Agentes da Balança -O vermelho e o prata-

Eva não viu Adão aquele dia. Na faculdade ou depois dela, preferiu assim, até lhe agradou não o ter visto. Pela manhã seu corpo não estava tão dolorido ou cansado, pela tarde já se sentia sem nenhuma diferença. Isso a agradou e, no fim da tarde, a aventura com Adão já parecia ter sido a muito tempo, uma lembrança distante.

Um misto de tristeza e alivio confundia seus sentimentos enquanto dirigia tranquilamente pelas ruas noturnas da cidade. Eram sete horas e o horário para visita no hospital em que Olavo estava se estendia apenas até as oito e meia. Lembrava da visão e de Locke, do armeiro e da espada, da Baldur e Hodur. Ficava imaginando, fantasiando até, o que Olavo poderia descobrir do véu que tampava os mistérios de suas visões, mas ainda assim, algo a deixava triste.

Seria o descaso de Adão?

Ou seria o medo de que nada daquilo fosse verdade ou não tivesse sentido algum?

Ficou no carro alguns minutos antes de sair ao estacionar, a lua mantinha o brilho da noite anterior, as nuvens contribuíam para um céu limpo e estrelado. A recepcionista que lembrava um canário lhe entregou um crachá de visitante, que Eva prendeu no vestido preto que usava, ia até os joelhos, sem detalhes, de um tecido fosco mas de um negro sem falhas.

Olavo estava mais corado, sua aparência débil ainda permanecia inalterada. Selene também estava lá, sentada na poltrona, lendo sem muito interesse uma revista de fofocas. Eva a cumprimentou rapidamente e foi até a janela, abrindo as persianas e deixando que a luz do luar entrasse no quarto.

__Olá Olavo! Está melhor?

__Até que estou, ao menos a febre está mais fraca.

__Que bom… –olhou para Selene que lia a revista com leves oleiras no rosto- Olavo… O que é Lunin Solza?

__Eu não sei. –apertou um botão na cama e ela começou a se inclinar para frente- Eu sei que esse nome vive ressoando na minha cabeça. Amanhã eu já vou receber alta e vou poder sair, vou atrás do que significa.

__Aí –Selene se intrometeu- Isso não é nada, você estava viajando na febre.

__Não, significa alguma coisa, eu sei e eu vou descobrir o que é. –Olavo olhou para Eva, estava simples mas linda ainda assim- E você Eva, o que acha disso? Por que o interesse?

 __A história é longa… –disse um tanto desconfortável- Mas eu não sei o que pode significar… Eu acho que, não sei bem, mas se você souber onde procurar, deveria dar uma olhada. Existe tanta coisa que não podemos explicar nesse mundo…

Eva ficou lá durante todo o horário de visitas e Olavo agradeceu profundamente a presença daquela mulher ali. Estava entediado, cansado e frustrado pela doença que o debilitava, ainda mais por não lembrar de nada do dia passado. Sabia que tinha andado, e muito, quase vinte quilômetros em baixo de sol quente e descalço. Os pés enfaixados incomodavam, as pernas doíam o tempo todo, a coluna parecia ter sustentado o peso do mundo nas costas. Receberia alta no dia seguinte, mas seu pai já havia comprado as muletas que teria de usar durante quase um mês.

Isso o entristecia, mas a presença de Eva parecia fazer tudo aquilo desaparecer.

Por Eva, sabia que faria tudo de novo.

Já era madrugada quando Olavo levantou da maca e caminhou lentamente até a janela. Estava sozinho no quarto, abriu a janela e se encostou na parede, respirando o ar da noite e deixando o luar lhe tocar a face. Fechou os olhos e sorriu, sentia-se revigorado ao estar ali, com os pés machucados doendo no chão, mas ainda assim, sentia como se uma força o alimentasse. Podia até contemplar o que era Lunin Solza, ela brilhava, era curvada e lembrava as terras árabes.

Quando Selene voltou para o quarto, viu Olavo sorrindo, ainda de olhos fechados. Ao seu redor uma suave aura esbranquiçada, alva como o próprio luar cobria todo seu corpo. Selene o olhou da cabeça aos pés, aquela aura também estava onde a luz não o tocava. A garota o guiou de volta para a cama, mas a imagem da aura que viu em Olavo ainda permanecia em sua mente, não sabia se era um efeito do luar ou se realmente alguma coisa diferente estava acontecendo com o irmão.

Em seus sonhos, Olavo caminhava em um deserto, sob o luar. Usava uma túnica amarela, pesada e, amarrado na cintura, estava um cinto de couro grosso, enrolado diversas vezes ao redor do corpo, onde Lunin Solza era carregada.

Já era sexta-feira e Eva ainda não havia encontrado com Adão novamente. Ele não havia ligado, a procurado na faculdade ou mesmo em casa. Eva praticava sua arte tediosamente, pintava um quadro onde copiava o seu celular, abandonado sobre a cômoda, tons pasteis e sombras deixavam o aparelho ainda mais triste, como se esquecido, como se esperasse por alguém. Nos toques finais, Eva sabia que era a ligação de Adão que esperava. Controlou a raiva e a vontade de destruir aquele quadro, esperando que aquela sensação fosse embora. 

Mas não o fez, sabia que a sensação não a abandonaria…

No fim de tarde de sexta, Adão experimentava duas braçadeiras, ajustando o couro e as presilhas no antebraço. Passou a semana inteira treinando e aperfeiçoando aquelas duas peças, até que se deu por satisfeito quando elas finalmente lhe serviram, ficando justas em seus braços. Fernanda havia chegado de viagem na quinta-feira, trazendo com ela uma boa quantidade de dinheiro pela venda dos quadros de Damasceno, comemoraram, fizeram amor, tudo como manda o figurino, mas Adão voltou para forja deixando Fernanda na cama, sozinha, até concluir seu trabalho. Era o que queria, e conseguiu.

Movia os braços para cima e para baixo, sentia o peso das braçadeiras, mas não o incomodava, conseguia se movimentar sem problemas. Como uma criança que fez um trabalho bem feito, correu até a sala e mostrou para uma Fernanda seminua no sofá, que assistia a um filme cult dos anos 70. Ela tocou o aço, avaliou o trabalho e o parabenizou com um sorriso e um beijo sincero. Eram realmente bonita as braçadeiras, o aço cromado refletia uma Fernanda desfocada e embaçada, mas não se esperava mais daquele material e ela sorriu ao se ver daquela maneira, sem uma forma definida.

Passou pela sua cabeça cortar os cabelos e usar um corte curto e militar.

Passou pela sua cabeça aqueles sóis estranhos que Adão desenhava sem parar.

Desviou o pensamento voltando para o sofá e o filme que assistia.

Banteng encarava Olavo de forma duvidosa. Tudo bem, sabia dos lacaios e o que seu pai lhe havia ensinado, mas para ele, Olavo era franzino e doente demais para suportar o que estava por vir e, levando em conta a veracidade dos acontecimentos, seu oponente o esmagaria como uma uva entre os dedos. A caixa em que Lunin Solza repousava estava sobre o balcão, a loja já fechada, Olavo curioso não conseguia conter o nervosismo enquanto Banteng ponderava se realmente lhe entregaria aquele objeto.

__Posso pelo menos ver o que é?

__Não. –respondeu cruzando os fortes braços sobre o peito- Já disse, espere meu pai sair do armazém.

__Mas ele já está lá a horas!

__Você está aqui a menos de meia hora. Controle-se! Você nunca nem a viu? Nem em sonhos?

__Não. Sei que eu a carregava em um deserto, mas não a vi, não sabia o que era. Mas só posso imaginar que seja uma…

__Banteng! –disse o armeiro, o corpo encurvado saia sem esforços da pequena porta- Se ele disse o nome, ela pertence a ele! Por quê hesita?

__Olhe você mesmo para ele, pai. Não sei nem mesmo se o homem consegue levantar uma arma!

__Uma arma? –Olavo arregalou os olhos, depois voltou a encarar a caixa- É uma arma?

O armeiro pegou a caixa de madeira velha e a abriu, revelando uma cimitarra, uma espada de lamina curva, com uma empunhadura de couro vermelho. Sua lamina era lustrosa, refletia bem os olhos de Olavo, cansados e fundos, mas surpresos e admirados. Era uma espada, era uma arma e parecia bem afiada.

__Lunin Solza… –tocou a empunhadura, deslizou os dedos e depois a segurou com firmeza- É a minha espada!

__Sim, é. –Banteng observava bem aquele momento em que Olavo se perdia em admiração pela arma- E o que você vai fazer com ela?

__Isso não é da sua conta Banteng. –disse com rispidez o armeiro- Deixe que o homem siga seu destino. Não esqueça de devolver quando terminar.

Olavo pode sentir a areia nos seus pés, o vento gelado do deserto, o peso e a dormência no braço de incontáveis combates. A experiência do manejo daquela arma parecia ser apenas uma memória latente que agora estava totalmente desperta, como se sempre soubesse como brandi-la. Sabia quem era o seu inimigo e não importava o porquê.

Era por ela que lutaria, por Eva.

Adão ainda estava com as braçadeiras quando Fernanda saiu para mais um evento, ainda viu Olavo chegando a pé, carregando uma caixa de madeira velha debaixo do braço. Se cumprimentaram se seguiram seus caminhos.

Tocou a campainha um tanto nervoso e logo foi atendido por um Adão sorridente, de braços abertos que pediu que entrasse. Levou Olavo até a fornalha e vestiu as braçadeiras molhadas de suor para mostrar para o amigo. Ele por sua vez abriu a caixa e pegou a espada.

__Opa! –disse Adão surpreso- Onde arranjou essa arma?

__Ela é Lunin Solza. –disse refletindo a luz da lua em sua lamina- E você… Você é o mal que macula a noite.

__Anh… –Adão o olhou sem entender- Desculpe?

__Você é o inimigo da noite Adão!

__Ei! Se você está bravo comigo por que eu transei com a Eva… Cara, isso não é motivo para…

Adão esquivou do primeiro e do segundo golpe, Olavo brandia aquela espada como se já estivesse acostumado com ela, a precisão dos seus golpes surpreendeu seu adversário. Pego desprevenido, Adão não sabia como lidar com a situação, apenas pensava no que poderia estar acontecendo.

__Ei Olavo! Pare com isso! Que porra é essa?

Olavo atacou novamente, descendo a espada sobre Adão. Ele defendeu com a braçadeira, sentiu o impacto no braço, o peso do golpe. De onde aquele homem fraco e doente conseguia toda aquela força? Pensou quando defendeu mais um golpe, a lamina zunindo e vibrando pelo golpe no aço.

__Olavo, não sei que porra você está fazendo, mas eu vou ter que quebrar sua cara se você não parar com…

Olavo deu uma estocada com a espada, acertando de raspão na lateral do abdômen de Adão. O sangue escorreu sem pressa, a dor latejou em aviso. O homem pôs a mão e viu o sangue nos dedos, seu inimigo não sorria, mal esboçava alguma expressão. A lamina da espada estava linda, brilhante, sem uma gota de sangue.

__Foi só um arranhão… –disse para si mesmo, assustado- Mas que porra…

Um golpe o pegou de surpresa, Adão defendeu com os braços juntos sobre a cabeça e, depois do impacto, perdeu o equilíbrio, dando passos trôpegos para trás até que bateu as costas na fornalha quente. Por sorte não se queimou, mas encontrou um martelo no alcance da mão. O pegou e ameaçou dar um golpe no amigo, que não recuou, apenas parou, o olhando, como um caçador esperando o movimento da sua presa.

Adão já havia visto aquela lamina, podia ter certeza que sim.

__No início minha mestra reinava soberana, linda em sua paz primordial. Por que você decidiu pôr um fim a isso?

__Eu não sei do que você…

Desviou de um golpe que teria lhe custado o braço, a lamina bateu na forja e arrancou uma lasca de concreto. Adão tentou golpear mas o martelo era pesado, estranho, não conseguia conter a investida que fez, era muito desengonçado com aquilo. Olavo esquivou sem dificuldades e em um contra ataque, acertou um golpe em seu peito. Lunin Solza cortou fundo, o sangue verteu com vontade e empapou a camisa rapidamente.

Empalideceu, o suor escorria de sua testa pelo seu rosto, estava com medo. Olavo estava certo do que queria e deixou bem claro neste golpe. Via aquele que era seu amigo ali, os pés ainda enfaixados, o corpo franzino, o rosto sem expressão. Queria ver um sorriso, queria que ele se preocupasse e dissesse desculpas, que foi longe demais.

Mas não aconteceu.

Adão parou e manteve o martelo levantado, esperando o próximo ataque, mas parecia que Olavo havia adquirido uma experiência em combate fora do comum. Ele descansou a espada abaixando o braço, relaxando os músculos e a tensão, ao contrário de Adão, que forçava o braço a segurar o martelo e começava a se sentir tonto.

__Por que você não brilha? –disse Olavo o encarando- Vê? Estamos sob o véu de minha rainha, você não pode…

__É, eu não posso. –disse e abaixou o martelo- Puta que pariu, acho que você vai me matar mesmo… E tudo por causa de uma boceta.

