dizem?

__Dizem para eu fugir, para ir embora.

__Ir para onde?

__Eu não sei. Mas a duas semanas venho sentindo um… Chamado. Um impulso que me leva a algum lugar. Eu passo horas olhando a mim mesma no espelho ou o universo pelo panorama do lobby. Eu nem me sinto mais humana Daniel. Eu não sei o que vai ser de mim agora.

__E se usássemos uma das naves de fuga?

__E iriamos para onde?

__Não sei, e não iriamos, você iria. Se as pessoas ficam loucas por olhar você, acho que deveria ser posta em criosono. Ou fugir em uma nave. Ocasionalmente você poderia enlouquecer toda a nave se pararmos para pensar.

__Eu não vou entrar em criosono.

__Então vou arranjar uma nave para você, o que acha?

 

Terceiro documento oficial, retirado do dossiê “Singularidade: Nacy”

Nancy escapou em uma nave de fuga, auxiliada por Daniel que agora está preso por crimes contra a integridade da missão. A nave Pioneira I ainda capta o sinal da nave de fuga de Nacy, mas enviar uma nave para resgatá-la está fora de questão, dado os recursos limitados da Pioneira I.

A Singularidade foi arquivada, nenhum outro caso como o de Nacy foi encontrado na Pioneira I.

Daniel está sobre vigilância de 24/7.

Após dois anos, o sinal da nave de fuga foi perdido.

O paradeiro da Singularidade é desconhecido, assim como a rota da nave em que escapou.

 

 

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Amanhecer

Sentados no teto do campus da universidade, eu e meus amigos olhávamos esperançosos para o céu azul, limpo e claro de verão. Era a alvorada da humanidade, o amanhecer de uma nova era e nós seriamos as mãos desse futuro, seriamos engenheiros cósmicos. Engenheiros da Pioneira I.

Todos os dias subíamos o prédio e tentávamos ver algum indicio da nave, nem que fosse uma pequena mancha no céu. A Pioneira já havia começado a ser construída e dentro de quatro anos, nós seriamos enviados para a orbita terrestre, para a estação espacial Futuro. Lá a nave era construída em gravidade zero, no espaço, só assim ela conseguiria viajar no cosmos, já que seu tamanho era tão gigantesco que necessitaria uma quantidade de energia absurda para que decolasse. Essa energia é necessária para abastecer todas as milhares de funções da nave, só a energia que seria gasta na decolagem era capaz de abastecer boa parte das necessidades da Pioneira.

Seu tamanho é de uma cidade de pequeno porte, sua tripulação é de quarenta e cinco mil pessoas, sendo que vinte mil viajaria em estado de crio sono, seriam congelados e acordariam apenas na chegada ao novo planeta, para colonização. A viagem poderia durar centenas de anos, por isso ela foi criada para suportar sociedade, com lojas, escolas, restaurantes, casas e tudo mais que uma cidade tem. Era em poucas palavras uma cidade espacial.

No ultimo ano da faculdade, passamos pelos mais variados testes físicos e psicológicos, todo tipo que você imaginar. Nós giravam e espremiam em maquinas, tínhamos que fazer exercício em gravidade zero e em gravidade mais alta que da Terra, até mesmo passar uma semana de aulas praticas vestidos em trajes espaciais em câmaras de gravidade zero. Era a ultima chance da humanidade frente à crise de superpopulação, não podíamos falhar, precisavam do melhor dos melhores para esse serviço.

E eu consegui ser um deles.

No ultimo mês subimos novamente o prédio e conseguimos ver, menor que a unha do dedo mínimo, mas estava lá, a pequena mancha avermelhada, a Pioneira. Estava pequena, mas isso já indicava que alguns quilômetros já estavam prontos. Sorrimos, brincamos e festejamos aquela noite, ali mesmo no velho telhado. Era nossa esperança, e de toda humanidade, depositada naquela nave.

Ao término do curso, fomos mandados imediatamente para a estação Futuro, porem não foram todos. De cinquenta estudantes, apenas sete foram selecionados e eu era um deles.

