Além de Kardashev

Gonçalo e Jorge estavam sentados no heliporto da petrolífera em alto mar. Observavam as ondas seguindo seu fluxo natural e esbarrando nas potentes colunas de ferro da petrolífera, que balançava gentilmente. Estavam no horário de almoço, era quente e suas marmitas faziam todo aquele lugar cheirar a arroz e bife.

Gonçalo era conhecido por não ser muito sociável, passava a maior parte do seu tempo com a cara enfiada em livros dos mais diversos assuntos. Jorge era a única pessoa que se interessava, ou na realidade, aturava, as conversas de Gonçalo, um homem alto, forte e um com uma mentalidade um tanto boba e fantasiosa. Jorge era tão forte quando ele, mas era centrado, tinha seus objetivos e tudo que pensava era em sua família que o aguardava em terra firme.

Normalmente Gonçalo falava sobre disco voadores, anjos, demônios, fadas, aliens e toda sorte de seres que não existiam, ou pelo menos, nunca havia sido provado sua existência. Mas naquele dia em especial, Gonçalo estava mais distraído, sua mente parecia não estar nem mesmo em seu corpo. Jorge o encarava entre mordidas no bife e colheradas de arroz branco quente.

– O que te incomoda tanto Gonçalo?

– Eu? Nada… Estava estudando ontem.

– Novidade.

– Sobre uma pessoa chamada Kardashev, um astrofísico russo, conhece? – Jorge meneou a cabeça em negação, mastigando lentamente – Bom, esse Kardashev fez uma espécie de escala. Essa escala dizia os vários tipos de civilização que poderia existir no universo, medidos pelo nível de capacidade de manipular e usar a energia.

Na cabeça de Jorge, várias imagens de filmes como Jornadas nas Estrelas e Star Wars vinham a mente.

– Tem a Tipo 1, que usa toda a energia possível no planeta, tem a tipo 2 que é capaz de usar a energia de uma estrela e a tipo 3 que é capaz de usar a energia de uma galáxia inteira! Imagine! Lemarchand disse “uma civilização capaz de usar todo o brilho da nossa Via Láctea”!

– Unh… Tipo o que? Luz?

– Não só luz, mas imagine usar a energia de uma estrela. Se já é energia demais, imagine de um quasar, continue imaginando de bilhões de estrelas e quasares!

– Quasar é aquele… Aquela… Aquele negócio que você disse uma vez que tem energia pra caralho?

– É, por ai. – respondeu em meio a um sorriso – Kardashev dizia que a civilização pararia aí pois são estrelas demais.

– Então nós ainda estamos em nível 1?

– Não, ainda não alcançamos nem o Tipo 1.

O coração de Jorge pulou uma batida, e ele nem mesmo soube o porquê de ter se admirado tanto com aquela afirmação.

– Uma civilização do Tipo 1 teria uma Eucumenópole – continuou Gonçalo, mal tocando em sua comida. – Uma Eucumenópole é uma cidade única, como se todo o planeta fosse apenas uma grande, gigantes metrópole.

– Impossível. – rosnou Jorge – Nunca conseguiríamos conviver dessa forma. Mal conseguimos com todas as fronteiras que nos protegem.

– Ou seria que nos separam? – sorriu, vendo o espanto de Jorge – Quem sabe todos nós, unidos em uma grande “Federação do Planeta Terra”, não seriamos bem mais unidos sem nossas fronteiras?

– Gonçalo… – respondeu sorrindo – Guerreamos por esse mesmo produto que ajudamos a extrair. Quem dirá se pudéssemos tirar a energia de uma estrela.

– Não Jorge, se conseguíssemos de uma estrela, seriamos Tipo 2, ainda falo da Tipo 1 e, no nosso caso, estamos ainda no Tipo zero ponto alguma coisa.

– É possível que alguma civilização do Tipo 2 exista?

Gonçalo coçou a barba, olhou para o céu azul sem nuvens e sorriu com os olhos brilhando de esperança.

– Eu não duvidaria se fosse você. – riu e voltou a atenção para a comida – Sabe… O trabalho de Kardashev foi continuado depois. Estudiosos e futurólogos começaram a teorizar civilizações acima da Tipo 3.

– O que seria?

– Bom, uma civilização Tipo 4, de acordo com Zoltan Galantai, seria, parafraseando, “uma civilização de tal magnitude tecnológica jamais poderia ser detectada por sociedades menos avançadas, pois suas obras seriam indistinguíveis de eventos naturais.”

– O que você quer dizer com isso? – disse um tanto nervoso – Seriam tipo… Deuses?

– Sim. Exatamente como deuses. Seres tão avançados, tão capazes que poderiam fazer qualquer alteração no universo. Criar e destruir galáxias inteiras, manipular, transformar, gerar e programar a própria vida.

– Besteira. Isso só Deus pode.

– Exato. Deus é de uma civilização Tipo 4.

Jorge engoliu seco e voltou a atenção ao mar. Sentiu-se tão efêmero e insignificante quanto o boi lhe proveu a carne para aquele almoço. Sentiu-se bobo por extrair petróleo, enquanto civilizações eram capazes de extrair energia de estrelas, galáxias e sabe mais de onde.

 – Mas isso tudo é uma grande teoria, não é?

– Sim. Mas entenda que, toda civilização de Tipo 4 seria irreconhecível a nossos olhos. Incompreensível até, assim como Deus o é.

Jorge parecia apreensivo, olhava para o céu como se algo dentro de si estivesse em guerra, e o lado que gosta estava perdendo. Gonçalo percebeu isso e tocou no ombro do amigo, com um sorriso tranquilo, continuou.

– Mas existe o Paradoxo de Fermi.

– E que diabos é isso?

– Bom, é algo que diz o seguinte, “Os aparentes tamanho e idade do universo sugerem que muitas civilizações extraterrestres tecnologicamente deveriam existir. Entretanto, esta hipótese parece inconsistente com a falta de evidência observacional para suportá-la.” – sorriu e apontou para o céu – Isso significa que os satélites lá de cima nunca pegaram nenhuma onda de rádio ou radiação capaz de comprovar a existência de alguma civilização do Tipo 1 ou 2.

– Ah… – suspirou aliviado e gargalhou – Você é meio louco Gonçalo.

Ficaram em silencio durante alguns minutos, onde Gonçalo finalmente voltou a atenção para sua comida. Enquanto estavam ali, Jorge absorvia tudo aquilo que tinha ouvido, ainda no balançar daquelas ondas, imaginava coisas que pegava da lembrança de filmes e series, montando suas próprias civilizações em sua mente, com naves espaciais, robôs e raios lasers.

Contudo, Jorge chegou a uma conclusão que o fez estremecer. Hesitou em verbaliza-la, tinha medo que Gonçalo concordasse com ela, mas uma das coisas que Jorge mais odiava era o tal do benefício da dúvida.