__Ainda zomba? –sorriu-

__Rainha, mestra, que porra idiota… É só mais uma boceta que comi e pronto. Levei duas facadas por isso? –riu- Quer saber Olavo? Você sempre foi muito frouxo para conseguir alguma mulher. Você é o marmita, sabe que é. Esquenta para os outros comerem.

__Vou acabar com sua vida de uma vez. –aprontou a espada e a girou- Vou arrancar seu coração em nome de…

Adão investiu em uma corrida desesperada, Olavo apenas sorriu, preparado para lhe  dar o golpe de misericórdia assim que chegasse mais perto.

Mas ele não chegou.

Adão arremessou o martelo parando a poucos passos do alcance da espada e Olavo. Ele tentou desviar, mas estava muito próximo e ainda assim o acertou no ombro, esmigalhando os ossos da clavícula, do braço e algumas costelas. Ele caiu no chão e a espada foi atirada longe.

__Puta que pariu… –disse Adão ofegando e segurando o corte no peito que ainda sangrava- Acho que matei… –Olavo se levantou com apenas um braço, o rosto com uma expressão clara de dor- Ah, graças a Deus.

Olavo correu curvado, sem jeito até a espada e Adão de volta a forja, pegou outro martelo, ainda maior e mais pesado. Sentiu o peso, deu dois golpes no ar e o segurou com as duas mãos. Agora sim, pensou, esse vai servir.

Olavo balançou a espada com o outro braço, mas não conseguiu o resultado que esperava. O ombro quebrado inchava e o braço pendia mole, imóvel.

__Vai embora cara. –gritou Adão- Seu louco! Vai embora daqui!

Ele resmungou alguma coisa e correu até a caixa de madeira, pegando com dificuldade e saindo pela mesma porta que entrou. Adão correu até a porta e ainda pode ver ele dobrando a esquina, correndo de forma esquisita, quase sem se importar com a dor no ombro. Bateu a porta e a trancou, ainda sangrava, mas sabia que o corte não era assim tão profundo.

Ligou para Rodrigo, mas não foi atendido. Não queria ir para o hospital, nenhum médico ia cair em uma conversa fiada vendo os dois cortes. Não podia incriminar Olavo, acreditava que o amigo estava febril, doente, que a doença que a tanto ia lhe degenerando finalmente havia lhe atacado a sanidade.

Ligou novamente, sem resposta. Pensou em quem ligar, Fernanda iria carregá-lo direto para um hospital e que se fodesse Olavo, ele era mais importante e a vítima ali.

Riscou o nome de Fernanda.

Ligou então sem muita vontade, não era o número que queria discar, mas era o único que poderia contar naquele momento.

Agentes da Balança -Locke-

__Mas pai! –Locke gritou- Minha vida é aqui! O que você quer indo para um país tão longe? Nem mesmo neva lá!

__Claro que neva.

Seu pai era um homem grande, um tanto redondo. Tinha uma barba grossa, cheia e de um louro limão. Seus olhos eram escuros, castanhos, diferentes do de Locke, o cabelo ia até os ombros, presos em um rabo de cavalo arrumado. Seu terno estava desabotoado, a barriga saliente estava à vontade na camisa social branca. Era um homem grande, quase dois metros de altura.

Locke massageou as têmporas, não aceitava a ideia de abandonar a Eslovênia, de abandonar sua vida, seus amigos, seus amores… Até mesmo a política do país lhe interessava. Seu pai sentou em uma poltrona laranja e suspirou, não gostava de ver Locke daquela forma, sabia de sua capacidade, de seus talentos.

__Locke… Você sabia que esse dia chegaria.

__Não, você me disse que um dia, talvez, pode ser que iriamos nos mudar para o Brasil. É bem diferente de –disse imitando a voz do pai- “Locke, agora nós vamos para o Brasil, arrume suas malas”.

__Lembra das aulas de português? Lembra dos livros sobre a cultura daquele país e tudo mais? Locke, seremos felizes lá. –sorriu sincero e fraterno- Eu sei que terá que recomeçar sua vida naquele país, mas sabe que seremos muito mais ricos lá do que aqui.

__Não se trata do dinheiro. –Locke caminhou em passos rápidos pela casa, apanhando seu cachecol e suas botas- Se trata de… –Baldur veio a mente, junto com a arvore parasitada pelo visco- Se trata de quem eu sou.

“Se trata de quem eu sou”. Repetiu em sua mente. Ao abrir a porta, pegou a pá em um suspiro aborrecido e começou a tirar a neve do caminho para a rua. Seu pai sorriu e se levantou, pegando outra e indo ajudar Locke. Quando terminaram, ele sorriu e se apoiou na pá, ofegante.

__Você nunca mais vai precisar fazer isso.

Locke fincou a pá no chão, o rosto vermelho, os olhos da cor do mar estavam cheios d’agua. Sofria, sentia a dor de perder tudo pelo que lutou, tudo que criou e cultivou. Era uma eslovena, não uma brasileira. Se ajoelhou e apanhou um punhado de neve suja, a amou como era, perfeita em sua impureza. Olhou para o pai que retribuía o olhar de forma mais amável possível, mas Locke não suportava o fato de precisar ir embora.

__Tudo bem. –disse e levantou, devolvendo a neve para o chão- É amanhã?

__De madrugada. Viagem de urgência. –pegou a pá de Locke e voltou para dentro da casa-

__Filho da puta. –disse por fim quando o pai fechou a porta-

Locke tremia com as mãos no bolso, os braços juntos ao corpo. Tentava não mostrar o nervosismo enquanto o homem da loja tediosamente pegava o troco da caixa registradora antiquada. Ele olhou para Locke como se olha para um criminoso de rua, comprando uma faca para tentar seu primeiro roubo, mas não era proibido por lei, logo Locke poderia comprar o que quisesse naquele supermercado.

Tinha comprado uma faca pequena de caça e um pacote de bolacha. Quando o homem olhou para Locke tremendo com as mãos no bolso, simplesmente disse que era para o seu pai. O caixa deu de ombros, um sorriso com barba a fazer que agradou Locke. Depois de lhe devolver o troco, o homem no caixa se apoiou no balcão de madeira e chamou sua atenção.

__Eu não sei o que você vai fazer com essa faca, e não me importo. –disse sorrindo- Mas eu posso te perguntar uma coisa?

Locke suspirou sem paciência e ajeitou os óculos vermelhos no rosto, forçando um sorriso.

__Claro.

__Se eu te convidasse para sair… –limpou a garganta, olhando para os lados- Eu seria um gay ou um macho?

Os olhos caribenhos brilharam e Locke sorriu sacana, pôs as duas mãos na cintura e inclinou um pouco o corpo para frente. Usava uma jaqueta verde de lã pesada pelo frio, seu corpo escondido pela roupa que lhe protegia do inverno.

__Vai ter que descobrir quando tirar minha roupa, topa?

O homem riu um tanto constrangido com a resposta tão direta e atendeu outro cliente que já despejava as compras no balcão de madeira. Locke deu de ombros e disse um “você que está perdendo” enquanto caminhava sem pressa para fora do mercado. O caixa ainda olhou Locke saindo, quase em um rebolado. Ficou realmente curioso em saber se Locke era uma menina com cara de menino ou menino com cara de menina e sentiu receio de si mesmo, qualquer das opções estaria errado na concepção dele.

Estavam caminhando fora dos limites da pequena cidade, passando entre pinheiros acinzentados e coberto por uma fina camada de neve. Ela se acumulava gentilmente nos galhos, fazendo o papel das folhas que antes ficavam ali. Baldur ia na frente, meio sem jeito, caminhando um tanto apressado, sorridente. Se apoiava em um ou outro pinheiro enquanto, ao tropeços, desciam em direção a um riacho que passava na região.

__O que foi Locke?

__Quieto! –disse com as mãos no bolso, a testa franzida em linhas retas-

__Vamos para o riacho? –perguntou com o mesmo sorriso, Locke viu seus lábios circulados por aquela penugem que se esforçava para ser barba- Eu lembro quando fomos lá a primeira vez…

__Quieto! Já disse, quieto!

Baldur levantou as mãos em um “tudo bem” e continuou andando. Parou um momento ao ver um coelho se afundando na neve, saltando novamente e mergulhando. Imaginou uma coisa boba, “os coelhos são os peixes da neve”. Riu de si mesmo e voltou a caminhar, Locke olhou o coelho marrom sujo de neve, saltando para longe deles e pensou a mesma coisa, mas não riu.

Quando chegaram ao riacho, a água escorria fina, as margens levemente congeladas. Havia pedras grandes e redondas por toda a extensão que viam até entrar na floresta, onde se estreitava ainda mais e desbancava em uma série de rochas, onde fez o seu caminho ao passar dos séculos, as pedras esculpidas pela água. O riacho se estreitava ali a não mais que dois metros, escorrendo rápido e seguindo seu caminho. Baldur sorriu ao ver como a natureza era bela ali, as pedras no meio do riacho eram cobertas por um musgo verde e salpicadas de branco pela neve, saltou sem medo sobre uma delas e ficou olhando a água que passava entre aquela rocha, um sorriso sincero no rosto esculpia aquela cena.

Locke olhava para Baldur com um misto de raiva e pena.

__Eu vou embora Baldur.

__Mas já? Nós acabamos de chegar!

Locke segurou firme o cabo da faca por dentro da jaqueta.

__Eu vou embora para o Brasil.

Baldur ponderou por um momento, tentando se lembrar onde ouviu aquele nome.

__É um país, em outro continente. –respirou fundo, sentia a mão suada em volta do cabo- Eu não vou voltar mais Baldur, vou embora hoje de madrugada.

O rapaz saltou de volta e escorregou, caindo de quatro na margem do lago. Locke se agachou e o ajudou a se levantar. Seu rosto estava vermelho de vergonha, os olhos cheios d’agua pareciam ainda mais com grandes bolas de gude do que antes. Locke bateu a neve de seus braços e acariciou seu rosto, segurava as lagrimas que insistiam em se formar ao vê-lo assim.

__Mas Locke… Você é tão importante para mim quanto Hodur. –pensou por um momento e disse choroso- Hodur é meu irmão, você é diferente, você é um importante diferente…

__É, eu sei. –os lábios tremiam, uma lágrima escorreu no rosto firme de Locke- Eu sei, você também é um importante diferente para mim. –o rosto de Baldur estava frio, gelado, sentia na ponta dos dedos- Você… Você não faz ideia do que sente por mim, não é?

Baldur abaixou o rosto por um momento, não conseguia raciocinar direito sentindo o toque de Locke em seu rosto, sempre admirou aquela pessoa que estava ali, em sua frente, lhe tocando de forma tão carinhosa, tão compreensiva. Era a única pessoa que o entendia de verdade, que realmente gostava de conviver com ele, não apenas na escola, não apenas como “um garoto inteligente” na turma, mas uma pessoa, um homem.

__Não sei não Locke. –disse em um sorriso bobo- Mas… Você sempre vai ser a pessoa mais especial para mim.

Baldur se segurou um pouco e depois abraçou Locke com força. Aquela pessoa que lhe era tão especial retribuiu o abraço, segurando-o com firmeza. Era incrivelmente fofo, pensou, era como abraçar um grande urso de pelúcia. Locke afagou os cabelos esquisitos de Baldur por um tempo depois os segurou com força e os puxou, deu-lhe um beijo estralado nos lábios e o encarou por alguns segundos, onde Baldur retribuía o olhar com um sorriso acanhado e corado.

__Isso foi…

__É. –responde Locke- É, é, é… Tá! Vai embora! Xô! Corre! Foge! Some!

Baldur sorriu e voltou a caminhar, fazendo o caminho de volta. Quando subiu um pouco o morro, se apoiou em um pinheiro para não cair e gritou para Locke.

__Ei! Você sempre vai ser minha pessoa mais importante!

__Ainda está aqui? –gritou de volta- Vai embora!

__Ainda vamos nos falar pela internet, não é? –disse esperançoso- Boa viagem Locke!

__Vai embora caramba! –se agachou e fez uma bola de neve, jogando em Baldur- Sai! Me deixa só!

Baldur fez o mesmo movimento de “tudo bem” e voltou a caminhar. Locke sentou na neve segurando o choro até que ele se afastasse o suficiente, depois deixou-se chorar a vontade.

Eslovênia… Locke olhou aquele riacho e se levantou depois de quase meia hora, pegou a faca e jogou-a no riacho, com raiva. Quando enfiou a mão no outro bolso, lembrou da bolacha que havia comprado para Baldur e que havia esquecido de lhe entregar, era a sua preferida, recheada de polpa de morango.

__Filho da puta… –encarou o brilho da faca na água cristalina- Filho da puta… Eu ainda mato aquele filho da puta. –olhava a bolacha e sentia o carinho que tinha por Baldur- Filho da… –jogou também o pacote de bolacha no riacho, a raiva fluía sem rédeas- Filho da puta! –gritou- Eu ainda te mato seu maldito! Eu vou voltar só para te matar Baldur seu filho da puta!

Agentes da Balança -Lunin-

Rodrigo esmurrava com força o portão da casa de Adão. Os vizinhos mostravam a cabeça pela janela e observavam o homem esmurrar o portão bege e sem detalhes. O barulho era alto, incomodo e constante. Ele gritava e bravejava, tocava o interfone e nada. Se afastou por um momento e acendeu um cigarro, encarou os vizinhos curiosos e os mandou cuidarem da própria vida. Não chegou a das duas tragadas e voltou a esmurrar e chutar o portão.

