Além de Kardashev

Gonçalo e Jorge estavam sentados no heliporto da petrolífera em alto mar. Observavam as ondas seguindo seu fluxo natural e esbarrando nas potentes colunas de ferro da petrolífera, que balançava gentilmente. Estavam no horário de almoço, era quente e suas marmitas faziam todo aquele lugar cheirar a arroz e bife.

Gonçalo era conhecido por não ser muito sociável, passava a maior parte do seu tempo com a cara enfiada em livros dos mais diversos assuntos. Jorge era a única pessoa que se interessava, ou na realidade, aturava, as conversas de Gonçalo, um homem alto, forte e um com uma mentalidade um tanto boba e fantasiosa. Jorge era tão forte quando ele, mas era centrado, tinha seus objetivos e tudo que pensava era em sua família que o aguardava em terra firme.

Normalmente Gonçalo falava sobre disco voadores, anjos, demônios, fadas, aliens e toda sorte de seres que não existiam, ou pelo menos, nunca havia sido provado sua existência. Mas naquele dia em especial, Gonçalo estava mais distraído, sua mente parecia não estar nem mesmo em seu corpo. Jorge o encarava entre mordidas no bife e colheradas de arroz branco quente.

– O que te incomoda tanto Gonçalo?

– Eu? Nada… Estava estudando ontem.

– Novidade.

– Sobre uma pessoa chamada Kardashev, um astrofísico russo, conhece? – Jorge meneou a cabeça em negação, mastigando lentamente – Bom, esse Kardashev fez uma espécie de escala. Essa escala dizia os vários tipos de civilização que poderia existir no universo, medidos pelo nível de capacidade de manipular e usar a energia.

Na cabeça de Jorge, várias imagens de filmes como Jornadas nas Estrelas e Star Wars vinham a mente.

– Tem a Tipo 1, que usa toda a energia possível no planeta, tem a tipo 2 que é capaz de usar a energia de uma estrela e a tipo 3 que é capaz de usar a energia de uma galáxia inteira! Imagine! Lemarchand disse “uma civilização capaz de usar todo o brilho da nossa Via Láctea”!

– Unh… Tipo o que? Luz?

– Não só luz, mas imagine usar a energia de uma estrela. Se já é energia demais, imagine de um quasar, continue imaginando de bilhões de estrelas e quasares!

– Quasar é aquele… Aquela… Aquele negócio que você disse uma vez que tem energia pra caralho?

– É, por ai. – respondeu em meio a um sorriso – Kardashev dizia que a civilização pararia aí pois são estrelas demais.

– Então nós ainda estamos em nível 1?

– Não, ainda não alcançamos nem o Tipo 1.

O coração de Jorge pulou uma batida, e ele nem mesmo soube o porquê de ter se admirado tanto com aquela afirmação.

– Uma civilização do Tipo 1 teria uma Eucumenópole – continuou Gonçalo, mal tocando em sua comida. – Uma Eucumenópole é uma cidade única, como se todo o planeta fosse apenas uma grande, gigantes metrópole.

– Impossível. – rosnou Jorge – Nunca conseguiríamos conviver dessa forma. Mal conseguimos com todas as fronteiras que nos protegem.

– Ou seria que nos separam? – sorriu, vendo o espanto de Jorge – Quem sabe todos nós, unidos em uma grande “Federação do Planeta Terra”, não seriamos bem mais unidos sem nossas fronteiras?

– Gonçalo… – respondeu sorrindo – Guerreamos por esse mesmo produto que ajudamos a extrair. Quem dirá se pudéssemos tirar a energia de uma estrela.

– Não Jorge, se conseguíssemos de uma estrela, seriamos Tipo 2, ainda falo da Tipo 1 e, no nosso caso, estamos ainda no Tipo zero ponto alguma coisa.

– É possível que alguma civilização do Tipo 2 exista?

Gonçalo coçou a barba, olhou para o céu azul sem nuvens e sorriu com os olhos brilhando de esperança.

– Eu não duvidaria se fosse você. – riu e voltou a atenção para a comida – Sabe… O trabalho de Kardashev foi continuado depois. Estudiosos e futurólogos começaram a teorizar civilizações acima da Tipo 3.

– O que seria?