– Gonçalo, uma civilização tipo 3… – fez uma longa pausa, Gonçalo até mesmo voltou a comer – Assim, uma civilização Tipo 3 teria, ou melhor, seria capaz de passar desapercebida não? Tipo… Tipo que nem naquele filme, Matrix?

Gonçalo sorriu e meneando a cabeça em afirmação, seus olhos brilharam de orgulho. Porém o que ele disse fez o medo de Jorge se intensificar ainda mais.

– Sim, mas Jorge, as maquinas do filme Matrix são uma civilização do Tipo 1.

Não houve mais conversa naquela tarde. Jorge não conseguia mais formular ideias ou teorias. Tudo que dissesse poderia simplesmente ser categorizado. Seus paradigmas e crenças pareciam ter caído em um triturador de lixo. Era impossível. Tudo aquilo, simplesmente impossível.

No dia seguinte, Jorge não viu Gonçalo. Nem do dia posterior a esse, nem na próxima semana, nem no mês seguinte. Provavelmente, Gonçalo havia retornado a terra firme, contudo, ninguém sabia para onde ou que fim havia levado Gonçalo.  A memória daquele homem estava viva em apenas um livro que ele havia deixado, com uma dedicatória ao amigo Jorge.

 “Sei que não é muito fã de leituras longas e talvez até mesmo chatas. Mas leia, espero que ao invés de dúvidas e medo, faça é reforçar sua fé Nele. Com carinho, Gonçalo”.

O livro era O Universo Autoconsciente, de Amit Goswami.

 

Você me deixa abrir seus olhos?

Você me deixa abrir os seus olhos?
A muito tempo que eles permanecem fechados, não porque você quis assim, mas porque o fecharam para você. Desde seu nascimento, até o dia de hoje, mas neste momento, eu lhe faço essa pergunta, você permite que eu abra seus olhos?
Muito bom.
Mas o que quer ouvir? Qual mentira quer que eu desminta? Qual segredo quer ver revelado? Qual verdade quer entender? Levantar o véu não é uma tarefa prazerosa, pelo contrário, quando ver o mundo com os olhos despertos, verá uma realidade que não é tão boa quanto parece.
O mundo não funciona como está, você me diz. Há realidade pior do que essa? Você poderá perguntar, e eu responderei com um suspiro compreensivo, sim. Há aquele mundo onde você entende que boa parte dos seus esforços são podados, são levados a falha, não por você ou por falta de tentativa, mas simplesmente porque você não pode ter sucesso.
Então, ainda quer que eu abra seus olhos? Aviso, olhos abertos jamais podem se fechar novamente.
Ok, então vamos lá…
É, existe o Grande Irmão. Sim, existem pessoas no poder que regem as leis. Sim, o país é governado, melhor, administrado como uma empresa. Sim, as pessoas entram em concurso e faculdades sem fazer certames. Sim, alguém vai conseguir um transplante de órgãos antes de você, ainda que você seja o primeiro. Sim, a educação é ruim porque eles querem que seja ruim… Sim… Sim… Sim…
Eu poderia dizer que tudo que lhe disseram, até o momento, é mentira. Mas você acreditaria em mim? Eu poderia dizer, por exemplo, que a religião que você acredita, que suas opiniões políticas e sociais e até mesmo boas partes dos seus gostos não são realmente seus, são deles, da massa que criaram, do status quo imutável implantando pelo comodismo de existir.
Apenas exista, dizem eles. Lhe daremos o básico. Você vai poder até se casar, veja só! Mas na realidade somos apenas a fonte de renda deles. Ah sim… É ruim se achar no fundo da cadeia alimentar, não é? Você aí, todo inteligente, capaz de magnificas criações, nada mais do que um peão, um coitado que trabalha para um sistema que compra cada segundo do seu tempo, e meu caro, o seu tempo é tudo que você tem para vender. Acha que vende serviço? Mão de obra? “Capital intelectual”? Não, você vende seu tempo, uma das poucas coisas que uma vez vendida, não tem volta, nem reembolso, nem porra nenhuma.
Ah, mas que mundo de merda esse seu. Abri meus olhos apenas para ser ainda mais triste e frustrado. Abri meus olhos apenas para ver que nada sou além de uma fonte de renda para mamãe Dilma ou qualquer outro governante…
É, seus olhos foram abertos. Mas cabe a você o que fazer com seus olhos.
Posso lhe dizer mais? Quer ouvir?
Tem certeza? Então vamos lá.
A religião só existe para lhe manter longe dos grandes segredos, segredos esses que vão lhe levar para o sucesso assim ó, puf! É… Eu sei, você tem medo da sua alma imortal ser consumida nas chamas da danação eterna, não é? Bom, isso é realmente uma pena. Mamãe Dilma não tem medo disso, nem papai Bill Gates, nem ninguém que você vê nadando em seu dinheiro. Isso mesmo, SEU dinheiro. Se livre de mais essa meu caro, é… Desse paradigma mesmo, dessa religião, não tenha medo. Acredite no Deus que existe em seu coração, se quiser, mas não acredite no Deus que eles mandaram você acreditar.
Mas aí é que tá, não é? Difícil tirar isso da cabeça. É ainda mais difícil do que passar todo domingo e aguentar aquela horinha lá, aquela que “te salva” da danação eterna. Parceiro, não adianta se arrepender de nada, ação e reação é o que rege a Lei. Traiu a mulher? Bateu nos filhos? Aceitou propina? Deu fechada para chegar mais cedo em casa no transito? Não devolveu o troco? Pois é, tudo isso volta, de uma forma, de outra, mas volta. Ir à igreja não tira você dessa parceiro. Talvez ir à igreja seja seu castigo… Talvez.
Ah, quer saber o segredo? Não… Ainda não. Seus olhos não foram abertos por completo. Ainda há dúvida, ainda há medo, e quem hesita, hum, esse não chega lá nunca. Hesitou, perdeu. Vá atrás dos mistérios quando não tiver dúvida, quando não tiver nenhum medo, quando ter a absoluta certeza que você quer despertar, que vai ter a gana necessária para atravessar o umbral. Antes disso você vai encontrar apenas sofrimento e frustração.
Existe sim uma saída de tudo isso, ela está com você, sempre esteve, sempre estará. Não vou dar o mapa, mas vou dizer onde tá o pote de ouro. Vai, faça assim comigo, feche os olhos… Isso… Agora respire bem fundo, inale… Exale… Faça isso durante uns minutos, três ou cinco, relaxe bastante. Pausadamente não, inale e exale, inale e exale, lento, mas sem parar. Agora não pense em porra nenhuma, limpe sua mente… Isso. Taí, agora é só pegar.
Está dentro de mim? E você ainda tem coragem de me perguntar isso?
Mas cuidado meu caro… Os olhos que se abrem, jamais se fecham, a mente que se expande, jamais retorna ao seu estado original.