Nossa equipe foi enviada até a estação de carona em uma nave cargueira, lotada de alumínio e ouro. Aquela nave era apertada e árida, mas nossa animação superava qualquer barreira, e nossa determinação parecia imbatível. Não conseguimos visualizar a Pioneira até chegarmos em orbita, onde finalmente soltamos nossos cintos e flutuamos em gravidade zero natural. Não era tão diferente da artificial, mas era muito mais emocionante. Chegamos à noite e o cock pit da nave cargueira foi iluminado pelos holofotes e luzes piscantes de pouso. Aquilo pelo que estudamos dez anos agora estava ali, ao alcance da mão. Quando olhei para a esquerda na janela panorâmica vi o esplendor da Pioneira. Ela flutuava serenamente, como uma criança no útero da mãe. Seu formato circular lembrava um disco voador das histórias sobre óvnis de antigamente, onde a fantasia e ficção nublavam nossas mentes sobre a natureza desses seres.

Mas isso não importava agora, o que importava era ela, a Pioneira I e minha importância em sua construção.

A estação Futuro era rustica, sem muitos detalhes ou adornos, feita praticamente inteira de metal marciano, avermelhado, apenas pintado de cinza e às vezes branco ou azul para que não causasse desconforto. Dentro da estação havia gravidade artificial assim como um sistema de clima que deixava a temperatura e o ar extremamente agradável. Na realidade, nossa tecnologia de controle climático foi a chave para vencermos o efeito estufa e agora para a sobrevivência em ambiente espacial e artificial. Quando a Pioneira chegar ao seu destino, essa mesma tecnologia junto com a tecnologia de terraformagem serão a chave do sucesso da nossa colonização.

Logo que chegamos fomos recebidos por uma equipe administrativa que nos apresentou a estação e alguns detalhes que não foram passados na época da Universidade, tudo foi muito rápido e todos pareciam estar com presa, andando para cima e para baixo, em uma comunicação intensa que me lembrou um ninho de formigas, alguns ainda vestidos com os trajes espaciais simples justos ao corpo, pressurizados e leves. A mobilidade era muito maior que aqueles primeiros usados por nós, luvas finas, tecido dobrável e justo, capacete pequeno e com display holográfico na viseira.

A humanidade precisava disso, da tecnologia. Sem duvida é nossa maior necessidade.

Aquele dia foi apenas para conhecermos o ambiente, sua rotina e suas regras. Por toda estação havia telões que simulavam imagens da terra, hora uma cidade, hora uma praia, e todas elas estavam sincronizadas com o horário do pacifico, no momento a tela do meu quarto mostrava uma cidade à noite, com seus prédios iluminados e luzes coloridas. Sentia-me como em um apartamento, pequeno e de poucos móveis. Estava em fim na estação e em seis horas começaria meu turno.

Acordei com um alarme suave, a cidade na parede mostrava um sol nascente em meio a um dia nublado. Poderia crer que essas imagens eram ao vivo, não me surpreenderia, já na Pioneira não teríamos esse luxo.

Vesti meu traje como explicado na rotina, primeiro o vestíamos e depois ele era despressurizado, seu ar removido e entre a pele e o tecido não havia um só suspiro de ar. Apanhei o capacete e me dirigi ao saguão onde iriamos, eu e meus colegas de universidade, conhecer nossas equipes de operários e supervisionar a construção da nave.

Enfim saímos da estação e pudemos ver uma carcaça de metal gigantesca, de mais de dez quilômetros, com pequenas naves operárias ao redor e outras de escolta, flutuando ou patrulhando aquele espaço. Podia ver a Terra e a Lua, as estrelas brilhavam intensamente fora do planeta e lá estava eu, flutuando em gravidade zero, a tela holográfica do meu capacete mostrando todos os dados necessários, oxigênio, batimento cardíaco, onde estava minha equipe e tudo mais. Meus olhos encheram de agua, a humanidade estava salva e graças a todos nós, todos os seres humanos.

Doze anos se passaram e voltei para a Terra, nada realmente havia mudado, tudo seguia seu caminho. Apenas dois dos meus colegas viajaram junto com a nave, eu mesmo fiquei, e sentado no prédio da universidade, aquele mesmo prédio, vi a nave colossal no céu azul sem nuvens, começando sua partida.

A cada momento ela ficava menor e menor, até que nada sobrou no céu a não ser um vazio.

Um vazio cuja minha esperança e de todos na Terra o preenchiam.

 

Amor sobre a mesa de poker.