Quase cinco minutos depois, Adão abriu a porta ao lado do portão e o olhou, os olhos ainda se acostumando a claridade. Rodrigo parecia um dragão, a fumaça saia consistente da boca, a testa tão franzida que os olhos ficavam miúdos naquele rosto. Adão sorriu sem jeito, apenas de bermuda, controlava a respiração. Foi pego em um dos momentos fogosos com Eva.

__Mas que porra Adão! Por que não atende a porra do seu telefone? Tem essa merda para quê? Enfiar na bunda? Mas que porra!

__Ei, ei… –o convidou a entrar, mas ele recusou- O que houve?

__Olavo está sumido. Selene ligou para todo mundo o procurando. Teve uma recaída ontem, piorou, o pai o levou ao hospital. –deu uma tragada longa e o encarou- Ele receberia alta pela manhã, estavam acostumados com isso, não é a primeira vez, mas Olavo sumiu. Deve ter saído enquanto o pai dormia. Selene está desesperada atrás do irmão, ninguém sabe o que aconteceu com ele. E você aí trancado dentro de casa.

__Eu não tenho bola de cristal para adivinhar as merdas que vão acontecer também né Rodrigo?

__Mas você tem um celular porra! –deu uma tragada longa e atirou o cigarro na rua, sem terminar- Olha, vou atrás da Eva agora, vai ver ele foi na casa dela ou sei lá.

__Não, não… –disse e se aproximou do Rodrigo- Depois que Eva me trouxe da sua casa ela acabou ficando por aqui.

Rodrigo cruzou os braços e o olhou com os olhos cerrados. Sorriria se não estivesse preocupado com Olavo. Alisou o queixo e voltou para o carro, parando na porta.

__Sabe de algum lugar que ele possa estar?

__Não sei Rodrigo. –respirou fundo e coçou a barba- Mas vou só por uma camisa e vou ajudar a procurar. Só não sei aonde começo… Pelo que sei ele pode estar em qualquer lugar.

__Também não sei aonde procurar Adão. –confessou um tanto frustrado- Não faço a menor ideia. Vou a bares, lojas, não sei… Selene e o pai já procuraram na faculdade e nada. Tentamos ligar para a polícia mas os filhos da puta falaram que apenas depois de vinte e quatro horas que é considerado desaparecido.

__Certo, vou ver o que eu faço também. –Adão coçou a cabeça, perdido- Nenhuma dica, nenhuma informação, nenhum nada?

__Selene disse que tinha ligado para ele, mas depois que atendeu, ouviu como se o celular tivesse caído no chão e ficou lá, depois só ouvia o barulho dos carros passando.

__Não é muita informação mesmo. Certo, nos vemos mais tarde então.

Eva estava sentada no sofá vestida apenas com um roupão de Adão. Acompanhou com os olhos o homem entrar, parecia preocupado, nervoso até. Ela não disse nada, apenas esperou que se explicasse.

__Precisamos ir Eva.

__Fernanda está vindo para cá? –disse com um sorriso maldoso-

__Não, é Olavo. Ele está perdido desde ontem à noite, ele fugiu do hospital de madrugada.

Eva saltou do sofá e foi a passos largos para o quarto, pegar suas roupas e se vestir, Adão a acompanhou. Quando ligou o celular, viu algumas chamadas perdida, como imaginou, do seu trabalho, de Fernanda, Selene e Rodrigo. Vestiu-se rapidamente, nervoso, sem conseguir imaginar onde procurar.

__Tem ideia de onde ele foi? –disse Eva pondo os brincos-

__Não, nenhuma. –Adão calçou o tênis e saiu do quarto, falando alto- Vamos dar uma volta por aí. –o celular vibrou no bolso, era uma mensagem de Rodrigo- Vou procurar nos hospitais, Rodrigo me deu a ideia, ele está fazendo o mesmo. –sorriu ao ver os nomes- Ele me passou até um roteiro, olha só… –achou graça em como a mensagem era bem organizada- Foi uma boa ideia.

__Realmente, vamos? –disse incrivelmente arrumada em tão pouco tempo- O que foi?

__Nada… Você é rápida.

Já era quase seis horas da tarde, Adão visitava o ultimo hospital sem sucesso. A enfermeira lhe lembrava uma toupeira, enfiada em um cubículo, via apenas do nariz para cima, com um olhar de tédio e frustração. Depois de dizer que ninguém que bate com a descrição foi internado ali, socou o balcão com raiva, sentindo a própria frustação. Eva o acalmou, lhe puxando pelo braço e dizendo para que continuassem a procurar.

Recebeu uma ligação de Rodrigo, disse que estava procurando nas delegacias e que retornaria assim que terminasse. Não havia muitas, pediu que Adão tomasse um tempo para si, para que as ideias voltassem para o lugar. Quando chegaram ao estacionamento, Adão olhou para a lua, grande e clara no céu. Faltava poucos dias para que fosse lua cheia, voltou os olhos para Eva que também olhava para o céu, em busca de respostas. Sua pele branca parecia brilhar sobre os raios lunares, isso mais o incomodou que o agradou.

O celular tocou novamente e Adão o atendeu prontamente, Ricardo o avisou que Olavo havia sido encontrado em um parque pelos vigias e levado a um hospital, cerca de trinta minutos atrás. Quando recobrou a consciência, pediu que o hospital ligasse para seu pai. Adão avisou a Eva que sorriu aliviada, o chamando para que lhe fizessem uma vista. Ricardo concordou com a ideia e decidiram se encontrar lá.

Voltaram ao hospital onde estava inicialmente internado, grande, moderno, com divisórias de vidro trabalhadas e com a pintura informativa em azul e verde claro. A recepcionista mais parecia um canário do que uma toupeira, o que imediatamente agradou Adão, que foi se informar com um sorriso sincero e cansado no rosto. Rodrigo vinha em um corredor, esquivando o corpo grande de macas ocasionais.

__Adão! –chamou com a mão- Venha.

A recepcionista fez um sinal positivo com o polegar e sorriu, ele agradeceu chamando Eva e indo um tanto apressado. Rodrigo cumprimentou Eva com um olhar que dizia “eu já te avisei, mas você que sabe, eu já tô sabendo de tudo”, ela sorriu um tanto corada, mas estava firme em suas escolhas, já se considerava adulta o suficiente para saber onde pisava.

Rodrigo levou-os ao quarto onde Olavo estava, era grande e espaçoso, mas só podiam entrar três pessoas por vez. Adão ficou do lado de fora e acenou para Olavo, que retribuiu o aceno em um sorriso fraco. Eva entrou e foi até o rapaz na maca, segurando sua mão. Ele recebia soro e respirava com ajuda de um pequeno tubo conectado ao seu nariz, estava desidratado, sua mão estava fria, fraca, mas segurou a de Eva com firmeza.

No quarto Selene estava em pé ao lado de Eva e seu pai, um homem que parecia um Olavo com 50 anos, gordo e saudável, com um cavanhaque loiro, estava sentado em uma poltrona, cochilando.

__Pegou mesmo então, não resistiu a novinha. –disse Rodrigo com um sorriso sacana-

__Não é hora cara. –respondeu Adão, os braços cruzados sobre o moletom branco-

__Olavo me disse que não se lembra de nada. –alisou o cavanhaque e encarou Adão- Nada. A última coisa que se lembra foi cochilar no sofá da casa com Selene ao seu lado, mudando canal da TV. Pelo desgaste que ele está, parece que correu uma maratona, tem queimaduras de sol, está muito desidratado… –respirou fundo e também cruzou os braços- Os pés estão feridos e queimados, parece que estava descalço todo esse tempo.

__O que foi que aconteceu, alguém tem alguma ideia?

__Não. Palpitaram o seguinte, que é a doença alcançando o cérebro, degenerativa sabe? Vamos lá fora, quero fumar um cigarro.

Olavo conversou um pouco com Eva, tentou explicar o que aconteceu e como chegou ali, Eva preferiu que conversassem depois, para que pudesse descansar, Selene concordou.

__Tudo bem. –disse com a voz fraca- Só abra aquela cortina, por favor.

Selene puxou a corda de bolinhas de plástico e a cortina se abriu, deixando a luz do luar entrar no quarto. O rosto de Olavo ficou mais claro com a luz, ele sorriu ao vê-la tão grande no céu e fechou os olhos. Eva afagou seus cabelos e lhe beijou o rosto, quando foi beijado, Olavo disse sem pensar.

__Lunin Solza. –piscou algumas vezes e olhou para Eva-

__O que foi que disse?

__Não sei. –Olavo sorriu- Eu disse alguma coisa?

__Luni Souza. –disse Selene com a testa franzida- É um nome? De alguém?

__Não foi Souza. –Eva fez mais um cafuné e se afastou- Descanse Olavo, amanhã à noite venho te ver, OK?

__Claro! –sorriu feliz com a notícia- Boa noite Lunin.

__Boa noite.

Eva saiu e Selene a acompanhou, fechando a porta do quarto. Ela caminhava em passos apressados, um tanto chateada pela situação em que Olavo se encontrava.

Lunin.

Eva sabia que já ouviu esse nome antes, só não lembrava onde. Adão e Rodrigo estavam próximos ao esportivo de Rodrigo, ele estava sentado no capô, fumando um cigarro, Adão ao seu lado, os braços cruzados e a testa franzida. Estava nervoso, incomodado. As duas garotas chegaram e atualizaram os dois sobre Olavo.

__Bem, eu preciso ir. –disse Adão-

__Eu também, preciso trocar essa roupa. –sorriu Eva, Selene a estranhou-

__Vamos, eu vou retribuir a carona. –Adão a chamou-

__Claro…-olhou para o hospital e lembrou de Olavo na cama, Lunin…- Claro, vamos.

Se despediram rapidamente, Rodrigo com um cigarro na boca olhou o carro sair do estacionamento e se distanciar. A fumaça lhe dava aquela aparência draconiana, um tanto ameaçadora. Selene estava acostumada com aquela cara e sorriu, pedindo um cigarro para o homem.

__Eu posso ser jovem, mas não sou burra. –Selene disse ao acender o cigarro- Puta que pariu esse Adão. Não sei como a namorada dele consegue ficar com a cabeça em pé.

__Ela dá seus pulos também. –completou- Ninguém é santo. Estou mais interessado em saber o porquê disso tudo.

__Como assim? Provavelmente beberam e Adão se aproveitou.

__Adão? –disse rindo, a fumaça saia do canto da boca como uma bafora se preparando para se cuspida- Adão se aproveitou? Você não é burra, mas também não precisa ser ingênua.

__Ele disse uma coisa, Lunin Solza. –Eva estava com as chaves de casa na mão, encostada na porta de ferro ainda fechada- Me lembra lua…

Adão estava encostado no capô, os braços cruzados, a testa ainda franzida. Agora que teve tempo para absorver as visões e o que estava acontecendo, sentia-se agoniado e impotente em não poder fazer nada.

__Ele estava delirando, conheço Olavo a muito tempo. Nunca tive nenhuma visão ou coisa do tipo com ele. –passou a mão nos cabelos e foi até Eva- Olha, vamos dormir, amanhã podemos nos encontrar na faculdade, se tiver alguma novidade, alguma ideia, podemos compartilhar.

__Sei. –disse desanimada- Vai voltar para sua casa agora, sua fornalha e essas coisas. Vai fingir que nada aconteceu?

Adão odiava essa pergunta.

__Não posso fingir que nada aconteceu, mas eu tenho minha vida, tenho Fernanda e…

Eva sorriu, como se ele tivesse caído em sua pegadinha.

__Não falo de nós, falo do que compartilhamos, nossas visões, aquela… Espada. –suspirou e olhou a lua com seu brilho complacente- Lunin Solza, eu tenho certeza Adão que isso tem algo a ver conosco. Eu vou pesquisar…

__Faça isso. –disse aliviado e voltou para o carro- Amanhã então?

__Até amanhã.

Eva se virou e mexeu um pouco nas chaves, esperou que Adão a chamasse, a convidasse para mais uma noite de conversa e aventuras, mas isso não aconteceu. Ele fechou a porta do carro, disse um rápido adeus e uma pequena buzinada. Ela olhou o carro partir e suspirou, sentia-se estranha ainda entre as pernas, sentia o corpo relaxado e cansado, tinha certeza que dormiria com a lembrança do corpo de Adão por cima do seu.

Se odiou por isso.

Agentes da Balança -O dia de Eva-

Eva acordou ouvindo a porta do quarto se fechar, mas continuou embaixo do edredom, estava confortável demais para se mexer no frio que aquele ar condicionado conseguia fazer. Depois sentiu um cheiro gostoso de ovo frito e suco de laranja. Tirou a cabeça para fora da coberta e viu Adão com uma pequena mesinha, apenas de bermuda, carregando um café da manhã que consistia em um sanduíche e um copo de suco de laranja. Eva sorriu corada e sentou, ajeitando os cabelos da melhor forma possível. O homem sorriu de volta e pousou a mesinha sobre as pernas de Eva.

__Aqui. –disse e lhe beijou a testa- O sanduíche tem um ovo frito, queijo prato, peito de peru… Tem um sache de açúcar, não sei se gosta com ou sem o seu suco.