Realidade 2.0

Primeiro eu achei que era uma brincadeira, só poderia ser. A ideia de que alguém construiu em um computador um outro mundo e, aí vem a parte engraçada, conseguiu criar uma porta que o levasse para esse mundo, só poderia ser uma piada. Mas não era.

Eu o conheci online, depois o visitei em casa. Seu nome era Ichiro, um japonês cansado, de olhos fundo e a barba sempre a fazer deixava seu rosto quadrado como um cubo de Rubik, só não era colorido. Esse homem me mostrou todo seu projeto, no porão da casa de seus pais. Um laptop plugado a uma grande máquina e da máquina, fios emolduravam uma porta de madeira que dava acesso a um quarto de ferramentas, os fios eram conectados a pequenos cubos de ferro onde um led verde ou vermelho piscava regularmente. Era um caos, mas ele não se perdia naquele emaranhado.

Ichiro conseguiu juntar mais seis pessoas que acreditavam em seu projeto e o financiaram, não com muito, por mais incrível que tudo aquilo parecesse, não era caro, apenas trabalhoso. Todas essas pessoas se uniram ao japonês por um simples motivo.

Sua vida era sem graça. Achavam a realidade extremamente entediante e monótona.

Eles se dispuseram a participar do seu projeto e eu também pois compartilhava da sua visão sobre o mundo. Era sem graça, monótono e sem sentido. Ajudei ele com alguns detalhes, estudamos possibilidades, modos, meios e tudo que era preciso para criarmos o mundo e sua porta. Por mais que eu estudasse e o ajudasse, era a sua ideia, sua genialidade que tornou aquilo possível.

Nos reunimos em uma manhã quando finalmente abrimos aquela porta e lá estava, ao invés do quarto de ferramentas, uma grande planície, linda, a paisagem perfeita imaginada por uma das mulheres do grupo. O céu, as nuvens, a grama e as flores… Tudo era perfeito. Eles entraram sem pensar duas vezes, eu segurava a porta aberta.

Havia um porem com a porta, no momento que ela fosse fechada, não haveria volta. O portal seria fechado e nunca mais aberto. Votamos por deixar a porta aberta, mas quando eles entraram e finalmente sorriram, eu entendi.

Aquele mundo era o mundo deles e nunca precisariam voltar, essa realidade era horrível para eles, mas não aquela, nunca seria. Olhei o laptop, olhei a máquina e percebi que, se elas fossem desligadas, o mundo iria se perder e inclusive eles que foram capaz de adentrar naquele novo universo.

Com a pior sensação de perda que já tive em minha vida, cerrei os olhos e fechei a porta. Seria o guardião daquele mundo, estaria cuidando para que todos pudessem aproveitar uma vida naquele lugar.

Não sabia como explicar para os pais de Ichiro a ausência do filho, então por falta de desculpa melhor, disse a eles que fiquei encarregado de terminar seu projeto enquanto estivesse ausente, mas sobre sua ausência nada pude dizer. Em uma noite em especial, notei que algo estava incoerente no algoritmo que Ichiro criou e, acima de tudo, sobre a possibilidade da criação de um mundo virtual. Ele não compartilhou uma informação essencial comigo, a de que não era possível transformar matéria em dados e vice versa, logo, sua porta de fato foi aberta para outro mundo mas de longe era virtual. Passei meses analisando os dados até descobrir que de fato ele criou um universo naquele porão, mas aquele universo era físico e real, e ao se expandir, tomou para si uma das 11 dimensões.

Ele sabia que eu não concordaria com isso.

Já ouviu dizer que nada se cria, tudo se transforma? A partir dessa ideia você pode entender que eles destruíram matéria deste lado, já que a levaram para aquele outro. O resultado disso a longo prazo não poderia ser calculado, mas com certeza não poderia ser algo bom.

Através do laptop enviei uma mensagem para o grupo, que logo responderam que eu estava me preocupando a toa, que não haveria efeitos colaterais e que tudo ficaria bem. Após alguns dias recebi outra mensagem, de um dos membros do grupo, dizendo que eles estavam dispostos a ficarem lá não importando as consequências acarretadas no nosso mundo. Eu entrei em pânico. Tentei abrir a porta, religar a máquina do portal, cheguei ao ponto de pensar em desligar o computador, mas isso apenas traria a certeza de que eu teria apagado toda a matéria deles que pertencem a esse mundo.

Quase um mês depois, Ichiro concordou em voltar com o grupo e poderia recriar a máquina, faze-la funcionar da forma correta, trocando massas idênticas para que não houvesse desequilíbrio entre nenhum dos mundos e foi o que eu fiz, durante dois meses construí uma “válvula de escape”, uma forma de abrir a porta ao contrário, Ichiro teve de construir a mesma coisa do outro lado, mas ele levou questão de segundos, o que pensassem se concretizava daquele lado. Parecia maravilhoso a ideia mas eu estava muito preocupado para admirar a proeza.

Graças a uma trava de segurança que Ichiro havia implementado no algoritmo chamada “Buraco negro de Monroe” não era possível trazer nada daquele mundo para o nosso, exatamente com a ideia de que não interferíssemos na nossa realidade voltando daquela outra com coisas maravilhosas ou até mesmo perigosas.

Então ativei o Buraco negro de Monroe e desativei a trava, o processo havia iniciado, na tela negra do laptop as linhas de comando em branco passavam ligeiras, mostrando todos os passos que estavam sendo executados até o momento que começou o processo de transporte.

O maior medo que senti foi a ler os nomes, de um a um, de quem havia voltado. Havia o de Ichiro e os outros seis, mas também havia mais dois. Duas entradas onde diziam <nome_desconhecido transportado com sucesso>.

Ichiro não conseguia entender o porquê eles haviam sido transportados já que não havia razão para tal e, além disso, qual das inteligências artificias daquele mundo que foram tragadas pelo Buraco negro de Monroe, e também onde as entidades foram parar, já que não estavam naquele porão.

Foi então que percebi nossa sucessão de erros. Primeiro anulamos a existência da matéria deste lado e, então, destruímos a existência também do outro. Houve aí um desequilíbrio não só do nosso universo mas aquele que criamos que, por ser físico, responde as mesmas leis que o nosso. O problema foi que, naquele mundo, poderiam ser o que quisessem e todos estavam mais fortes, mais magros e esbeltos… O peso deles havia mudado e, quando retornaram, não era o mesmo peso que esse universo precisava, o Buraco Negro de Monroe foi obrigado a pegar mais duas entidades para que o peso entrasse em acordo com a massa total do nosso universo.

Sei que pode soar complicado, mas não é. Como eles entraram com um peso , esse mesmo peso deveria voltar, então eles voltaram com um peso y e o necessário para nosso universo se estabilizar seria então . Mas a diferença de x e y significou uma massa equivalente a duas entidades daquele lado que passaram para cá para que assim o universo voltasse a ter sua massa de sempre.