Acredito que o maior problema de se trabalhar em uma Pioneira é o fato de termos que abandonar nossas casas, nossas famílias, nossa antiga vida, para um bem maior. Alguns conseguem trazer a família, a maioria na verdade, mas não foi meu caso. Minha mulher e duas filhas ficaram na Terra, enquanto eu embarcava na Pioneira III, rumo a algum planeta de nome estranho.

Senti saudade nos primeiros meses, falta do afeto e do carinho, das conversas e dos amores, mas só nos primeiros meses mesmo. E nesses meses a ideia de que elas nunca mais precisariam trabalhar na vida e viveriam com uma pequena fortuna já me confortava. Na realidade, talvez eu quisesse mesmo isso, vir e elas ficarem. Sabe, sempre fui um homem muito solitário.

Nas Pioneiras, a comunicação com a Terra é bem limitada, cada vez o espaço entre uma e outra aumenta por causa da distancia, até que após cinco anos, apenas mensagens de sistema e do alto escalão chegam na Terra. Eu sempre soube que não teria mais volta, assim que entrei na nave, que não veria mais minha mulher e filhas, que não as veria crescer e não estaria lá. Mas o dinheiro sempre estará.

Como funcionário sou mecânico, especializado na condicionação e tubulação do ar. Oxigênio é uma coisa bem importante aqui, mas eu não mexo com ele, só com sua distribuição. Quem mexe realmente com ele são os botânicos, sabe como é, os hippes que ficam no centro da nave.

Bom, agora que você me conhece, posso dizer como é a Pioneira. Imagine uma nave gigantesca, tão grande que teve de ser construída fora da Terra porque não conseguiria decolar. Ela é do tamanho de uma cidade de pequeno porte, ou um pouco maior. Entenda que, assim que ela pousa em um planeta, ela não decola mais. Logo, ela fica em orbita durante muito tempo estudando um possível planeta a ser colonizado, então ela pousa e, a partir dela, começa a colonização, com a nave como ponto zero.

A oito anos estamos sem encontrar algo, mas como eu disse, a nave por si só é gigantesca. Temos nosso dinheiro, nossas lojas, cinema, cafés, bares, prisão, politica… Tudo. E é claro, nosso pequeno cassino, onde passo meu tempo livre fazendo um adicional. O nosso cassino está em uma ala privilegiada da Pioneira, onde um teto panorâmico permite a visão do espaço sobre nossas cabeças. E sabe o que é mais incrível? É o que aconteceu comigo, sobre uma dessas mesas de poker.

Sempre fui o tipo de jogador calado, que senta na mesa e joga muitas, muitas mãos. Eu passo de quatro a seis horas jogando poker, por dia, e consigo uma consistência de vitorias que está aumentando meu banco aqui na Pioneira, mas naquela noite em especial, o que ganhei foi uma das experiências que finalmente me convenceram.

É ótimo estar em uma pioneira.

Era uma noite, logo após meu expediente, onde sentei na cadeira de estofado avermelhado e pus minha caixa de fichas do meu lado, bocejando e me espreguiçando, olhando para alguns rostos conhecidos e outros novos. Tudo ia bem, até o momento que ela sentou em uma das cadeiras vagas, ao meu lado. No começo não dei atenção, cheguei até a disputar uma ou duas mãos com ela.

Decidi respirar um pouco ao perder uma grande aposta e fui ao bar, pedindo um suco de morango. Bebidas alcoólicas eram luxo nas Pioneiras, normalmente vinham de coleções pessoais ou pequenas plantações dos botânicos. O balcão era iluminado por uma luz interna que deixava toda sua superfície clara, onde eu me debrucei ao falar com o atendente, pagando com uma das fichas do casino. Ele sorriu para mim ao trazer o suco sem demora.

Já a garota foi outro caso, ela se sentou novamente ao meu lado e pediu a mesma coisa que eu, dando um sorriso amigável ao me ver. Retribui o sorriso e lembrei da minha mulher e minhas filhas. Lembrei das noites de amor de nossa juventude e da ultima noite que fizemos amor antes da minha partida. É o morango, sabe? Afrodisíaco.

Ela puxou papo comigo, disse estar desconcentrada pelo cansaço, que havia trabalhado demais e não estava dando tudo de si ao jogo. Eu concordei e disse o mesmo, procurando criar uma sensação em comum para compartilhar.