Ela sorriu e pegou o sanduiche com as duas mãos, dando uma gostosa mordida e sorrindo como uma criança. Adão ligou a pequena televisão sintonizada em um canal musical e sentou ao lado da mulher, os olhos fixos na TV.

__Você… –tomou um gole de suco e continuou- Você faz isso com todas as mulheres que dormem com você?

__Quase todas. Apenas das que eu gostei. –sorriu e a olhou, ela sorria sincera, mastigando mais um pedaço do sanduiche- Na maioria das vezes em que isso aconteceu na minha casa, e que eu tive tempo, eu fiz sim. Não vejo por que não.

__Teria feito para a peituda daquela mulher na piscina?

__Não a teria trazido para casa. –suspirou e deitou, a cabeça alta pelo travesseiro- Já são quase dez horas.

__A faculdade! –Eva quase engasgou-

__Esquece. –sorriu carinhosamente, como um pai que deixa a filha fazer algo errado- Bebemos muito ontem, sem chance de assistir uma aula direito hoje.

Eva terminou o café da manhã e deitou ao lado de Adão, o abraçando. Alguns beijinhos, algumas caricias e acabaram se amando uma terceira vez.

Adão fazia o almoço, Eva o assistia com um sorriso no rosto. Se sentia um tanto sonolenta, porém muito, muito satisfeita e realizada. O cheiro da comida estava ótimo, Adão se movia com agilidade pela pequena cozinha, pegava um ingrediente aqui e ali, não usava processadores, descascava e picava tudo com uma faca fina e bem amolada.

__Você se importa se eu tomar uma taça de vinho?

Adão cravou a faca na tábua e, dois passos depois, apanhou uma garrafa de vinho fechada, olhou o rótulo, a devolveu e pegou outra, a abrindo e servindo para a mulher, sem deixar uma só gota pingar do bico, depois serviu uma taça para si. Eva sorriu surpresa e agradecida, Adão parecia um ótimo homem para se ter, mas ela sabia, com absoluta certeza, que aquele homem tão bom era um homem de ninguém.

Desencana Eva. Ele é assim mesmo. Você pode até fisgar esse homem, por um tempo.”

Eva tomou seu vinho um tanto sem se importar para esse fato, um tanto triste. Ele estava ali, jogando cebola e alho na frigideira, assobiando baixinho, vez ou outra sorria para Eva, falava alguma coisa, dava um pedacinho de carne ou um pedacinho da berinjela à milanesa em sua boca, seguido de um beijinho ou um cafuné. Se sentia mimada, era bom, tinha paz nas mãos fortes daquele homem.

Não se entregava demais, segurava o coração, não se permitiria se apaixonar por aquele homem. Ela o observava, as mãos ágeis preparando um almoço para dois, sem pressa e com muito capricho. Pensava se cozinhava assim o tempo todo, ou se era apenas uma qualidade dele, ser caprichoso em tudo.

O celular de Eva tocou, ela o olhou sem animo imaginando quem poderia ser para estragar aquela manhã tão gostosa que estava tendo. Viu no visor o nome de Selene e pôs no silencioso, suspirando aliviada por não ser nada importante. Adão não perguntou quem era, continuou fazendo o almoço e bebericando o vinho. O celular tocou novamente e ela o desligou.

__Pronto, ninguém vai me incomodar hoje. –disse sorrindo-

__Aqui. –Adão pegou a garrafa e completou a taça da mulher- Vou desligar meu celular também, quer passar o dia aqui?

Eva sorriu surpresa e contente, mas não expressou tanto contentamento, pelo contrário, se pôs em uma posição superior, como se ele que precisasse de sua companhia, não ela a dele. Ela fez que sim com a cabeça, o sorriso fino ainda na boca da taça. Adão era péssimo jogador de poker, mas de mulher ele entendia muito bem, sabia que ela estava se sentindo nas nuvens depois desse convite.

Adão enxugou as mãos e pegou seu celular, no momento que o ia desligar, seu celular tocou, era Selene. Ele ignorou e também desligou, deixando sobre a mesa. Imaginou quantas ligações perdidas teria no final do dia quando o religasse, no mínimo umas cinco do seu trabalho, umas duas de Olavo ou Rodrigo e uma cinco ou dez de Fernanda. Isso se Fernanda o ligasse hoje. Sorriu se sentindo livre por esse pequeno ato.

__Sabe o que vou fazer? Vou fechar a casa toda, vou ligar o ar condicionado central, vamos assistir uns filmes no pay-per-view… –sorriu e comeu um pedaço da berinjela, tomando um gole de vinho em seguida- Vamos ter um dia só nosso, vamos nos conhecer e conversar sobre aquelas… Essas coisas estranhas nossas, unh? Que tal?

__É.. Dá pro gasto. –disse brincando- É uma ótima ideia Adão. –se levantou e lhe beijou os lábios, depois deu uns tapinhas em seu peito- Continue com seu almoço, eu fecho a casa para você, onde liga o ar?

__Ali. –apontou com a faca na mão- Ao lado da televisão, na sala.

Ela fez um sinal de positivo e piscou para ele, indo em passos tranquilos com sua taça na mão. Adão ficou um momento com seus pensamentos, só tinha feito o que faria hoje com duas mulheres. A primeira foi sua namorada por seis meses, seu nome era Magda, uma mulher alguns anos mais velha, de curvas lindas e perfeitas. A segunda, foi Fernanda… Balançou a cabeça sorrindo, tirando as imagens da mente. Hoje era o dia de Eva, e nenhuma outra mulher poderia estar em seus pensamentos.

Olavo cambaleava, se apoiava na parede e em postes. Caminhava descalço em tropeços pelas ruas da cidade, estava quente, seus cabelos loiros grudados no rosto pelo suor, sentia-se péssimo, tonto, mal sabia para onde ia. Os pés iam sozinhos, ardendo, queimando, ele apenas tentava se controlar, não cair. Algumas pessoas passavam, umas o ignoravam, outras tentavam lhe ajudar. Ele recusava, as empurrava, grunhia palavras que ninguém entendia e acabavam deixando ele seguir seu caminho. Perdido, olhou para o sol que castigava aquela cidade, seu calor estava insuportável. De tão quente, começou a sentir calafrios, estava com febre, o corpo tão fraco que lhe doía cada passo.

Bateu com força a porta de uma loja, a abriu em um estrondo onde a sineta balançou com violência. Se apoiou em um estande que mostrava iscas de pesca de várias cores, em plumas. Aquelas cores se mesclavam, fundiam, rodopiavam. Olavo levou a mão na boca quando sentiu o vomito lhe assaltando a garganta, mas conseguiu se conter, o suor pingava no estande em gotas rápidas. Um homem negro e alto notou o que acontecia e se aproximou, Olavo levantou os olhos e o encarou, não conseguia ver direito, queria dizer alguma coisa, mas nada saia.

O homem se aproximou mais, ele pode ver que era jovem, uns vinte anos, cabelo crespo e cheio, acompanhado de uma barba bem cuidada e fechada. Usava um par de brincos em argola, pequenos e prateados. Foi tocar o ombro de Olavo, dizer alguma coisa, mas ele bateu em sua mão e caminhou para o balcão. Limpou o suor da testa e olhou ao redor, tinha várias varas de pescar a mostra em um estande improvisado de um cabideiro. Suas cores eram vivas, os molinetes brilhavam mais que o normal.

Olavo viu um homem mais baixo, mais velho, um tanto curvado. Era negro como o rapaz, mas seus cabelos eram brancos e suas mãos enrugadas, de unhas rosadas. Ele se aproximou do rapaz doente e chamou o outro homem, para que se aproximasse.

__Qual seu nome meu filho?

__O… O… –tentava falar, mas arfava, encontrava dificuldade em formar as palavras- O… Ola… Ola…

__Banteng, pegue uma cadeira para esse rapaz. –disse falando para o outro rapaz, que rapidamente pegou uma banqueta, onde Olavo sentou- E traga um copo d’agua também.

__Olavo… –disse por fim, tão zonzo que não se lembrava mais onde estava- Olavo.

__Olavo, sim, tudo bem. –o velho pegou um copo d’agua que Banteng trouxe e lhe entregou- Me diga Olavo, o que aconteceu com você?

__Lu… –tossiu ao beber a água, olhou para os lados, procurando alguma coisa- Lu…

__Lutou? –indagou Banteng-

__Não. –respondeu o velho em tom sério, encarando Olavo-

__Luni… Luni so… –Olavo tentava, as palavras se formavam de forma lenta nos pensamentos, escorriam como tinta recém pintada- Luni so…

__Lunisô? –Banteng foi ao lado de fora da loja, olhou a rua sem movimento e voltou- Lunisô? Pai, o que significa isso?

__Não é Lunisô Banteng. –o velho se agachou em frente a Olavo e o olhou nos olhos- É um nome, não é garoto? Se acertar o nome dela, ela é sua.

__Ele é um… –Banteng olhou surpreso-

__Não meu filho. –respondeu antes que terminasse, a cabeça baixa- Ele é apenas um lacaio.

__Lac… Laca…?

__Não Olavo, se concentre no nome. –disse o velho, estalando os dedos na frente de seus olhos- Vamos, concentre-se!

Olavo fechou os olhos com força, as mãos pressionando as têmporas. Sentia uma dor excruciante entre os olhos, no centro da testa. Segurou a cabeça com duas mãos, sentia o suor frio, os cabelos molhados. Banteng olhava sério, mas preocupado com o rapaz que parecia sofrer tanta dor.

__Pai. Sei que você está sempre certo, mas não seria melhor chamarmos uma ambulância?

__Não Banteng, esse é o destino de Olavo. Se jogássemos dez vezes os búzios, dez vezes nos diriam a mesma coisa.

__Lunin! –disse em um rápido momento de clareza- Lunin Solza!

__Lunin Solza. –confirmou o homem, antes de Olavo desmaiar-

Quando acordou, estava em outro lugar, sentado em um banco de madeira, sentia o corpo molhado de suor, a pele ardendo de queimaduras pelo sol. Ele estava em seu ápice, deveria ser quase três horas da tarde. Mais são e lucido, levantou e começou a caminhar, procurando a saída daquele lugar. Era verde, para todos os lados que olhava, verde, bonito, exuberante, uma amostra de como a natureza era bela em seus tons mais simples. Mas Olavo não percebeu nenhuma daquela beleza que o rodeava, seu estomago estava fraco, sentia fome, sentia dores e ardor por todo o corpo, a febre ainda não tinha o abandonado, pelo contrário, parecia pior. A única coisa que amenizou foi a intensa dor de cabeça.

Não conseguiu sair do parque, contudo. Andando por uma trilha, a fraqueza lhe venceu. Sentou para descansar, recuperar as forças. Então ficou sonolento, e cada vez mais, seus sentidos iam lhe abandonando, até que apenas uma completa escuridão lhe fizesse companhia.

Agentes da Balança -Visões-

Primeiro foi a visão em um pequeno espelho em dedos finos e delicados, seus olhos eram como as aguas do caribe, azuis, verdes, difícil dizer, ficava naquele tom que lembrava as praias paradisíacas das propagandas de turismo. Seus olhos eram emoldurados por um óculos de armação fina, vermelha e retangular. Seu rosto era fino, branco, avermelhado pelo frio, seus cabelos eram curtos, loiros e lisos. Ficava difícil dizer se era uma mulher com rosto masculino ou um homem de rosto afeminado, sua androgenia era muito marcante, mas conseguia ser bela, ou belo, ainda assim.

Os dedos finos deixaram o espelho de lado após alguns toques no cabelo e apanharam um lápis amarelo, a borracha vermelha do topo gasta e redonda. Estava em uma sala de aula, bateu tediosamente o lápis contra um caderno rabiscado, cheios de desenhos de roupas, vários mantos e capas, sobretudos e capuzes. Olhou pela janela, nevava, os rostos dos alunos se confundiam, não havia foco, como bonecos, manequins em uma loja de roupa. Ele ainda olhava, ou ela, a neve cair sem vontade, plainando no ar até finalmente cair.

Apoiou, entediado(a), o queixo sobre a mão e continuou encarando a janela, prestando atenção a uma árvore sem folhas, cinza, que era parasitada por um grande tufo de visco. Sorriu, mordeu a ponta do lápis e o manteve na boca, balançando-o com a ponta da língua. Ouvia-se um professor dizendo algo, incompreensível, parecia nada, coisa alguma, um som distante de uma conversa fiada. O tufo era de um verde exuberante, vivo e saudável, entrava em contraste com um céu azul que de tão puro parecia o céu das histórias sobre o paraíso.

Mas para quem via com tamanha atenção aquele visco, para ela, ou ele, aquele tufo era uma coisa tão triste, uma planta que precisa de outra para sobreviver, grudada, presa, se alimentando e crescendo, quase como um câncer. Um câncer vegetal, poderia ser.

__Locke! –disse em voz alta aquela vozinha tão monótona-

Os olhos da cor das aguas caribenhas encarou uma forma embaçada, que se focava lentamente em um rosto velho, marcado pelo tempo, de cabelos e barbas pretas. O homem voltou a falar sobre alguma coisa no quadro, algo sem importância e logos os olhos oxalés* se voltaram para o visco e seu brilho verde daquela manha fria.