Eles estavam preocupados em saber como voltariam para aquele outro mundo, o Buraco negro de Monroe seria usado para trazer massa daquele lado equivalente a massa deles, poderia ser até mesmo areia e eles fariam isso de novo, eu tenho certeza. Ichiro já cogitava criar outro mundo, melhor, outra porta, em outro lugar, uma máquina que seria abastecida e energia solar e por aí vai, ficaram teorizando e teorizando, mas apenas eu estava calado, o mundo deles já não me importava.

Eu fiquei preocupado não com eles, mas em quem eram os dois <nome_desconhecido> e o que fariam do nosso lado…

Sábado a noite

Ramon imaginava, ao esperar a chegada de seu velho conhecido, qual nome estaria usando. Seria um nome italiano como seu país ou seria algo mais moderno, mais “da hora”. Lia com um sorriso de quem vê algo absurdo um livro de capa preta, sentado à vontade em um pequeno café muito bem iluminado, com as botas pesadas sobre a mesa. No rosto jovem um óculos escuros aviador de lente azul se punha entre seus olhos e as páginas comicamente absurdas que lia.

A garçonete, como se diz por essas bandas, popozuda? Era essa a palavra? Ela trouxe um café gorduroso, com placas de algo que Ramon não fazia ideia do que era, mas pareciam nojentas, flutuando sobre o liquido marrom na xicara. Ele a olhou e sorriu, seus lábios finos formaram uma meia lua rosa em seu rosto. A garçonete não disse nada, mas achou aquele rosto completamente absurdo, como em um pesadelo, ao se olhar para alguém realmente belo que na realidade é o próprio diabo.

A sineta em cima da porta badalou e Ramon tirou os olhos do livro, um homem mais alto e forte que ele entrou com os olhos cerrados, certamente incomodado pela claridade. Suas roupas pretas e a jaqueta pesada tornavam aquele homem uma figura fora do quadro, como se não pertencesse àquele lugar. Seu rosto era tão marcante que, se ele fosse posto entre uma multidão de italianos, você poderia dizer que ele era o único italiano de verdade. Os cabelos negros, grandes, emaranhados e bagunçados, soltos sobre o rosto cansado e nervoso. Ramon levantou com um sorriso sincero, mostrando os dentes, largou o livro sobre a mesa e acenou, logo apertando vigorosamente a mão do companheiro quando este se aproximou.

__Sente-se! Sente-se! Bem-vindo ao Brasil! –disse com o sorriso de dentes brancos como marfim- Ainda se chama…

__Martino, sim. –disse sentando na poltrona em frente a Ramon- Eu recebi sua carta, Ramon. –sem sorrir, olhou o café e voltou a olhar para o homem loiro a sua frente- Ramon… Já esteve na França ao menos?

__Eu não, nunca. –sorriu em meia lua e sentou, tomando um gole do café seboso- Então… Faz quanto tempo? Dez? vinte anos?

__Quarenta. –respondeu finalmente esboçando um sorriso- Você não mudou nada, nem o corte de cabelo.

__Quarenta? –falou surpreso- Então… Isso dá… Década de oitenta não foi? Naquela época dos… Lembrei! –disse fazendo um estalo com os dedos- A última vez que nos falamos você estava negociando alguma coisa com o… Aquele do boys dont cry –dise cantando- O tecladista… Matthieu. Eu lembro, você estava bravejando com ele por ele largar a banda não era? Você dizia que…

__Sim, ele largou a banda porque estava “obscura demais”. Maricas.

__É verdade, bem gótica, do jeito que você gostava. Década de oitenta, veja só… –disse nostálgico- As pessoas ainda acreditavam que existíamos, tinham medo da nossa raça. –Martino arregalou os olhos, Ramon fez um “piff” com a boca e um aceno para que não se preocupasse- Ninguém mais acredita em nós, se alguém ao menos ouvir essa conversa, vão pensar que somos dois esquisitões em um café, só isso. Ainda mais aqui, no Brasil? Rá! Aqui ninguém dá a mínima! Tem um ou dois góticos esquisitos ou uns malucos que fumaram maconha demais, mas de resto, ninguém. Somos cainitas, e daí? Aquela “popozuda” ali nem sabe o que é isso!

__Popozuda?

__É como chamam mulher com a bunda grande por aqui. –disse em um suspiro- Onde você esteve todo esse tempo? Em uma caverna?

__Enterrado. –respondeu sorrindo, olhou para os lados e aproveitou um pouco a liberdade de falar sobre aquilo em público- No início dos anos noventa e aquela loucura eletrônica, eu falei para mim mesmo que iria dormir alguns anos, para ver se melhorava, mas não melhorou porcaria nenhuma.

__Não mesmo, agora as crianças tem um novo som, como se chama mesmo… –Ramon tirou uma folha que já foi dobrada diversas vezes e a esticou sobre a mesa- Ah sim! Dubstep. É horrível, parece que colocaram um robô em um liquidificador.

__Robô… Issac Assimov, aquele tipo de coisa?

__É, é meu amigo Martino… É… Aquele tipo de coisa. De qualquer forma, como eu ia dizendo, ninguém mais acredita nos cainitas, olha isso aqui! –disse batendo o indicador com força no livro, sorrindo em meia lua, Martino conhecia aquele sorriso e não gostava, nem um pouco- Isso aqui fala sobre vampiros, lobisomens, uma garota meio idiota e, agora vem a melhor parte, os vampiros… –disse segurando o riso, olhando para os lados- Eles… Brilham no sol! –soltou uma risada alta e desconfortável, batendo a mão na mesa- Eles brilham! Acredita? Brilham!

Martino respirou fundo e tirou uma fita de seda preta do bolso, prendeu os cabelos que lhe incomodavam sobre o rosto e tomou um tempo para se acalmar e deixar a risada irritante de Ramon sumir naquelas paredes. Uma risada alta, rouca, que chamou a atenção dos poucos que ainda tinham coragem de tomar um café naquele lugar. Ramon tirou os óculos, os olhos perfeitamente verdes, sobrenaturalmente verdes, cheios de lagrimas, limpou ainda rindo e pôs o aviador de volta, olhando para Martino.

__Desculpa Martino… A tanto tempo não falo com um amigo que, sabe, perco a noção. –suspirou, Martino olhou seu peito inflar e sorriu com desdém- Eles brilham…

__Eu já vi um vampiro brilhar, era seis horas da manhã e eu corria como um louco para dentro do esgoto. Ele não teve a mesma sorte, quando o olhei estava lá, brilhando, o fogo isso sim.