Aquela mulher não era a mais bonita sabe? Seus cabelos eram castanhos, emaranhados em um visual um tanto desarrumado, como quem acaba de sair do serviço. Seu rosto era claramente latino, assim como seu corpo… Saudável. Tinha bonitas pernas e um pescoço atraente, que ela fazia questão em mostrar ao jogar os cabelos para trás dos ombros.

Ela estava me flertando, sem duvida, e eu, caindo em seu flerte. Mas uma pessoa como eu não apenas se entrega, se faz de difícil para ficar mais interessante, aumenta o valor do produto sabe? O produto no caso, sou eu.

Conversa vai conversa vem voltamos pra mesa, sobre o aviso que o casino iria fechar em duas horas, para manutenção. Ele fechava apenas uma vez por semana e durante muito pouco tempo, e hoje era exatamente esse dia. Houve uma vez que ele passou quase três dias fechado, o povo começou a enlouquecer, foi um pandemônio, mas no final tudo se ajeitou.

Na mesa as coisas iam bem tanto para mim quanto para ela, ainda nos encontramos em algumas mãos, mas nada de tão emocionante. O cassino começou a esvaziar, as pessoas começaram a fazer apostas sem sentido quando lhe restavam pouco dinheiro e saiam para salvar o que tinham. Eu fui um dos últimos, mas quando ia indo, ela me pediu que ficasse.

Ela trabalhava no cassino, quer dizer, não exatamente, ela era parte da equipe de serviços gerais da nave e hoje estaria no cassino, disse que teria passe livre o resto da noite e que, nessas duas horas, poderíamos ver o espaço a sós, em silencio, tranquilos.

Não pude negar, nem mesmo resistir. Não vou mentir, não senti culpa ou tristeza pela minha mulher e família, fiz tudo por eles, tudo que podia e até uma coisa incrível, fui trabalhar numa Pioneira, uma das coisas mais altruísticas a se fazer. Mas, já que estou sendo sincero, acredito cada vez mais que o que eu realmente queria mesmo era fugir, correr daquele lugar. Não exatamente da minha família, mas da Terra, do povo, do mundo.

Enfim, não vou divagar em mim sabe? Isso não é sobre mim, é sobre aquela noite. Tive de ajudar ela durante uma hora, para arrumar, limpar, purificar, organizar e varias outras palavras que terminam em “ar” para que ela completasse seu turno mais depressa, então fomos a uma das salas com mesas para seis jogadores, ela estava vazia, sem musica, sem conversa, sem barulho de fichas. Apenas o zumbido que a nave sempre produzia e do ar condicionado. Eu mesmo já arrumei esse umas duas vezes.

Ela se sentou sobre uma mesa, ainda suada, tirando a roupa lentamente. Por um momento fiquei sem saber o que fazer, quase como se tivesse esquecido depois de tanto tempo, mas depois fui até ela, tirando minha roupa.

Eu deitei sobre aquela mesa aveludada, que pinicou um pouco minhas costas, mas não consegui me importar com aquilo, não com ela sentando em cima de mim, devagar, enquanto me encarava nos olhos, já com o rosto cheio de prazer.

Foi então que notei o teto, notei o espaço, notei as estrelas e uma nebulosa a distancia. Notei as cores naquele manto negro. Então eu entendi onde eu estava e o que estava acontecendo. Eu estava fazendo sexo no espaço, vendo o espaço sideral a uma distancia quase palpável. Quantas pessoas já tiveram esse luxo? Essa experiência? Muitas das Pioneiras, acredito, mas e quanto as pessoas na Terra?

Segurei seu quadril enquanto ela subia e descia, gemendo e suando. Seu suor caía sobre meu corpo, eu sorria mas ao mesmo tempo me preocupava, amanhã seria o dia que voltaria aqui para arrumar esse ar condicionado. Como eu pude pensar nisso naquele momento tão sublime? Estava fazendo amor com uma mulher, no espaço sideral, com estrelas e nebulosas, e me preocupando com o trabalho, com o ar condicionado a ser arrumado!

Finalmente me concentrei naquela mulher que nem sabia o nome, me concentrei naquilo que acontecia, me concentrei em seu suor, seu corpo, seu sexo.