Locke tirou o lápis da boca e escreveu seu nome, diversas vezes, naquela folha em que desenhava. Escrevia por cima das roupas, das capas, dos mantos… Locke, Locke, Locke, tantas vezes que cobriu toda a página. Um garoto ao seu lado via tudo aquilo curioso, com um sorriso bobo mas simpático. Locke sorriu de volta e, de todos os rostos sem detalhes, aquele era o que mais chamava a atenção. Era um rapaz de rosto redondo, cabelo de um castanho tão claro que era confundido com um ruivo. Seus olhos brilhavam, pareciam duas bolas de gude escuras. Uma barba rala que mais parecia uma penugem lhe cobria os lábios e o queixo em um cavanhaque descuidado. Não tinha mais que vinte anos.

__Ei Locke… –o garoto disse e se apoiou sobre a cadeira, para ficar mais próximo- Você está bem? Parece tão… Fora de orbita ultimamente.

__Não ligue Baldur. –disse Locke com uma voz muito fina para ser masculina, muito grossa para ser feminina- Essa aula parece não acabar nunca. –o lápis voltou para a boca, os olhos para o professor- Com licença! Preciso ir ao toalete. –se levantou e ajeitou o cachecol ao redor do pescoço-

O professor fez um sinal para Locke, que aproveitou a deixa e saiu da sala, parou do lado de fora, Baldur acompanhava seus passos com os olhos. Locke piscou para ele e tirou um maço de cigarros do bolso, saindo dali e caminhando, lenta e tediosamente, sobre a neve que lhe cobria até o tornozelo. Com passos vagarosos, deu a volta em todo pavilhão de salas e foi até a árvore sem folhas, onde o visco repousava em um dos seus galhos mais altos. Deu uma tragada longa, os olhos grudados naquelas folhas exuberantes acima da sua cabeça.

__Um dia… –olhou para a janela de sua sala e pode ver Baldur, com o mesmo sorriso, assistindo a aula como se fosse uma das coisas mais interessantes do mundo- Um dia… –tragou e cerrou os olhos- Um dia ainda mato aquele cara. –sorriu e jogou a guimba na neve, acendendo outro em seguida- Filho da puta…

Baldur levantou a mão, disse alguma coisa e foi seguido de aplausos da turma e do professor, pode ouvi-los de longe, o garoto sorria acanhado, se levantou, fez uma reverencia em agradecimento e voltou a sentar. Um sorriso cínico e sombrio brotou dos lábios de Locke, olhando aquela cena.

__Um dia eu ainda te mato. –apontou para Baldur, os dedos como um revolver- Imagino se vai continuar sorrindo, depois de morto.

A visão congelou como um filme pausado, escureceu e derreteu. No escuro ouviu-se um barulho de isqueiro, tic-tic, e um lampião ascendeu, iluminou um corredor empoeirado, de madeira, tão pequeno e cheio de objetos que transmitia uma sensação claustrofóbica. Uma mão negra, enrugada e de unhas rosadas segurou o lampião e levantou na altura de um rosto velho, negro, de olhos avermelhados e um cabelo crespo, branco, em um corte arredondado como um pequeno “black power”. O rosto sorriu quando a luz o tocou e olhou ao redor, procurando, os dedos passando sobre empunhaduras empoeiradas e bainhas, até mesmo por uma katana em um suporte de ébano. Uma mão forte lhe segurou o ombro, o homem deu dois tapinhas naquela mão e disse em uma voz rouca, poderosa e de sotaque carregado.

__Presa aqui e você não irá encontrá-la. Há muitas como ela, mas como ela, não há nenhuma. –sorriu e continuou- Essa espada que procura, por quê agora?

__Por que? É a nossa vez. –disse uma voz masculina, grave, por trás do homem- Ela está aqui, você tem certeza?

__Claro que tenho, eu sou o armeiro a mais de cinquenta anos. Herdei do meu pai, meu pai do meu avô… –tossiu, o lampião balançou e a luz projetou sombras que pareciam pequenas pessoas dançando nas caixas e paredes- Você sabe de toda a história, por que então está com tanta pressa. Unh… –coçou o rosto e levantou o dedo para cima, sorridente- Ah já sei! Não gosta daqui não é? É… Meu pai, que o Barão Samedi o guie, sempre me falava sobre vocês, o povo branco, as suas culturas e seus deuses e toda sua importância. Sabe bom homem, ser o armeiro é muito interessante.

O homem pegou uma katana e a desembainhou, mostrando uma lamina suja e marcada de um sangue seco, preto e grosso pela sujeira e pó acumulado. Pousou o lampião e deixou a lamina próxima a claridade, o brilho passou da empunhadura a ponta.

__Não podemos limpá-las, não senhor. –apontou o sangue e sorriu, os dentes perfeitamente brancos- Olhe só aqui, de quem é? É de um japonês, pelo que eu soube. Pelo que me contaram, sempre me contam, suas histórias e essas coisas… Mas vai ficar aí, até o próximo vir usá-la. Você sabe, não sabe? Você não vai poder pegá-la, só ele.

__Eu sei disso armeiro. –uma mão surgiu na escuridão e gesticulou- Vamos continuar, quero ter certeza de que está aqui. Eu o enviarei para buscá-la no tempo certo.

__E ele virá? –riu de boca fechada, com uma tosse contida- Não tenha tanta certeza meu jovem guia. O crepúsculo de todos nós pode estar aí, acontecendo, e nem mesmo sabemos.

A mão tocou seu ombro novamente, o armeiro virou e encarou o rosto do homem. Um rosto branco, ruivo, barba a fazer. Seus olhos azuis safira brilharam na escuridão e ele disse, sério, a voz saia firme e decidida.

__Eu sou o crepúsculo.

O armeiro arregalou os olhos em espantou, sentiu o queixo cair mais logo fechou a boca e sorriu, voltando a procurar a espada. Parecia que sabia exatamente onde ela estava por quê, depois desse momento, levantou a mão sobre uma estante e pegou uma espada longa, embainhada. A empunhadura era toda feita em ouro, grossa em forma de T, enrolada por um couro negro e seco. Sua ponta era adornada pelo símbolo do sol, grande e brilhoso, com quase dez centímetros. A poeira parecia desviar do símbolo, estava impecavelmente dourado.

__Eu tenho um filho, rezo para que os Loa sejam bons com ele. –disse o negro, pousando a espada de volta sobre a prateleira- Eu não sei, e não é para eu saber, quais são seus planos ou o que vai acontecer, não senhor. Meu filho já sabe do arsenal, sim, já tem dezoito, vai herdar. Homem forte, pau grande como o do pai. –riu, a tosse contida- Grande, parece um cavalo, que varão ele é!

__Estou orgulhoso de você armeiro. Nunca imaginei que vocês realmente tê-las-iam.

__Tudo bem homem. –a risada continuou, a tosse venceu- Tudo bem… Esse é o nosso trabalho. Mas, se me permite, vou lhe confessar uma coisa. –girou o corpo e gesticulou para que seguisse na frente- Vamos sair daqui primeiro, sei que não gosta. Já sei qual deles você é. Claro que sei.

Com passos trôpegos, o homem alto foi na frente, o armeiro iluminava o caminho, o seguindo e o empurrando as vezes. Quando abriu a porta, o homem apagou o lampião e o prendeu em um gancho atrás da porta, a luz do dia entrava no aposento, a poeira dançava como as sombras. O homem não percebeu, mas o armeiro passou os dedos pelas figuras, sorrindo.

__Vou lhe confessar e depois você vai embora. Tenho medo que o filho do filho do meu filho não se importe mais com o arsenal. Sei que o varão vai herdar, sim, e seu filho também… Mas a terceira geração depois de mim…

O homem se virou, o blazer esportivo branco e justo tinha pequenos pontos de poeira pousada. Segurou os dois ombros do armeiro e sorriu, acolhedor. Deu-lhe dois tapinhas no rosto e respirou fundo, olhando a loja de pesca, a fachada para o arsenal.

__Como você mesmo disse, não é para você saber. –concluiu- Só posso lhe dizer que o seu trabalho está completo.

__Não está. –a risada, a tosse- Todos dizem isso, mas sei que só vai acabar quando eu morrer e o varão do meu filho me sepultar para o Barão da Cruz.

__É verdade armeiro… Ele virá buscar a espada. Estou certo disso.

__Você sabe? –disse o acompanhando até a porta- Essa daí, quantos anos tem?

__Há alguma coisas que não é para eu saber, também. –sorriu complacente- Sei que ele irá perguntar, responda para ele, ele vai saber.

__Ah se vai. –tossiu e riu, riu e tossiu- Maldita poeira…

Novamente, o filme foi pausado, a imagem derreteu e deu lugar a um homem saindo da juventude, vinte e um, seus cabelos castanhos escuros, longos, preso em um rabo de cavalo, a barba perfeitamente raspada, sem um só pelo. Era um homem lindo, rosto quadrado, sereno, olhos fechados. Estava em pé, uma roupa pesada e branca lhe protegia do frio. Tinha um arco de caça preto nas mãos, pequeno, de tão moderno parecia ter saído de um filme de ficção cientifica. Puxou a corda, as rodas giraram, a flecha foi armada.

Quem assistia se encostou na mureta de madeira que dividia os arqueiros do campo de disparo. O alvo estava a mais de cem metros, os braços rechonchudos se apoiaram na madeira fria, a jaqueta marrom pesada fez um ruído agudo ao roçar dos braços.

__Baldur. Sem, barulho. O que eu lhe disse? –aliviou a tensão da corda e abaixou o arco-

__Desculpe, desculpe… Pode continuar.

Via o homem pelos olhos de Baldur, que ficou imóvel depois da bronca. Novamente puxou a flecha e atirou. Ela voou veloz, firme, em um arco. Subiu, desceu e acertou o alvo. Baldur pegou o binóculos que estava pendurado ao pescoço e olhou onde a flecha havia acertado.

__Errei. –disse o homem- Acertei na faixa azul.

__Sim. –disse Baldur com um sorriso- Errou o centro, mas acertou na segunda faixa azul. Ainda não sei como consegue fazer isso sem enxergar Hodur. É incrível!

__Obrigado.

Hodur pegou outra flecha e atirou novamente, sem parecer mirar, os olhos fechados. A flecha voou e acertou no centro, fincando com firmeza. Baldur largou os binóculos pendurados e aplaudiu vigorosamente.

__Hodur! –e os aplausos não cessavam- Hodur! –e o homem de olhos fechados sorria, contente- Hodur!

Eva estava por cima de Adão, ainda sentada em seu membro. Se olhavam nos olhos, atônitos. Toda a visão que tiveram não durou mais do que alguns segundos. Ele despertou após sentir o liquido quente escorrer pelo seu membro, chamou Eva pelo nome, que piscou algumas vezes e desviou o olhar, até um tanto envergonhada depois do gozo e se levantou, indo ao banheiro.

O homem sentou na cama por um momento e passou as duas mãos no rosto, respirando fundo, ainda ofegante, as imagens que viu estavam frescas na memória como um filme. Eva tomava banho com a porta aberta, ele a olhou, sua linda silhueta pelo box de vidro acidado.

__Adão! Venha tomar um banho comigo. –disse uma Eva que parecia perfeitamente normal, sua voz nem ao menos parecia bêbada- Venha…

Ele abriu a porta do box e Eva sorria embaixo do chuveiro, os cabelos presos sobre a cabeça para evitar de serem molhados.

__Não se preocupe. –disse Eva quando ele entrou e o puxou para baixo do chuveiro- Eu tomo anticoncepcionais. –olhou por um momento o homem e lhe deu um abraço rápido, voltando a se lavar depois- Você viu?

__Sim. –disse exalando todo o ar dos pulmões- Locke, o garoto Baldur, o armeiro, Hodur…

__Eu vi a mesma coisa. Locke é um homem ou uma mulher?

__Bem… –Adão sorriu- Se for homem, é bem afeminado com aquele óculos e aquela voz.

__Verdade. Eu não gostei do que vi no armeiro. Sua espada.

__Minha espada? –apanhou uma toalha e entregou outra para Eva- Como sabe que é minha?

__Eu sei que é! –Eva se enrolou na toalha e saiu do banheiro, acompanhada de Adão- Eu sei que é, aquele símbolo… Aquele maldito símbolo!

__Ei, calma. –Adão a abraçou, ela relutou um momento e depois retribuiu- Eu não sei o que essas visões significam, mas não precisa se preocupar.

__Você vai perfurar meu coração com ela, e depois?

__Ei! Eu não vou perfurar seu coração! –Adão ia leva-la para a cama, mas estava suja de suor e sêmen- Eu não sei nada disso e mesmo que, por alguma razão, eu tenha alguma visão, eu não te machucaria, ainda mais matar você… Na primeira visão, eu não tinha espada alguma. –sorriu, tocando o rosto da mulher, que sorriu de volta- E você, vai atirar em mim?

__Só se for preciso.

__Venha, depois troco esses lençóis, venha dormir na minha cama.

Adão a levou para o quarto, sua cama de casal que tantas vezes se deitou com Fernanda e a amou. Viu Eva se deitar, nua, e puxar o lençol para se cobrir. Adão ligou o aparelho de som com uma música baixa e tranquila, ligou o ar condicionado e diminuiu a luz, deixando uma fraca penumbra no ambiente.