__É verdade… É verdade… Já leu esse livro?

__Parei de ler na década de 50. –disse pegando o livro e olhando a capa-

__Então chegou a ler George Orwell?

__1850, com excessão do Issac Assimov e até pouco tempo, Terry Pratchett, só. –disse foleando tediosamente o livro- Esse livro aqui, dos vampiros brilhantes, fez muito sucesso?

__Se fez… Teve filme e um monte de coisa. Um dia eu estava entediado como nunca! Quer dizer, não tanto quanto no início dos anos 90, mas ainda assim, muito. Eu fui até um buraco qualquer em busca de alimento e encontrei uma garotinha de seus… Dezesseis anos. –Martino levantou os olhos do livro e lá estava o sorriso em meia lua- Dezesseis anos mas tinha uma das maiores bundas que já vi. Essas crianças de hoje em dia… De qualquer forma, eu estava tão entediado que eu falei para ela “Ei mocinha, eu sou um vampiro!” e ela nem deu bola. Aí eu mostrei meus dentes e fiz assim –abaixou os óculos e mostrou os olhos verdes- aí disse “eu sou um vampiro de verdade”. Você acredita que ela abriu um sorriso de orelha a orelha e falou “Namora comigo! Você é um tudo!” e ficou toda histérica. Eu… –disse rindo- Eu fiquei atônito sabe? Eu estava acostumado a elas correrem pelas suas vidas ou uma coisa mais sensual, aqueles sexos tórridos e cheio de mistério. Mas não! A louca pede para eu ser o namorado dela, você acredita? Por isso eu digo meu amigo Martino, não tenha medo de ser vampiro por aqui não, ninguém liga, ninguém dá a mínima. E se descobrirem, vão querer namorar com você!

Martino largou o livro e se recostou na poltrona, cruzando os braços. Ramon estava muito corado, seus lábios rosas e seu sorriso absurdamente medonho. Tinha certeza do que fazia, do esforço exagerado que fazia para deixar seu corpo com aquela aparência, viva, respirando, até suava. Ele por sua vez estava tranquilo, pálido, seu peito não inflava, seus olhos estavam sem vida como sempre foram, desde que se tornou o que era hoje. Ramon até parecia… Moderno. Ainda que suas roupas fossem claramente de um estilo dos anos oitenta, com uma jaqueta jeans com as mangas arrancadas, ainda assim ele estava lá, como um turista, como uma pessoa muito simpática, a ponto de levar sua família para jantar, ser seu amigo, acompanhar você em uma caminhada no parque. Mas Martino sabia que aquele ali era só o Ramon, que o verdadeiro cainita sobre aquela mascara já teve o nome de Christman Genipperteinga, famoso, lendário, com mais de 900 mortes vinculadas ao seu nome, conhecido na Alemanha, preso e supostamente morto na “Roda”.

__Ramon… Porque me chamou aqui. Eu prezo muito pela nossa amizade, eu só não consegui ainda desvendar o motivo.

__Para te libertar irmão! Ora, aqui é o Brasil! Sabe que cidade é essa? Nem eu! Ninguém sabe, ninguém se importa! Podemos viver tranquilamente aqui, nos alimentarmos sem problemas. E olha… Desde a década de cinquenta que eu venho lendo e lendo e lendo eu leio todas as noites! E não são livros de bruxaria, eu não mexo mais com isso, são livros, literatura, eu já li uns… Sei lá, eu perdi a conta. Mas é só o que me interessa agora. Aqui… aqui no Brasil eu posso ler, e ler e ler e ler e ninguém vai me incomodar, não vai nem suspeitar que sou o que sou, e se suspeitar, grande merda, ninguém vai ligar. E quando começarem a ligar, eu viro lenda e puff, sumo no ar, como sempre sumi, como sempre vou sumir, como sempre sumimos. Lá na Itália as pessoas, sabem, tem suas lendas, seus mitos… Ainda acreditam o suficiente, o Sabbath ainda faz muita merda por lá para assustar as pessoas, por aqui, a palavra Sabbath só é dos fãs de Rock and Roll!

__E você não? Você se desafiliou da mão negra? Fugiu? Está, como se diz, procurando a salvação por todos os pecados que já fez nos seus dias mais movimentados?

Ramon continuou com o sorriso de meia lua, a pele corada voltando lentamente a palidez costumeira, os lábios rosados perdendo a cor, se tornando esbranquiçado, sem vida. Ele tirou os óculos e seus olhos ainda brilhavam como um sinal de transito, verde, forte, dizendo vá, seja livre, pode passar, é a sua vez. Martino coçou o nariz em um sinal de desaprovação e sorriu, Ramon retribuiu o sorriso com os dentes pontudos amostra.

__Eu nem mais os guardo, quando preciso sorrir, sorrio de boca fechada. Algumas pessoas dizem “Nossa, você tem dentes como um vampiro” e eu digo, “é porque sou um” e todo mundo cai na gargalhada. –a garçonete veio e lhe serviu mais café, lá estava o sorriso em meia lua- Estamos desacreditados e eu prefiro que fique assim, por isso, por mais absurdo que seja “brilharmos no sol” espero que muitos e muitos livros desse ainda sejam feitos. –pegou o livro e o balançou- Eu não duvidaria nem por um segundo que essa escritora, se não for um membro, é um lacaio de algum de nós. Venha Martino. –levantou e tirou um bolo de notas de cinquenta reais enroladas em uma liga, tirou uma e jogou sobre a mesa- Eu vou procurar alguma coisa para comer. –sorriu mostrando os dentes- Sabe, eu costumava ter um rebanho no início dos anos noventa. Me entediei, vendi todos eles, cinquenta ao total, fiz fortuna.

Os olhos de Ramon brilharam à luz do luar, a noite realçando aquela aparência sobrenatural do rapaz, sua pele não brilhava, ao contrário, perdia o tom vivo, voltava a ser mais um morto vivo, um amaldiçoado a nunca mais ver o sol.

__Sentiu falta da caçada… Eu também. –disse Martino- Às vezes eu sinto, mas prefiro ter meu rebanho, mulheres rechonchudas… “Popozudas” como você chama.

__Ah, quer a garçonete?

__Não ela. Vamos andar, me mostre essa cidade que você tanto diz gostar.

__Sabe qual o melhor Martino? –disse abrindo os braços e girando- Não tem ninguém nessa cidade além de nós! Ninguém! Só eu e você. Só não os mate sim? Você diz gostar de ter um rebanho, que tal uma cidade inteira?

Ele gostou da ideia, uma cidade inteira, como nos velhos tempos onde ficavam em pequenos vilarejos, temidos, tratados as vezes até como deuses. Quando a poeira começava a subir, sumiam, desapareciam por anos e depois, lá estavam, de volta, em outra cidade.

__2013… –disse Martino parando Ramon por um momento- E você nunca me disse seu nome de verdade. Já estamos a quantos anos juntos?