Terminamos ofegantes, deitados sobre aquela mesa que ainda pinicava minhas costas, enquanto a Pioneira passava por aquela nebulosa. Sabe como é uma nebulosa? É como areia em gravidade zero, areia flutuando sem preocupação, sem forma, colorida pelas luzes e gases e sei lá mais o que. Mas posso lhe dizer que é lindo. Olhei para ela e vi o reflexo da nebulosa em seus olhos, as luzes colorindo seu corpo.

Então ela se levantou em um salto e começou a se vestir, me mandou fazer o mesmo, o cassino já iria abrir. Pulei e me vesti, rindo e a convidei para voltar as mesas. Ela recusou, o turno dela havia dela havia recomeçado no momento em que começou a trabalhar no cassino, estava apenas no seu descanso, enquanto jogava.

Foi a ultima vez que a vi, quando ela saiu pelo portão principal, com seu cabelo suado e seu sorriso satisfeito. Eu voltei pras mesas, mas não consegui me concentrar e depois de perder um bocado, voltei para meu quarto.

Adormeci rapidamente, mas não sem antes relembrar daquela mulher, de seu suor e da nebulosa.

Como é bom viver em uma Pioneira.

O Observador.

Não fiquei contente quando recebi minhas ordens ao embarcar na nave Pioneira IV. Observador. Simplesmente, depois de cinco anos de treinamento militar e mais seis anos de atuação em campo, defendendo a colônia da Federação da Terra nesse sistema estrelar, eu recebo o cargo de Observador.

O que eu teria que fazer? Observar os soldados e a equipe cientifica fazer seu trabalho, escrever um relatório detalhado sobre isso e enviar diariamente um resumo dos resultados para a Inteligência da Colônia Pioneira IV. Eu não tinha palavra superior a ninguém, não tinha ninguém sob meu comando ou ao menos um auxiliar. Tudo que me deram foi a merda de um computador portátil, até a garrafa de café eu tive que trazer em minha mochila.

A missão não podia ser mais simples: Entrar em contato com a raça dominante do planeta D52, categorizar, conhecer e, se não houver raça inteligente, colonizar. É claro que já aconteceu varias e varias vezes do planeta ser colonizado ainda com alguma raça primitiva em desenvolvimento, como no D48, onde uma raça de primatas foi extinta para dar lugar a uma linda e deliciosa colônia humana em um planeta quase tão perfeito como a Terra. Era o que fariam, sem duvida, no D52.

O primeiro contato com a raça dominante foi… Interessante. A raça se denominavam de Elars, ou como ficaram conhecidos nos relatórios e processos científicos, D52-A. D52-A é uma raça de humanoides, bem semelhante aos seres humanos, com alguns detalhes diferentes, a pele de todos eles variavam de rosa a vermelho rubro, seus rostos eram alongados para baixo e para trás, como se esticados, seus olhos eram puxados diagonalmente e negros, graças a baixa luminosidade da estrela, os olhos eram praticamente apenas pupila. Tinham também um pelo bem ralo e duro, que cobria todo o corpo, com uma cor esbranquiçada. Não tinham cabelo e suas orelhas eram bem pequenas, e bem parecidas com as nossas.

Ficou claro, logo no primeiro contato, que D52-A era uma raça inteligente, tecnológica, mas ainda incapaz de viagem espacial. A progressão cultural era extremamente compatível com a nossa, tinham fé em um deus único, tinham televisão, carros, motos… Como se a humanidade tivesse simplesmente evoluído em outro planeta. Teste do dna dos D52-A comprovaram essa ideia, já que a semelhança era tanta que seria possível até a reprodução entre humanos e D52-A. E foi ai que o problema começou…

Sim, éramos semelhantes em muitos aspectos, mas os D52-A tinham uma espécie de neurotoxina em seus pelos, que afetavam diretamente nosso cérebro e células nervosas, induzindo a uma sensação semelhante ao orgasmo.

Imagino que você já tenha entendido o problema.

Começou com o cabo Ricardo, um brasileiro jovem, de cara bem quadrada e robusto como um touro. Mas eu sempre comentava em meus relatórios que o cabo Ricardo era muito sensível para a profissão, não era voluntario e foi tirado da sua vida normal para o alistamento obrigatório. Faltava homens capacitados fisicamente para as viagens das Pioneiras, o cabo Ricardo, por azar, foi um dos convocados.  Cinco anos de viagem apenas para chegar na colônia, exatamente na qual eu defendia.