Ela o chamou com a mão e sorriu, como havia sorrido antes, de forma sacana. Adão não a desobedeceu, se deitou com ela e a amou mais uma vez, mas dessa vez não tiveram nenhuma visão. Dormiram em seguida, cansados, preferiram deixar a conversa sobre o que viram para outro dia.

Agentes da Balança -A segunda batalha-

A água trouxe mais clareza a mente de Adão, gelada, escorria de seus cabelos pelo seu corpo dolorido, por trás dos olhos fechados via a imagem de Eva sentada na cadeira, com sua taça de vinho na mão, olhando para a lua encoberta de nuvens. Era uma imagem linda, sem dúvida, mas ela era seguida de outra, onde vestia uma armadura, onde ela disparava uma arma contra ele.

Quando saiu do banho, percebeu que não estava tão bêbado como pensava, seu corpo estava alerta, seus reflexos não estavam afetados, talvez fosse a euforia da festa, algo na cerveja de Rodrigo estava estragada ou então, como estava pensando até de maneira fantasiosa, foi a presença de Ágata que o desbalanceou, tirou-o do eixo. Afinal, tinha certeza absoluta que não havia bebido demais. Passou pelo freezer na área de serviço e pegou algumas long necks, um baldinho de gelo e levou até Eva, que sorriu ao vê-lo vestido, arrumado e cheiroso. Estava simples, uma bermuda jeans preta e uma camisa de manga longa justa ao corpo, branca. Mas para os olhos de Eva, estava melhor que um Adão abatido, seminu e grudado em seios grandes.

__Bela casa. –disse Eva quando Adão sentou em outra cadeira, ao seu lado, pousando o baldinho- É sua?

__Sim, ainda estou pagando por ela, vou terminar de pagar daqui uns dez anos, mas na lei ela já é minha. –apontou a fornalha- Por isso pude montá-la, mas não acho que ela vai aumentar o preço quando eu vende-la, pelo contrário.

Eva deu um sorriso fino, mas encantador. Adão sorriu um tanto descrente da situação, daquela garota sete anos mais nova ali, sentada, bebendo vinho, olhando sem muito interesse para a fornalha que, nesse mesmo dia, tentava fazer uma manopla para uma armadura que viu em uma visão onde ela mesma estava presente.

__Nunca tivemos essa oportunidade, de conversarmos assim não é mesmo? –disse Eva, seu rosto estava corado, sorridente, um tanto alcoolizado com certeza- Sempre ficamos, assim, um ali e outro aqui, você no seu lado, eu no meu, tirando aquela partida engraçada de poker. –riu, Adão a observava com sua cerveja na mão- Como foi ótimo, não foi? Aquela… Perseguição! Olavo e Rodrigo me falaram depois, você não joga daquele jeito, foi eu que te fez ficar assim?

__Foi sim. –tomou um gole e pousou a garrafa no joelho- Eu nunca havia jogado daquela forma antes, normalmente sou receoso, mais “tight” e… –escolheu as palavras, Eva gesticulava para que continuasse- e me pareceu a coisa certa a fazer, sabe? Como se fosse natural.

__Sei. –Eva terminou a taça e disse sem sorrir- Para mim também, parecia a coisa certa a se fazer. –encheu novamente e o encarou- Você… –sorriu- Você me atraí sabia? Esse seu jeito, essa sua pose, você parece tão intocável. Mas não é, todas as mulheres que você quer, você consegue, mas ainda assim, parece distante, longe…

__Rodrigo já falou isso para mim, quer dizer, não o fato de ser atraído por mim. –brincou, Eva caiu na piada e riu junto- Digo, o fato de parecer distante, inalcançável. As mulheres normalmente revelam isso para ele depois de um relacionamento comigo, elas querem…

__Mas não conseguem alcançar onde é para alcançar, não é? Deve ser difícil para você. –disse complacente- Tantas mulheres, tantos prazeres… –sorriu olhando para taça, o liquido avermelhado girando e uma pedra de gelo batendo nas laterais tediosamente- Ainda assim, você busca, não é? Você busca algo, você tem algo para fazer, precisa fazer…

__Acho que todos nós somos assim. –olhou para a fornalha, depois olhou para ela- Mas, e se eu te confessar que eu não corro atrás de mulher, você acredita?

Eva o olhou de olhos cerrados, um sorriso sincero, os cabelos ondulados sobre o rosto, a respiração já afetada, o gosto do vinho marcante na língua. Ela ia dizer algo, queria dizer “Sim, pois você é o Sol”, tentava dizer, mas as palavras não tinham coragem de sair, não queriam, se acanharam nos lábios. Era como se percebesse uma verdade tão preciosa que tinha medo de compartilhar.

“Você é o Sol, não busca a ninguém, mas todos buscam a você”.

Quis dizer, tentou novamente, os lábios se moveram, a língua tocou nos dentes, mas nada. Nenhum som. Adão sorriu, achou engraçado no começo, mas depois notou que ela não sorria, sua expressão era de angustia, talvez até de medo. Pousou a garrafa quase vazia no chão e se levantou, o coração de Eva pulou uma batida, olhou surpresa aquele homem e como ele parecia grande. Ele se agachou e, receoso, pegou a mão de Eva com as suas, a segurou com firmeza, ela pode sentir os calos e sua pele grossa.

Foi reconfortante, ela fechou os olhos e não viu nada, apenas sentiu uma paz, uma tranquilidade semelhante a um abraço em um dia difícil. Ela exalou o ar dos pulmões e sorriu, Adão então levantou e voltou a se sentar, abrindo outra cerveja. Ficaram em silencio por um momento, Adão a olhava gentilmente, como um homem deve olhar a sua mulher e Eva encostou a cabeça na cadeira de fibra, o mundo girando levemente, mas se sentiu segura como a muito tempo não sentia.

Se sentiu em paz.

“Eu alcancei? Alcancei o Sol?”

Abriu os olhos e o mundo parou de girar, as estrelas estavam lá, uma nuvem preguiçosa deixava de cobrir a lua como um lençol e seu brilho, aos poucos, banhava os dois no quintal. Ela voltou o olhar para ele, que sorria tomando um gole da garrafa, a observando. Ela sorriu de volta, trocaram olhares e seu rosto voltou a corar. Era um homem grande, sem dúvida, e também um grande homem, concluiu.

Moveu os lábios, a língua acompanhou, disse algo, mas não era exatamente as palavras que queria dizer.

__Acredito. –disse por fim- Eu já disse, você me atraí, vai ver atraí todo o tipo de mulher.

__Eu te atraio?

O jogo dos flertes, a sedução, a troca de olhares… Era aquilo que lhe interessava, mais do que o ato em si, mas aquele momento, onde o coração se atrapalhava em suas batidas, onde sentia o sangue correndo pelas veias, o desejo e a curiosidade rodopiando e se fundindo a sentimentos confusos. Era daquilo que gostava, de que realmente gostava. E gostava de ganhar esse jogo.

__Sim. –respondeu e encheu a taça novamente, algumas gotas escaparam e escorreram pela taça, pingando em sua saia preta- E acho que… –olhou o liquido descendo pela taça, lentamente- acho que você sabe porquê. Eu realmente acho que você sabe porquê.

Adão engoliu seco, Eva olhou mais uma gota descer e pingar em sua saia. Olhou-o de canto, os olhos semicerrados, a taça próxima ao rosto. Adão achou aquela imagem extremamente sensual, o lembrou filmes escuros, artes sombrias, pinturas… Era uma obra de arte, aquele rosto, aquela taça, aquela gota a pingar. Percebendo o olhar deliciado do homem, ela a levantou e lambeu a pequena gota, apenas com a ponta da língua, em uma as exibições mais sensuais que já viu. Depois sorriu para Adão e disse com uma voz alta e alegre.

__É um ótimo vinho! Melhor não desperdiçar uma só gota! –a voz alta o tirou da pequena hipnose em que havia caído- Não é verdade?

__Ah sim. –sorriu, levantou a cerveja- Eu sempre digo isso.

__É realmente um ótimo vinho. –sentia a vibração no corpo, sentia a alegria de querer aquilo, a imagem vinha a cabeça, o caçador na floresta- É realmente um ótimo vinho… –repetiu, sentiu-se engraçada, depois boba- Quer… –limpou a garganta e se sentiu tola-

Adão sorriu, esperava ouvir o que ela queria dizer, mesmo que já soubesse.

“Quer experimentar?” perguntaria, e ele diria “Claro.” e a beijaria. Já beijou muitas garotas assim, em sua adolescência, com balinha, chicletes, chocolate… Depois foi para a cerveja, o vinho, a vodca, uma certa vez até com queijo.

__Quer me apresentar a casa? –sorriu e se levantou, levando a taça com ela-

__Claro. –levantou e deu a mão para que levantasse, ela se apoiou nele ao sentir a tontura, mas seus passos ainda estavam firmes- Não é muito grande nem muito interessante…

__É uma bela casa. –disse dando um tapinha em seu ombro- Você deveria se orgulhar dela. Parece bem segura.

__Isso ela é. –disse entrando, ela o acompanhava com um braço cruzado sobre a barriga, segurando o cotovelo do outro, a taça sempre a altura do rosto- Aqui é a cozinha…

Mostrou cômodo por cômodo, uma cozinha moderna, minimalista, uma sala com poucos móveis e uma grande televisão de plasma, uma sala de jantar com uma mesa para seis pessoas, de madeira maciça e estilo vitoriano, ela entrava em contraste com a modernidade da residência, mas Eva achou o toque antigo maravilhoso. Passou os dedos finos sobre as ondas na madeira negra, segurou uma das pontas com vontade e imaginou o que poderia ser feito sobre ela, sua mente já enevoada pelo álcool lhe pregava algumas peças, mas ela gostava, de cada uma delas.

Mostrou o quarto de hospedes, uma pequena e simples suíte, com uma cômoda, um espelho e uma cama que parecia bem confortável, e convidativa para um corpo cansado, também feita no estilo vitoriano. Adão disse, batendo na madeira, que ele fez tanto a cama como a mesa. Ela concordou que a arte era linda. Sentou na cama e tirou os sapatos, Adão se apoiou na porta, a encarando. Eva estava ofegante, suas mãos suavam e ela disfarçava com pequenos toques na saia. Olhou o homem que parecia enorme naquela porta e sorriu, com os olhos baixos, um tanto cansados, mas alertas.

__Então eu vou dormir em uma cama que você mesmo fez?

__Isso mesmo. –apontou a cabeceira- Madeira maciça, ela é bem resistente, não vai quebrar enquanto dorme, pode ter certeza.

__Não? –se mexeu um pouco, para cima e para baixo, testando sua firmeza- Parece que é bem resistente mesmo… –passou a mão pelo lençol, terminou a taça e a levantou na direção de Adão, para que a pegasse- Espere, traz para mim a garrafa, vou tomar mais uma taça antes de dormir… e traz mais uma cerveja para você. –sorriu e levantou, indo ao banheiro da suíte- Vai lá.

Quando voltou, Eva estava sentada na cama, usando o travesseiro encostado na cabeceira, deu dois tapinhas a sua frente, para que sentasse ali. Adão a serviu de meia taça, ela reclamou e ele terminou de enchê-la. Abriu sua long neck e sentou à sua frente. Ela o olhava como uma caçadora, ele conhecia bem aquele olhar. Mas naqueles olhos castanhos avermelhados se escondia mais que o simples desejo, havia a Eva, aquela Eva, e Adão não havia esquecido disso por um só momento.

__Então… –disse Eva- Quer me dizer alguma coisa? Sobre a forja lá fora? Unh? Sobre aquele… Lindo sol que você desenha tanto?

Adão tomou folego e olhou pela janela, as poucas estrelas no céu, as nuvens solitárias, o brilho alvo da lua. Imaginou que horas poderiam ser, mas já sabia que não importava mais, estaria ali com Eva até amanhecer o dia, provavelmente, até a hora do almoço, como já aconteceu antes, com outras mulheres, outros casos, outros dias.

__Quando eu toquei você, pela primeira vez, na casa do Rodrigo…

__Chovia, sua armadura era muito bonita.

Aquilo não surpreendeu Adão, mas ele sorriu, tomando um grande gole da cerveja.

__Você estava lá. –disse encarando uma Eva sorridente- Porque atirava em mim, você sabe?

__Eu não faço ideia! –riu e se espreguiçou, Adão notou a silhueta de seu corpo no vestido, os seios pequenos, porem firmes, o decote sutil, seu pescoço fino- Mas desde aquele dia, não paro de pensar no que foi aquilo, e no porquê eu tenho tanto desgosto por aquele lindo símbolo que você desenha.

__Eu sei tanto quanto você. –disse se sentindo meio bobo de ter aquela conversa- Isso tudo parece tão… Surreal.

__Ei Adão… –Eva quebrou um pequeno silencio que se formou e levantou, indo até a janela e a fechando- Você gosta? Assim, de estar entre quatro paredes?