__Seiscentos e trinta e sete. –Ramon olhou para Martino, dessa vez sério, as sobrancelhas reta no rosto- E por favor, não me lembre mais disso. A cada dia que passa, fico mais e mais entediado, um dia, eu juro para você. Vou enfiar uma estaca em meu coração e ver o sol nascer.

__Já fizeram isso, muitos fazem, sabia?

Ramon olhou para o céu e depois para Martino, pôs a mão no seu ombro, ia dizer algo, mas preferiu o silencio. Deu dois tapinhas em seu rosto e voltou a andar. Martino sorriu, Ramon sempre foi um monstro, mas sabia que estava diferente, estava cansado, perdeu o interesse até mesmo no pouco prazer que tinham. No final, queria apenas ler, viver e ler. Ele sabia que, quando perdesse o interesse pelos livros, iria fazer justamente isso.

Uma estaca, ver o nascer do sol e puff.

Quase setecentos anos de vida enfim, com um ponto final.

Vou voltar para o meu céu.

Quinze anos. A pequena Emma agora já tem dezesseis, Elizabete tem vinte e seis, o garoto Eduardo estaria fazendo vinte e oito. Quinze anos que eu passei em coma, como pode eu ter acordado assim, tão de repente?  Ainda mais, nesse mundo de agora.

2030. Eu tinha trinta e cinco anos na época do acidente, Eduardo não teve a mesma “sorte”. Minha querida Joana teve de criar as duas pequenas sozinha, esposa fiel, de acordo com minhas filhas, nunca arranjou outro marido enquanto eu estava em coma e um belo dia, faleceu, ataque cardíaco. Não aguentou a emoção ao saber o que aconteceu em 2014, que o cometa ISON na realidade era uma gigantesca nave mãe, imagine, do tamanho da Austrália!

Do tamanho da Austrália… E eu, acostumado com meu espaço de algumas quadras, indo e vindo do meu trabalho, as vezes visitando outras partes da cidade para um jantar, umas compras ou um passeio no parque. Uma nave, do tamanho da Austrália.

Agora, a nave pediu para, olhe só, seus conterrâneos aqui na Terra, ajuda para reparos e que logo voltaria à viagem cósmica que faziam. Sabe, seus conterrâneos, já havia extra terrestres aqui na Terra e nem sabíamos! O que importa é que eles tiveram que, finalmente, se mostrar e a revolução cientifica começou. Os governos aceitaram, ou melhor dizendo, revelaram os seres extraterrestres e, surpresa, não havia apenas uma raça, mas quatro! Quatro!

Sabe como eu saí do coma? Minha filha mais velha, a Elizabete, se casou com um deles, um cara importante. Ele mexeu uns pauzinhos e eu pude ser curado do que quer que seja que não me deixava acordar, mas eu vou lhe dizer, acordar naquele lugar, com aquele tipo de tecnologia e com aqueles rostos tão familiares, mas tão… Extraterrestres, me fez entrar em choque, fiquei mais de um mês sem saber se aquilo era real até que finalmente, aceitei aquela realidade.

Era uma mulher, esquisita, cabeça redonda, era humana, mas sabe? Sabe quando olhamos para uma pessoa e dizemos “Nossa, que cara de cachorro?”, então. Olhos da cor de duas ameixas, não tinha nem a parte branca, era preto, brilhante e molhado. Fiquei sabendo mais tarde que usavam lentes, disfarçavam, se misturavam mais fácil do que imaginamos. O rosto enrugado me deu a impressão que eu olhava para um filhote de mexicano com buldogue. Enfim, foi um mês em estado de choque, minha boca se esforçava para lembrar como falava, as palavras saiam enroladas, preguiçosas, molhadas e mofadas.

Arranjei outro emprego, bobo, estacionava carros em um hotel. Olhava para todas as pessoas com outros olhos, eu não sabia identificar ao certo as raças, acabei me dando conta que elas não eram tão estranhas assim. Era como olhar uma pessoa de outro país, sabe? Eu, aqui no Brasil, olhando para um mexicano, um alemão grandalhão ou um esquimó. Tinha uma em especial que era mais fácil identificar, o rosto era fino, lembrava uma cobra, os ossos da bochecha eram esticados, puxados e afinados para baixo, era bem estranho, mas não chegava a ser feio sabe?

Eu sempre pensei que minhas filhas iriam se casar com um homem de bem, nem rico nem pobre, nem feio nem bonito, nunca imaginei que iria casar com um extraterrestre, ainda mais, com esses daí, de bochecha fina. No final, eu não sabia mais diferenciar nenhum, nem ninguém.

A vida foi perdendo a graça, perdendo o sentido, a noção, perdeu tudo. Resolvi ir embora, fugir de toda essa coisa alienígena, fugir de toda essa estranheza, eu não me sentia mais na Terra, parecia outro planeta, outro mundo do qual eu não pertencia. Fui para a roça, virei peão, capinava e colhia e plantava e capinava e por aí vai. Mas não funcionou, eles tinham criados esses “faróis”, uns pilares de luz que podiam ser vistos do espaço, era bem medonho, uma luz branca, fraca, doente, mas estava sempre lá no céu noturno, uma faixa, me lembrava o holofote que usavam para chamar o Batman.

Comecei a não sair de casa à noite, não ver mais as estrelas, não via mais televisão, não falava mais com ninguém, ficava sozinho na maior parte do tempo. Os donos da fazenda vinham falar comigo, os meus chefes e alguns dos meus parceiros no trabalho, e eu sempre respondia sim senhor, não senhor e logo logo me afastava e voltava a ficar sozinho. Não sabia de onde eram, quem eram e como eram, os rostos se confundiam, minha cabeça começou a me pregar tantas peças que, quando eu me olhava no espelho, achava que era um deles.

Então nem espelho mais eu tinha.

E foi indo, de pouco em pouco, os meses se passaram, as colunas de luz ainda estavam adoecendo meu céu e, vez ou outra, ainda via uma nave passando, esquisita, pontuda ou em forma de charuto. Então em uma tarde onde o sol estava me castigando, uma nave parou no ar, em cima de mim, sem fazer um só ruído e de lá, uma nave menor desceu e minha filha saiu dela, veio me fazer uma visita.

Minha filha era uma alienígena então.

Foi naquele dia, depois de ela ir embora, que eu escrevi está carta, fotocopiei um monte delas, enviei para tudo quando é revista, jornal, blog e site que eu encontrei e, do jeito mais terreno que eu conheço, vou amarrar uma corda no meu pescoço, a outra ponta na arvore e saltar.

Só peço perdão por não ter conseguido entender esse mundo de vocês, Emma, Elizabete, mas fico feliz que vocês estejam aí, felizes, com seus amigos do outro mundo. Eu vou para o meu céu agora, onde eu deveria estar a muito tempo, onde eu deveria ter acompanhado, segurando na mão do inocente Eduardo, e caminhado os degraus até o céu que eu conhecia, que para mim, ainda deve ser o mesmo céu do meu paraíso.