O cabo Ricardo era um homem direito, seguia as leis, normas e ordens ao pé da letra e sempre se empenhava. Como a nossa missão era reconhecer e manter contato, ele não teve que se preocupar com entrar em uma batalha e matar inocentes, coisa com a qual, uma hora ou outra, qualquer membro das naves Pioneiras deverá lidar. Tudo corria muito bem, houve contato com os D52-A, alguns foram convidados para a nave, houve um breve estudo, conseguimos ossadas antigas em cemitérios e tudo mais.

Contudo, o cabo Ricardo recebeu uma correspondência de sua namorada. Era um vídeo dela e mais dois caras, transando. O cabo nunca ficou tão abalado, e até hoje eu tenho um processo em aberto contra a Inteligência que deixou um vídeo desses entrar em contato com um oficial em ação. Não precisa dizer que aquele homem ficou em cacos. Para qualquer membro das Pioneiras, o único contato físico com uma raça que não fosse humana era em caso de extrema urgência, onde fosse necessário entrar em combate corpo-a-corpo. Mas o cabo Ricardo achou que seria uma boa ideia mostrar que ele não havia sido afetado por aquele vídeo e decidiu que a melhor forma seria fazer o mesmo, com os D52-A.

O cabo Ricardo então se apoderou de um veiculo do acampamento e foi até uma pequena cidade e estuprou uma D52-A, filmando todo o processo.  Mas com isso o cabo descobriu que o contato dos pelos com a nossa pele nos dava uma sensação quase orgasmica, o que levou esse soldado a ficar quase seis horas com essa D52-A em particular. Uma patrulha foi enviada para resgatar o cabo depois que sua ausência foi notada. O vídeo foi confiscado e ele foi preso pela corte militar, por tantas coisas que nem vou lista-las aqui.

Esse vídeo foi estudado pela equipe cientifica, o caso foi abafado e aquela D52-A foi capturada para que a noticia não se espalha-se. O que aconteceu depois foi os cientistas estudarem a fundo aquela espécie, bem a fundo, a ponto de copular com ela diversa vezes ao dia. Em algumas semanas toda a nave Pioneira IV já sabia que aqueles pelos eram melhores que as drogas que circulavam “clandestinamente” pela nave. Tiravam então os pelo dela semanalmente e vendiam para a tripulação, até o ponto que 90% dos tripulantes já estavam viciados na toxina, e o pior, não ligavam para o claro efeito colateral. Suas peles começavam a avermelhar e seus pelos a perder a coloração, ficavam extremamente irritadiços quando não estavam sobre o efeito da toxina, e não era rara as vezes que entravam em uma depressão muito pesada, que levou alguns ao suicídio. Aquela toxina se espalhou como uma praga pela Pioneira IV.

Foi então que dei graças a Deus por ser apenas observador. Graças aos meus relatórios, um segundo batalhão foi enviado para D52, com a missão de exterminar qualquer infectado e também, os infecciosos. A raça D52-A foi catalogada como perigosa e sua existência desnecessária. O batalhão era conhecido como “Purgadores”, o qual eu fui felizmente convocado a participar, ainda como Observador.

Posso descrever o que aconteceu com duas palavras, genocídio e extermínio. Os Purgadores não se importavam e não desejavam nenhuma toxina orgasmica ou coisa semelhante, eram os soldados mais rigorosamente treinados da Federação da Terra. Os mais ignorantes, sem escrúpulos ou moral, acho que lhes faltavam até sentimentos. O que é ótimo para a profissão, já que graças a uma atitude guiada pelo sentimento, uma raça foi extinta. Uma raça inteligente. Agora D52 é um planeta de recursos, mineração e extração de madeira.

Antes disso acontecer, eu havia conversado com um D52-A sobre o que achavam dos seres humanos, e ele me disse o seguinte:

“Vocês são muito inteligentes. São capazes de viajar no espaço e visitar outros planetas. Nos tratam de forma cordial e hospitaleira, sem se importar em nossas diferenças. Aqui, ainda temos preconceito entre nossas espécies, entre nossas religiões, entre nossas escolhas e comportamentos. Vejo vocês como nosso futuro, espero que um dia consigamos chegar a um ponto, em que nosso pensamento, como sociedade, se torne tão unificado como o de vocês. Todo o planeta, unido como um só.”

Por isso agradeci em ser apenas um Observador, porque não consigo mais ser nada além disso.