Ele sorriu, mas não respondeu. Eva fechou a porta e ligou o ar condicionado do quarto. Adão, sentado na cama, se encostou na parede e a olhou em pé, um tanto bêbada, um tanto sorridente, um tanto séria. Ele não entendia bem o que o sorriso e o olhar de Eva estavam tentando dizer, nunca foi bom nisso, por essa razão era um péssimo jogador de poker. Ela se encostou na cômoda e o olhou, terminando a taça de vinho em grandes goles, Adão fez o mesmo com sua cerveja.

__Eu tinha um sonho quando criança… –riu, passando o dedo fino pela boca da taça- Era em uma cidade, bem grande, uma grande metrópoles e… –seus olhos encheram d’agua, sentiu-se boba novamente, mas continuou- eu saia correndo pelas ruas e não havia ninguém, todas as portas estavam fechadas, casas, lojas, tudo… Eu amo estar entre quatro paredes. –concluiu, o olhando- Sozinha.

__Tudo bem, vou deixar você dormir. –se levantou e foi empurrado por Eva, deixou-se cair sentado na cama novamente e sorriu- Ok… É agora que você atira em mim?

Eva o olhava de cima para baixo, mordeu o lábio inferior e se aproximou do homem em pequenos passos. Adão já se sentia excitado pelos olhares e jeitos da mulher a sua frente, mas esse pequeno gesto e aproximação o fez ficar duro, e agradeceu por estar usando jeans.

Sentou ao seu lado e depois se encostou à cabeceira da cama. Naquele momento ele entendeu, ela não daria o braço a torcer, ele também não queria ter a iniciativa, queria sim aquela mulher, mas queria que ela viesse, como todas as outras vieram.

Disputavam. Até ali, disputavam.

__Eu não vou atirar em você, não agora. –passou os dedos sobre as pernas e o olhou- Ei Adão… Adão… Adão… Já parou para pensar o tanto que estamos sendo bobos?

__Sim, mas aí está a graça. –respondeu e sentou mais próximo daquela mulher, ela o acompanhou com os olhos- A graça de tudo isso, é que eu e você estamos aqui, entre quatro paredes como você mesmo disse…

__E a graça disso tudo… –desencostou e ficou de frente para o homem, o encarando com seus olhos castanho avermelhados- É que eu me chamo Eva, e você Adão.

Adão sentiu seu sexo pulsar ao ver os lábios de Eva tão próximos ao seu, seus olhos passavam para sua boca, voltavam para seus olhos e as vezes, desciam até o seu sexo, escondido pela bermuda jeans. Ele a encarava, mas seus olhos o traiam e também dançavam sobre o corpo da mulher, jovem, exalando sexualidade, seus olhos desejosos e sua boca semiaberta, em uma respiração ofegante.

__Eu sei que você quer… –com um sorriso sacana, falou próxima ao rosto de Adão- Por que não vem pegar? O que você está esperando, um convite?

Aquele sentimento de competição não o abandonava e podia ter certeza que ela também sentia o mesmo, ela não se entregava, não por completo. Para ele, o sinal parecia verde, os olhos dela diziam “venha! Venha logo!” mas ele parecia perceber que por trás daquele olhar, ela sairia vencedora. Não sabia dizer do que, ou no que, mas venceria.

__Se vimos aquilo tudo com um toque de nossas mãos, imagine quando… O que me diz? –abaixou uma alça do vestido, depois a outra, os seios ainda ficaram cobertos- Aí está seu convite.

__Eu já perdi uma batalha antes. Por que você não perde essa?

Ela sorriu e segurou seus ombros, o deitou suavemente e sentou em cima de seu pênis. Sentiu-o entre as penas e sorriu, fechando os olhos e se deleitando com a sensação, com o toque em seu sexo. Depois abaixou o corpo e se aproximou dos seus lábios e disse, vagarosamente, como um gemido.

__É assim que funciona, um dia você ganha, outro dia eu ganho.

O beijo finalmente, com desejo, com volúpia, com tesão. Sentiu Adão pulsar entre suas pernas, tentou tirar a bermuda do homem com uma das mãos e ele logo a ajudou, sentia ainda mais aquele membro, gostou de saber que a imagem que fez na casa de Rodrigo não foi à toa. O segurou com força fazendo o homem gemer e sorrir. Levantou em um salto e tirou a calcinha, Adão, deitado com os pés encostando na cabeceira, sorriu ao ver aquela cena. Já viu cenas parecidas, outras mulheres já fizeram aquilo com ele, mas com Eva… Com ela parecia especial. Ele tirou sua roupa de baixo e foi a vez de Eva sorrir de contentamento ao ver o membro ereto de Adão. Ela sentou devagar, primeiro o corpo arqueou, sentindo a onda de prazer pela penetração, depois curvou-o e lhe beijou a boca.

Foi intenso, não o sexo, mas a visão que veio junto com o orgasmo.

Agentes da Balança -Um momento antes da tempestade-

Antes dos últimos raios de sol sumirem dos céus, Adão finalmente largou o martelo sobre a bigorna e caiu sentado em uma cadeira de fibra amarela, suado, cansado, seus braços doendo e sua mão latejando, dolorida e fraca. Fernanda trouxe duas cervejas e entregou uma a ele, tocou a bigorna, limpou com a mão e sentou sobre ela, o olhando enquanto ele sorria para ela, agradecendo pela cerveja.

__Você tem noção que passou o dia inteiro aí, não tem?

Adão tirou o suor da testa com as costas da mão e olhou para o céu, as primeiras estrelas surgiam no manto cor de chumbo.

__É mesmo. –disse aéreo- Nossa, para mim pareceu tão pouco. –olhou para as manoplas que tinha produzido, apenas a cobertura do antebraço- E foi tão pouco também. –se levantou com dificuldade e sentiu o peso do trabalho em suas costas, pegou as manoplas e vestiu- Olha só, fiz só isso. Ainda precisa acolchoar, fazer uma presilha melhor para firmar ela no braço e…

__Adão, desencana. Toma sua cerveja e relaxa. –ela sorriu e tomou um gole- Hoje eu tenho uma exposição para ir e levar o Damasceno, aquele baixinho careca.

__Sei quem é. Aquele que pinta uns quadros escuros não é?

__Ele mesmo. Quer tomar um banho? –sorriu e o chamou com um dedo- Vem tomar banho comigo, relaxar um pouco, aproveita e dorme até eu chegar. –disse com um sorriso fino-

Adão gostou da ideia, e gostou ainda mais quando Fernanda o masturbou no chuveiro. Assistiu Fernanda se arrumar para o trabalho, um vestido azul, longo e comportado, chique porem o mais profissional possível. Nu, deitado na cama, as vezes piscava o olho e alguns minutos haviam passado, em um, Fernanda estava se vestindo, em outro, já passava maquiagem e no terceiro foi quando acordou com ela se despedindo, o beijando e bagunçando seus cabelos.

Então finalmente, dormiu.

Pein pein pein fazia o martelo.

Shiiiiiiii o ferro quente na água.

Pein pein pein fazia o martelo.

Shiiiiii o ferro quente na água.

Adão acordou assustado, saltou da cama e correu pela casa. Quando se deu conta, estava em sua forja, nu, a luz do luar iluminando seu corpo e um desconforto imenso ao notar aquela situação. Ainda podia sentir o bafo quente da fornalha esquentando sua pele esfriada pelo ar condicionado, sentia o peso do martelo na mão, os movimentos, o braço vibrando.

Passou as duas mãos no rosto e respirou bem fundo, voltando para dentro da casa em passos arrastados e cansados. O celular tocava sobre a cabeceira da cama, era Rodrigo, provavelmente o convidando para jogar poker. Hoje não, pensou, e deixou o celular tocar no silencioso. Deitou novamente na cama, a luz acessa, o ar condicionado deixava o quarto tão frio quanto uma noite de inverno. Fechou os olhos.

Pein pein pein fazia o martelo.

É você mesmo?

Pein pein pein fazia o martelo.

Quero que dure trezentos anos, vai durar?

Acordou novamente e correu até a forja, o corpo ia sozinho, ele não escolhia fazer o que estava fazendo. Olhou para a fornalha morna, tudo como havia deixado. Notou novamente que estava nu, em pé ao luar. Bravejou e mandou ir para o inferno tudo e todos. Tomou outro banho e voltou para cama, mais desperto, já passava das quatro horas da manhã. Fernanda provavelmente voltou para a casa dela e ele, ali, estava com receio de fechar os olhos. Mas eles se fecharam.

Pein pein pein fazia o martelo.

Essa espada vai perfurar o coração dela.

Pein pein pein fazia o martelo.

E depois você vai fazer o quê?

Acordou sem se assustar desta vez, já via o brilho do sol pelas cortinas azul-marinho. Levantou sentindo as dores do trabalho de ontem lhe castigando, mas estava feliz, satisfeito por poder ter feito o que fez. Era uma segunda-feira, mas isso não o desanimou. Se arrumou como sempre, o mais simples possível com suas camisas brancas.

  …

Rúbi e Ágata olhavam Adão de longe, apoiados na pick-up preta, no pátio da faculdade. Ele estava conversando e rindo com Olavo e Rodrigo, as risadas as vezes eram altas e irritantes, alguns alunos olhavam aquele trio com desgosto e desdém, mas eles nem ao menos reparavam nisso. Já era meio-dia, um dia de nuvens pequenas e um sol forte e caloroso. Sentados sobre a sombra de uma árvore, matavam o tempo antes de irem para seus afazeres diários.

__Aquele é Adão? –disse Ágata por trás de seus óculos escuros- É um homem muito bonito.

__E grande. –completou Rúbi, coçando a barba rala e ruiva- Tem cara de Adão, não é verdade?

__Sim, com certeza. Já tem algum filho?

__Não, isso me surpreendeu também. Nenhum.

__Deve ser por causa dos dias de hoje. –disse sorrindo para o irmão- Camisinha… Anticoncepcionais… Essas coisas. As pessoas parecem que não querem mais ter filhos, são egoístas demais.

__Em breve eu vou falar com Adão. –olhou para a irmã e seus cabelos encaracolados- E você, já encontrou Eva?

__Ainda não. Sabe como é essas coisas noturnas, são escuras, surdinas, cheias de mistério… Já o dia e o sol, brilham demais, todo mundo vê, todo mundo sabe.

__É verdade, precisa de ajuda? –deu uma última olhada para o trio que conversava sobre a noite de poker que tiveram e voltou para dentro da pick-up- Se quiser posso te ajudar a encontra-la, depois voltou para o Adão.

__Não precisa Rúbi. –entrou na pick-up e tirou os óculos, olhando seus olhos verdes no espelho do quebra-sol- Ele já começou a forjar… –disse ela para si mesma- E Eva? Por quê nada ainda.

__Os tempos são diferentes minha irmã, nos falaram isso, nós sabemos disso. Vá com calma e vai conseguir encontrá-la.

__Espero que ela não faça nenhuma besteira até lá.

__Não fará. Ao menos, eu acho que não.

Rúbi saiu do pátio, sem pressa, manobrando no pequeno estacionamento daquela área e saindo com o veículo silencioso. Adão seguiu o veículo com os olhos, já tinha o visto antes e sabia onde era, em frente ao bar, próximo dali. Deveria ser algum aluno, pensou, sem dar muita importância ao fato. Mas algo lhe fazia coçar a nuca, uma sensação estranha que não conseguia definir qual era, não sabia o porquê, mas havia algo de importante naquele carro. Adão apontou e perguntou aos amigos se conheciam quem dirigia aquela pick-up, Rodrigo, dando uma risada alta e uma tragada longa no charuto, respondeu a Adão com a fumaça saindo de sua boca como um dragão careca e de cabeça redonda.

__Você também não espera que eu conheça todo filho da puta do mundo, não é?

Uma semana se passou desde que Adão viu a pick-up saindo do estacionamento. Era domingo e Rodrigo achou bom fazer uma pequena festa em sua casa, mais uma vez, para comemorar os bons negócios que sua empresa havia feito. Rodrigo acreditava que tudo deve ser comemorado, tudo que seja bom, do menor dos atos até as maiores conquistas. Dessa forma, você deixa bem claro para a vida o que é te deixa feliz e satisfeito.

Adão chegou sozinho, ao entardecer. Uma barba grossa e cheia de duas semanas adornavam seu rosto, além das olheiras e o cabelo um tanto bagunçado. Foi recepcionado por um Rodrigo sorridente, charuto no canto da boca, queimando suavemente. Estava com um short de banho molhado e o corpo grande brilhando sobre a luz do pôr do sol.

__Ei se não é meu amigo Adão! Cristina! Vá buscar duas cervejas para nós! –gritou sem olhar para trás, Adão viu uma mulher sair da piscina fazendo com a mão um sinal de “já volto” para as outras pessoas com quem conversava- Então Adão, o que houve meu amigo? –tirou o charuto e o puxou com um braço, molhando sua camisa regata branca- Ei, ei, aquela fornalha tá acabando mesmo contigo hein? Ou é a Fernanda? Está faltando diversão pro menino aí de baixo?

Adão pode ver Cristina de micro biquíni, com uma garrafa em cada mão, vindo em uma corridinha divertida, os seis grandes e morenos saltando de um lado para o outro. Aquela cena lhe lembrou as propagandas de cerveja, onde todos sorriem, as mulheres são bonitas e as cervejas são geladas.

__Aqui está grandalhão. –entregou a cerveja para Rodrigo- E aqui para você cara grande. –e entregou para Adão, com um sorrisinho a mais- Vai entrar na piscina?