– Bom, uma civilização Tipo 4, de acordo com Zoltan Galantai, seria, parafraseando, “uma civilização de tal magnitude tecnológica jamais poderia ser detectada por sociedades menos avançadas, pois suas obras seriam indistinguíveis de eventos naturais.”

– O que você quer dizer com isso? – disse um tanto nervoso – Seriam tipo… Deuses?

– Sim. Exatamente como deuses. Seres tão avançados, tão capazes que poderiam fazer qualquer alteração no universo. Criar e destruir galáxias inteiras, manipular, transformar, gerar e programar a própria vida.

– Besteira. Isso só Deus pode.

– Exato. Deus é de uma civilização Tipo 4.

Jorge engoliu seco e voltou a atenção ao mar. Sentiu-se tão efêmero e insignificante quanto o boi lhe proveu a carne para aquele almoço. Sentiu-se bobo por extrair petróleo, enquanto civilizações eram capazes de extrair energia de estrelas, galáxias e sabe mais de onde.

 – Mas isso tudo é uma grande teoria, não é?

– Sim. Mas entenda que, toda civilização de Tipo 4 seria irreconhecível a nossos olhos. Incompreensível até, assim como Deus o é.

Jorge parecia apreensivo, olhava para o céu como se algo dentro de si estivesse em guerra, e o lado que gosta estava perdendo. Gonçalo percebeu isso e tocou no ombro do amigo, com um sorriso tranquilo, continuou.

– Mas existe o Paradoxo de Fermi.

– E que diabos é isso?

– Bom, é algo que diz o seguinte, “Os aparentes tamanho e idade do universo sugerem que muitas civilizações extraterrestres tecnologicamente deveriam existir. Entretanto, esta hipótese parece inconsistente com a falta de evidência observacional para suportá-la.” – sorriu e apontou para o céu – Isso significa que os satélites lá de cima nunca pegaram nenhuma onda de rádio ou radiação capaz de comprovar a existência de alguma civilização do Tipo 1 ou 2.

– Ah… – suspirou aliviado e gargalhou – Você é meio louco Gonçalo.

Ficaram em silencio durante alguns minutos, onde Gonçalo finalmente voltou a atenção para sua comida. Enquanto estavam ali, Jorge absorvia tudo aquilo que tinha ouvido, ainda no balançar daquelas ondas, imaginava coisas que pegava da lembrança de filmes e series, montando suas próprias civilizações em sua mente, com naves espaciais, robôs e raios lasers.

Contudo, Jorge chegou a uma conclusão que o fez estremecer. Hesitou em verbaliza-la, tinha medo que Gonçalo concordasse com ela, mas uma das coisas que Jorge mais odiava era o tal do benefício da dúvida.

– Gonçalo, uma civilização tipo 3… – fez uma longa pausa, Gonçalo até mesmo voltou a comer – Assim, uma civilização Tipo 3 teria, ou melhor, seria capaz de passar desapercebida não? Tipo… Tipo que nem naquele filme, Matrix?

Gonçalo sorriu e meneando a cabeça em afirmação, seus olhos brilharam de orgulho. Porém o que ele disse fez o medo de Jorge se intensificar ainda mais.

– Sim, mas Jorge, as maquinas do filme Matrix são uma civilização do Tipo 1.

Não houve mais conversa naquela tarde. Jorge não conseguia mais formular ideias ou teorias. Tudo que dissesse poderia simplesmente ser categorizado. Seus paradigmas e crenças pareciam ter caído em um triturador de lixo. Era impossível. Tudo aquilo, simplesmente impossível.

No dia seguinte, Jorge não viu Gonçalo. Nem do dia posterior a esse, nem na próxima semana, nem no mês seguinte. Provavelmente, Gonçalo havia retornado a terra firme, contudo, ninguém sabia para onde ou que fim havia levado Gonçalo.  A memória daquele homem estava viva em apenas um livro que ele havia deixado, com uma dedicatória ao amigo Jorge.

 “Sei que não é muito fã de leituras longas e talvez até mesmo chatas. Mas leia, espero que ao invés de dúvidas e medo, faça é reforçar sua fé Nele. Com carinho, Gonçalo”.

O livro era O Universo Autoconsciente, de Amit Goswami.

 

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