O Casulo

O casulo, como era carinhosamente chamado, foi acionado. Uma câmera de crio-sono que permitia aos tripulantes ficarem em estase durante viagens muito longas, permanecendo na idade de quando foram congelados. A primeira coisa que Simon viu quando acordou foi um rosto velho e sorridente através do vidro embaçado. No final do processo, Simon saiu e logo foi coberto por um roupão branco pelo homem, que o enxugava e aquecia.

__Há quanto tempo dormi? –disse ainda batendo os dentes-

__Quarenta anos. Vocês foram acordados porque a Pioneira IV finalmente aterrissou.

__Aterrissou? –disse com os olhos arregalados de surpresa- Achamos um planeta para habitar!

__Sim Simon, finalmente encontramos. –deu um tapinha nas costas e deixou que se vestisse- Como está se sentindo?

__Bem, meio desnorteado…

Olhou finalmente ao redor, os casulos se abrindo, vários, centenas. As pessoas saiam e já eram atendidas por alguém. Alguns não tinham tanta sorte quanto Simon, vomitavam, sentiam uma fraqueza que mal aguentavam em pé, alguns não conseguiam se lembrar de nada, desmaiavam e outros ainda entraram em choque, mas logo eram atendidos pelos paramédicos da estação de crio-sono.

__Quarenta anos… Onde está meu irmão Solomon? –voltou a olhar o velho que sorria com os olhos cheios d’agua- Você… Solomon?

O homem o abraçou forte, sorrindo, a barba roçando o pescoço do irmão mais novo, de apenas vinte e um anos. Ele olhava as pessoas que saiam, todas elas eram recepcionadas pelos seus familiares. O abraço, ainda que carinhoso, doía suas costelas de tão apertado.

__Quarenta anos… –repetiu- Solomon, o que aconteceu? Você não foi para o crio-sono?

__Não, não pude. Eu estava na área de manutenção da nave, tivemos um grande problema com os geradores de gravidade, tinham picos e ficaram mal calibrados e…

__Entendo… –sorriu e apertou o rosto do irmão, puxando para cima e para baixo- Continua a mesma coisa, só com umas rugas aqui e ali. Está com quantos anos? Sessenta?

__Setenta. –retribuiu o sorriso e limpou as lagrimas com as costas da mão- Venha, vamos ao vestiário, precisa se vestir para conhecer nosso novo lar.

__Lar?

__Sim, vamos ter uma casa só nossa. Todo esse tempo que passei acordado consegui créditos suficientes para comprar um pedaço de terra e uma casa já pronta, além de uma pequena nave cargueira para trabalharmos.

__E Xinê? Onde está ela?

__Xinê… –disse em um suspiro- Xinê faleceu há cinco anos, em um acidente gravitacional… Você perdeu muita coisa, casamos eu e ela…

__Sinto muito… Xinê era uma boa amiga.

__Sim, e uma excelente esposa…

Andaram pelos corredores branco-gelo da nave que levava para os vestiários, estava quente e as pessoas já suavam e ofegavam ao andar de lá para cá, trazendo e levando os acordados para vestiários, enfermaria ou onde precisassem ir. Simon trombou com um ou dois rostos conhecidos, se cumprimentaram e sorriram, satisfeitos por terem acordado. O vestiário também estava lotado, homens distribuíam uniformes para aqueles que precisavam, Simon conseguiu o seu, um colante que cobria todo seu corpo, cinza e com uma pequena marca da Aliança Terrestre na altura do coração. O colante tinha pequenas placas de proteção e contava com um revestimento hermético para minimizar o contato da pele com a atmosfera.

__Não é exagero isso? –olhou seu reflexo no espelho com o colante-

__Não, pessoas que ficaram muito tempo no casulo tendem a enfraquecer, suas resistências diminuem. Daqui vamos direto para casa, lá eu tenho alguns sérum para passar nesse seu rostinho de bebê e logo logo você vai poder usar suas roupas “da moda”.

__Moda? Depois de quarenta anos? Nem imagino como possa estar.

__Olhe em volta. –Solomon riu, girando com os braços abertos- Essa vai ser a moda entre vocês durante um bom tempo. Novaesperança é um tanto diferente da nossa Terra.

__Novaesperança?

__Ah, é o nome provisório do planeta.

Caminharam entre os corredores estreitos da estação de crio-sono até saírem para a zona de extração, um imenso galpão com naves e pequenos veículos terrestres. Solomon levou Simon para uma nave em especial, grande, lembrava uma gota vista horizontalmente, de um metal azul escuro e com duas pequenas janelas na ponta. Era uma nave cargueira comum, conseguia carregar um peso considerável e era ideal para a colonização, podia carregar minérios, madeira e até água graças à versatilidade de seus compartimentos. Solomon acionou o botão holográfico na porta e um pequeno painel avermelhado surgiu, digitou rapidamente uma senha e uma porta cujas frestas eram quase invisíveis se abriu em um sopro agudo.

__Preciso arrumar essa porta. –disse sorrindo, deixando o irmão subir primeiro- Bati em uma arvore quando pousei uma vez, acho que deve ter empenado alguma coisinha… Não sei bem o que é.

__Dou uma olhada depois, não parece ser nada. –passou o polegar pela extensão da abertura- Nada que de para ver assim ao menos.

A nave levitou suavemente, emitindo um pequeno ruído rotatório, ao sair da zona de extração, as pequenas janelas se abriram e Simon pode ver Novaesperança, um céu azul com grandes nuvens brancas, limpas e claras. Uma floresta rala, com pequenos conjuntos de arvores de um verde-limão claro e brilhante graças ao reflexo do sol.

__O céu me lembra os vídeos que vi quando era criança… Da Terra. As arvores… Elas são diferentes não são?

__São sim. Tem menor concentração de clorofila, são mais fáceis de cortar, mas são pouco resistentes. Isso é bom, sinal de que não vamos usar muita madeira. Tem grandes montanhas mais ao sul, de minério e…

__Solomon… –Simon se soltou do banco acolchoado e se agachou ao lado do irmão, que pilotava a nave- De volta ao casulo… Onde estão o pai e a mãe? Já faleceram?

__Não… Não sei. –Solomon ligou o piloto automático e se desprendeu da poltrona- Eles também foram congelados, só eu fiquei de fora.

__E onde estão?

__Eles não tiveram a mesma sorte que você, o crio-sono foi feito para pessoas mais novas, antes dos vinte. Mamãe perdeu a memória e logo entrou em choque, que evoluiu para coma em poucos minutos. O choque em me ver mais velho… Eu sabia que eles deveriam ter tirado ela de lá, cuidado dela e só depois ter me visto. Papai… Ele não acordou. Está vivo, mas não acordou. Também não está em coma, só está… Dormindo.