Adão sorriu, a cerveja próxima dos lábios.

__Talvez. –disse olhando os cabelos negros e molhados da mulher- Quem sabe dou um mergulho depois contigo.

__Não demore então.

Cristina sorriu mais uma vez, e uma terceira quando os seios fartos finalmente venceram os olhos de Adão. Voltou da mesma forma saltitante para a piscina. Rodrigo esperou um pouco e depois de um belo gole, segurou o ombro de Adão e apontou para a piscina.

__Meu amigo, você sabe que todos nós somos seus amigos. –disse e depois olhou para ele, que o encarava com um rosto cansado- Então, já que está aí, cheirando a fumaça e ferrugem, parecendo alguém que está trabalhando como se tudo dependesse disso, dê um tempo para si e aproveite essa festinha, por favor. Sabe? Sabe o que é mais interessante? Lembra daquela pick-up preta, aquela que você perguntou quem dirigia? Então… –tragou e falou como um dragão, a fumaça subindo pelo rosto- Rúbi é o nome do pilantra, é um homem de negócios, está trabalhando com a nossa faculdade para um evento esportivo, esse tipo de coisa. Posso não conhecer todo mundo, mas conheço muita, muita gente.

__Rúbi? –disse em um riso- Rúbi? Isso lá é nome?

__O cara e sua irmã, que diga-se de passagem é uma maravilha, vieram lá da puta que pariu, um outro país, Eslovênia se não me engano, mas isso não é importante. O importante é que eu vi eles um dia parados aqui perto, ali no final da rua. Você falou para mim aquele dia e eu acabei tentando lembrar, “onde foi que eu vi esses caras” e aí fiquei curioso, tive que descobrir.

__Eslovênia… Isso é longe. –olhou ao redor e começou a caminhar para a piscina- Olavo já está pegando a Eva ou ainda tá enrolando? –viu que ele não estava lá e olhou para trás- E nada dele ainda, ele vem?

__Vem sim. Agora larga essa cara de bunda e vai dar um mergulho. Ah, eu não terminei, advinha quem eu convidei?

__Não sei, Caim e Abel? –disse dando de ombros-

__Ágata, a ruiva. A irmã do tal de Rúbi.

Adão coçou a barba, terminou a cerveja, coçou a barba mais uma vez. Rodrigo o encarava, esperando algum comentário, algum elogio, um parabéns talvez. Mas ele não disse nada, entregou a garrafa ao amigo, tirou a camisa regata e levantou os braços, cheirando as axilas. Sorriu, não estava realmente fedendo, só um tanto defumado.

Rodrigo voltou a piscina e logo após Adão, com duas cervejas, que se intrometeu entre Cristina e outro rapaz e lhe entregou uma delas. A mulher sorriu e tomou um golinho, o olhando nos olhos. Ele sorriu de volta, trocando olhares com aquela mulher.

Já passava das nove da noite quando Eva chegou, em roupas simples, negras e cabelos presos em um rabo de cavalo alto, Adão já estava encostado na beirada da piscina, ao lado de Cristina, que sorria com seus gracejos. Ao vê-la, se sentiu mais constrangido do que se tivesse visto a própria Fernanda ali, parada, o olhando como se olhasse o pior dos pecados. Eva parou por um momento, o reconheceu com a barba grande e sorriu, acenando. Ele acenou de volta, com um sorriso sem graça.

__Quem é? –disse Cristina um tanto enciumada-

__Ela? É a Eva.

__Eva? –disse com um sorriso nervoso- Então você tem namorada e fica aí, se engraçando para cima de mim?

__Não, o nome dela É Eva, não é nada minha.

__Pois não parece. –disse dando um pequeno empurrão nele, mas o puxando de volta em seguida- Não tem problema, não tenho ciúmes não. –com um sorriso sacana, encarou Eva e se aproximou do rosto de Adão- Ela não vai me matar se eu beijar sua boca não é?

Adão a abraçou pela cintura e a colou em seu corpo, sentindo seus seios fartos contra o peito e lhe beijou a boca. Eva conversava com Rodrigo, mas logo seus olhos voaram em Adão, como aves de rapina. Por um momento Rodrigo teve essa impressão, como se Eva fosse uma ave, sobrevoando, analisando, procurando sua presa. Ela não disse nada, mas não pode conter sua expressão de descontentamento, não tão bem quanto escondia suas cartas no poker. Rodrigo sorriu, deu um tapinha no ombro de Eva e ela desviou o olhar, voltando a atenção para ele.

__Desencana Eva. –apontou discretamente para Adão- Ele é assim mesmo. Você pode até fisgar esse homem, por um tempo, como Fernanda fez e como outras fizeram antes dela, mas não dura muito, o homem tem um pau caçador pior que o meu.

Eva arqueou uma sobrancelha, balançou a cabeça em negação com o comentário mas depois riu, primeiro segurou o riso, depois deixou que saísse, sonoro e sincero. Imaginou o pau caçador, Adão e Rodrigo, nus e de pênis ereto, correndo pela floresta enquanto mulheres de todas as etnias tentavam fugir, entre as árvores.

A imagem em sua mente acabou mais a atraindo do que repudiando.

Dez minutos depois foi a vez de Ágata aparecer, um vestido elegante cor de esmeralda, curto e decotado, os cabelos estavam soltos, selvagens, tinha uma aparência mágica em seus olhos que combinavam com o vestido, o rosto sardento com seu charme especial. Rodrigo saltou da piscina e, em passos molhados, a cumprimentou e lhe beijou o rosto, a convidando para que entrasse na agua. Recusou por um momento, disse que beberia algo antes, mas ao ver Adão disfarçou e sorriu, tirando o vestido e revelando uma pele que deveria ser banhada pelo luar todas as noites, de tão leitosa, uma pele que não deveria ver o sol a um bom tempo. Vestia por baixo um biquinho preto, sem detalhes, comportado. Perguntou a Rodrigo se tinha vinho e foi tranquilamente a piscina, enquanto seu anfitrião ia até o freezer acendendo um charuto.

De longe, a olhou de canto de olho, vendo se aproximar de Adão com visível interesse. Algo não estava certo para ele, tinha certeza, mas precisava tirar a prova, entender quem eram, não gostava de ficar no escuro. Eva foi ao seu lado e encostou a taça em seu braço, Rodrigo disfarçou e sorriu, enchendo a taça da garota que prendia os olhos em Ágata.

__Também acho. –disse tirando o charuto da boca e segurando a taça de Ágata- Não acha?

__A ruiva? –seus olhos castanhos avermelhados voltaram a Rodrigo- Acho. Acredito que acho…

__Onde está Olavo? –deu por falta, olhando para os lados- Não veio com você?

__Pelo que ouvi, está em casa, não está muito bem. Selene resolveu ficar com ele por lá.

__Boa garota. –disse retornando o charuto à boca e voltando para a piscina-

Ágata andou lentamente até Adão, cumprimentando algumas pessoas, sorrindo para outras. O homem coçou sua barba ao vê-la se aproximando e pediu que Cristina fosse buscar mais uma cerveja para eles. Ela sorriu e lhe beijou a boca rapidamente, saltando fora da agua e quase esfregando as nádegas no rosto de Adão. Eva ao ver o comportamento da mulher, riu da situação, mas logo voltou a atenção de ave de rapina para Ágata, mais uma mulher que se aproximava daquele homem das suas visões.

Os olhos esmeralda analisaram o rosto cansado de Adão e sorrirão gentilmente, mas aquele sorriso não lhe agradou como deveria ter agradado, pelo contrário, franziu a testa e tomou folego, esperando a mulher finalmente se aproximar.

__Olá! –disse animada- Adão não é?

__Você deve ser Ágata, a mulher que gosta de ficar encarando os outros. –disse um tanto tonto pela cerveja, depois sorriu- Rodrigo estava certo. Você realmente tem um charme. Diz aí, o que foi? Veio de longe só para falar comigo?

__Aquela mulher que estava contigo, qual o nome dela?

__Cristina. –deu de ombros e sentou na borda da piscina, seu estomago se embrulhava e remexia- Ela é hetero.

__Não foi por isso que perguntei.

Disse séria para Adão, quando foi continuar Cristina sentou ao lado dele e lhe entregou a cerveja, o beijando nos lábios, um beijo que era mais uma marca de território que um beijo propriamente dito. Ágata não se importou, esperou aquela pequena cena acabar e foi direto ao ponto.

__Você conhece a Eva? –perguntou sem sorrir-

__Ela parece que é famosa hein? –disse rindo uma Cristina já bêbada e de olhos miúdos- Todo mundo parece querer saber quem é essa mulher, e olha lá. –disse apontando, tentando ser discreta mas sem conseguir- E olha lá, até a ruiva aí é mais bonita, o que esse povo vê nela?

Adão achou estranho o interesse repentino e logo ligou um mais um, Ágata perguntou pelo nome de Cristina pois buscava Eva, não ele. Sua mente alcoolizada pensava que ela era apenas uma lésbica, dessas tantas que Rodrigo encontrava pela faculdade, mas era como se ele tivesse a sensação que algo estava prestes a acontecer, como a tensão de passar uma linha pelo buraco da agulha. Deu apenas um pequeno gole na cerveja e observou a mulher se afastar, levando com ela um pouco da tontura que sentia. Cristina puxou seu rosto e lhe beijou a boca, mais um beijo desconfortável, que mais parecia um grilhão sendo amarrado em seu pescoço do que uma amostra de carinho ou tesão.

Ele se afastou e agradeceu a cerveja, disse que precisava ir ao banheiro e, em passos que lhe faltavam a firmeza, foi até Rodrigo que estava no freezer pegando uma cerveja e o puxou para dentro da casa, na cozinha. Cristina olhou durante algum tempo para a janela onde Adão parecia discutir com Rodrigo e deu de ombros, voltando a atenção para sua cerveja e para o homem com quem conversava no início da noite.

__Alguma coisa está errada. –Adão dizia, molhado, empoçando a cozinha- Tem alguma coisa errada.

__Você bebeu muito Adão? –disse pegando a cerveja dele e deixando sobre a pia- A tempos não te vejo assim.

__É noite… É noite… Você viu como os olhos daquela Ágata brilham? Parecem… Pedras preciosas e…

__Ele tá bem? –Eva apareceu com uma expressão de preocupação quase caricatural- Bebeu demais?

__Ele está bem sim. –concluiu Rodrigo e deu uma olhada para a janela, Ágata parecia se enturmar com duas outras mulheres que bebiam vinho- Conhece a Ágata, Eva?

__Não. –suspirou e a olhou também pela janela- Sabe que não, o que aconteceu?

__Nada. –disse um Adão tonto, esfregando os olhos- Ah cara quer saber, vou para casa.

Respirou fundo e deu dois passos largos. Eva o segurou pelo braço.

Seus olhos se arregalaram, seu coração pulou uma batida, mas nada aconteceu. Nenhuma visão, nenhuma sensação estranha. Apenas o susto que a expectativa gerou durante todo esse tempo. Eva sorriu e deixou a taça em cima da mesa, depois se virou para Rodrigo.

__Não se preocupe, eu levo ele lá. –Eva olhou pela janela, os olhos de Ágata grudados no que acontecia pela janela, e depois se voltou para Adão- Pode ser?

Adão ponderou, coçou a barba, olhou para Rodrigo que fez um sim com a cabeça.

__Certo. Mas nada de… Você sabe, essas coisas.

__Certo. –respondeu e sorriu, fazendo uma careta para Rodrigo como se não soubesse do que ele estava falando-

Adão estava com o rosto virado para a janela, o vento noturno gelava sua face, mas o despertava. Ainda se sentia tonto, mas o que sentiu na presença de Ágata era outro tipo de tontura, uma vertigem como se sua mente estivesse sendo torcida. Eva sentia vontade de falar, conversar, perguntar sobre o sol e sobre o que viu em suas visões, mas lhe faltava a coragem. Ela o olhou, seu rosto virado, seus olhos miúdos e cansados, o achava mais bonito sem barba, com certeza. Quando chegaram, Eva estacionou o carro na garagem da casa e desceu, jogando as chaves para Adão que pegou em um reflexo um tanto desastrado, a chave não ficava na mão, caia uma, duas até que na terceira vez ele a agarrou, quase no chão. Arrumou o cabelo e sorriu para Eva, que retribuiu o sorriso.

__Eu vou chamar um taxi e vou para casa. –disse já dando as costas- Até a próxima.

__Ei. –pigarreou- Anh… Não tenho piscina, mas quer, não sei, tomar um vinho?

Eva cruzou os braços e sorriu para Adão, que sorria de volta, um tanto sem jeito, um tanto cafajeste, ela não sabia se era o álcool ou se ele não sabia expressar um sorriso.

__Não é muito tentador para uma mulher passar a noite com um homem que estava beijando a boca de outra mulher.

__Ei, você não precisa beijar na minha boca! –sorriu e apertou o botão do controle na chave do carro, o portão começou a se fechar em um zumbido ritmado- Vem, já está tarde para pedir um taxi, eu tenho um excelente…

__Tarde? Mal são onze horas!

__Quarto de hospedes. –abriu a porta da garagem- Venha, quero te mostrar uma coisa.