__Eles continuam na nave? Digo, na capital?

__Sim.

__O casulo… é errado sabia? Nós não deveríamos ser encasulados, o crio-sono é como, eu não sei nem explicar. Tudo fica escuro e então você não é nada, mas você quer acordar, como quando dormimos demais e… Não é bem isso, é como se sentíssemos que deveríamos acordar, entende?

__Por isso que existem pessoas que ficam acordadas durante toda a viagem, não fomos feitos para viver dentro de uma nave, mas acostumamos. Estamos há o que, três gerações na nave, você nem mesmo sabe como é estar ao ar livre. Aqueles ambientes simulados nem mesmo chegam perto.

__É verdade, as nuvens… –pôs o rosto quase colado na janela, olhando o céu de nuvens brancas e claras- São muito mais bonitas ao vivo.

__Simon, eu quero te perguntar uma coisa. Nós tivemos um problema na Pioneira IV, não durou muito, foi coisa de minutos… –Solomon suspirou, encarando o irmão- Você se lembra de ter acordado?

__Acordado? Nesse meio tempo?

__Sim. O sistema de emergência foi ativado e todos os casulos foram abertos durante três minutos, muitos acordaram e logo foram congelados novamente. Havia… Pessoas… –Solomon procurava as palavras certas- Elas… Essas pessoas foram congeladas com uma feição de desespero no rosto.

__Acho que qualquer um que acorde de um crio-sono prefere nunca mais voltar e…

__Você era um deles. Seu rosto estava distorcido, parecia… Deformado. Mas você está bem agora é o que importa, não é? Você está bem?

__Onde quer chegar?

A nave chegou em seu destino no sopé de uma montanha, várias outras naves de carga chegavam ou saiam de lá, ao mergulhar entre grandes arvores de folhas quase transparentes, uma base instalada alguns quilômetros antes da montanha mostrava sua face. Era grande, com uma base de pouso na ala leste, tão grande que suportava quase uma centena de naves ao mesmo tempo. Simon olhou aquelas pessoas e naves, trabalhando, andando de um lugar para outro como formigas em suas rotinas diárias, em busca de alimento e sustento.

__Solomon… Há quanto tempo estamos em Novaesperança?

Solomon ficou calado por um momento, a nave pousou suavemente, sem nem mesmo balançar. O rosto velho e cansando foi esfregado por mãos calejadas e fracas. Solomon respirou fundo encarando seu irmão que buscava resposta para uma pergunta tão simples, mas tão complicada.

__Estamos há cinco anos em terra firme. –soltou todo o ar dos pulmões, encarando o irmão- Estamos há cinco anos… Xinê morreu na descompressão gravitacional, depois do pouso, enquanto a Pioneira se transformava na capital. Durante a movimentação das placas e áreas da nave, Xinê… Bem, não vou entrar em detalhes. –seus olhos cheios d’agua se fecharam com força- Olha Simon, tem coisas que você… É melhor você não saber meu irmão. Vamos voltar a nossa vida normal e…

__Solomon, qual é? Eu sou seu irmão! Sei que estou fora há muito tempo e…

__Simon, você não se lembra de nada mesmo? Não lembra de ter acordado nesse meio tempo?

__Eu já disse que não droga! –socou a poltrona, sentiu a vibração e a dor nos ossos, olhou para seu braço por um tempo tentando entender- Mas o quê…

__Vá com calma, seu corpo ainda não está acostumado a gravidade do planeta, além do que, seus músculos ainda devem estar fracos por causa do crio-sono.

Simon olhou ao redor, a nave ainda fechada, as pessoas do lado de fora correndo de um lado para o outro, trabalhando. Algo estava errado para Simon, mas ele não conseguia ver bem o que era. Olhou para o irmão que, apreensivo, o olhava de volta, como se esperasse por alguma coisa, algum sinal.

__Abre o jogo Solomon, o que há de errado? Porque você está assim, agindo dessa maneira?

__Simon… Você se lembra de quando erámos crianças? –olhou o irmão que estava suando, um tanto pálido, nervoso o encarando-

__Sim, claro!

__Qual era o nome do nosso gato? Aquele branco, que te arranhava quando você puxava o rabo dele?

__Era sn… Sn… Sno… Sno… Sno alguma coisa.

__E o nome da irmã da Xinê?

__Sa… Su… Que se foda! O que isso tem haver?

Solomon respirou fundo e esfregou os olhos, tentando conter as lagrimas que insistiam em incomodar seus olhos. Ele abraçou o irmão com força, depois o soltou, olhando em seus olhos.

__Vamos voltar. Vamos voltar… Você vai voltar para o crio-sono, vai ficar…

__Eu não vou voltar… –Simon foi interrompido por um forte espasmo na barriga, seguido de um vomito esbranquiçado- Solomon…

Solomon saltou na poltrona e digitou os comandos no painel holográfico, a nave zumbiu alto e levantou voo com imensa velocidade, Simon perdeu o equilíbrio e caiu, zonzo e com a visão turva. Quando a nave estabilizou, Solomon saltou da poltrona e correu até o irmão, o levantando e prendendo ao banco de passageiro.

__Eu sabia! Você estava pálido demais, seus olhos… Estão com um brilho tão apagado…

__Solomon, o que está acontecendo?

__Você é forte, mas os sintomas te pegaram também, do mesmo jeito. Meu Deus! Vai ser um caos na Capital, todos vocês devem estar assim e…

__Solomon, que porra está acontecendo?

__Você não está bem, você não está nada bem! Nenhum de vocês está! Por causa da descompressão! Tenho certeza! O expert em crio-sono disse que era seguro liberar vocês, mas eu sabia que ele estava errado! Eu sabia! Agora você e mamãe e…

Escuridão, apagaram as luzes, silêncio.

__Acorde! Acorde! Pelo amor de Deus acorde!

__Solomon?

Vácuo, nada, vazio.

__Acorde Simon! Porra fique acordado maldito!

Então a escuridão voltou, o nada estava ali novamente. Simon sabia, e muito bem, que seu sono não acabaria assim tão fácil, era tudo muito bom para ser verdade. Seus olhos se fecharam enquanto Solomon esbofeteava seu rosto e o balançava, mas não adiantava, adiantava?

Simon sabia que não. Sentiu o frio tomando conta do seu corpo, seus ossos implorando para que aquilo não acontecesse, mas ele nada podia fazer. Sua mente se entristeceu e aceitou mais uma vez o fardo do sono, mas desta vez, segurou firme na ideia de que estavam em terra firme, e que nome mais bonito é esse, Novaesperança. Foi tudo tão rápido, tudo tão utópico. A Pioneira IV tinha completado seu objetivo, mesmo que, para Simon, tocar a terra com os pés descalços fosse um sonho inalcançável.