Agentes da Balança -O vermelho e o prata-

Eva não viu Adão aquele dia. Na faculdade ou depois dela, preferiu assim, até lhe agradou não o ter visto. Pela manhã seu corpo não estava tão dolorido ou cansado, pela tarde já se sentia sem nenhuma diferença. Isso a agradou e, no fim da tarde, a aventura com Adão já parecia ter sido a muito tempo, uma lembrança distante.

Um misto de tristeza e alivio confundia seus sentimentos enquanto dirigia tranquilamente pelas ruas noturnas da cidade. Eram sete horas e o horário para visita no hospital em que Olavo estava se estendia apenas até as oito e meia. Lembrava da visão e de Locke, do armeiro e da espada, da Baldur e Hodur. Ficava imaginando, fantasiando até, o que Olavo poderia descobrir do véu que tampava os mistérios de suas visões, mas ainda assim, algo a deixava triste.

Seria o descaso de Adão?

Ou seria o medo de que nada daquilo fosse verdade ou não tivesse sentido algum?

Ficou no carro alguns minutos antes de sair ao estacionar, a lua mantinha o brilho da noite anterior, as nuvens contribuíam para um céu limpo e estrelado. A recepcionista que lembrava um canário lhe entregou um crachá de visitante, que Eva prendeu no vestido preto que usava, ia até os joelhos, sem detalhes, de um tecido fosco mas de um negro sem falhas.

Olavo estava mais corado, sua aparência débil ainda permanecia inalterada. Selene também estava lá, sentada na poltrona, lendo sem muito interesse uma revista de fofocas. Eva a cumprimentou rapidamente e foi até a janela, abrindo as persianas e deixando que a luz do luar entrasse no quarto.

__Olá Olavo! Está melhor?

__Até que estou, ao menos a febre está mais fraca.

__Que bom… –olhou para Selene que lia a revista com leves oleiras no rosto- Olavo… O que é Lunin Solza?

__Eu não sei. –apertou um botão na cama e ela começou a se inclinar para frente- Eu sei que esse nome vive ressoando na minha cabeça. Amanhã eu já vou receber alta e vou poder sair, vou atrás do que significa.

__Aí –Selene se intrometeu- Isso não é nada, você estava viajando na febre.

__Não, significa alguma coisa, eu sei e eu vou descobrir o que é. –Olavo olhou para Eva, estava simples mas linda ainda assim- E você Eva, o que acha disso? Por que o interesse?

 __A história é longa… –disse um tanto desconfortável- Mas eu não sei o que pode significar… Eu acho que, não sei bem, mas se você souber onde procurar, deveria dar uma olhada. Existe tanta coisa que não podemos explicar nesse mundo…

Eva ficou lá durante todo o horário de visitas e Olavo agradeceu profundamente a presença daquela mulher ali. Estava entediado, cansado e frustrado pela doença que o debilitava, ainda mais por não lembrar de nada do dia passado. Sabia que tinha andado, e muito, quase vinte quilômetros em baixo de sol quente e descalço. Os pés enfaixados incomodavam, as pernas doíam o tempo todo, a coluna parecia ter sustentado o peso do mundo nas costas. Receberia alta no dia seguinte, mas seu pai já havia comprado as muletas que teria de usar durante quase um mês.

Isso o entristecia, mas a presença de Eva parecia fazer tudo aquilo desaparecer.

Por Eva, sabia que faria tudo de novo.

Já era madrugada quando Olavo levantou da maca e caminhou lentamente até a janela. Estava sozinho no quarto, abriu a janela e se encostou na parede, respirando o ar da noite e deixando o luar lhe tocar a face. Fechou os olhos e sorriu, sentia-se revigorado ao estar ali, com os pés machucados doendo no chão, mas ainda assim, sentia como se uma força o alimentasse. Podia até contemplar o que era Lunin Solza, ela brilhava, era curvada e lembrava as terras árabes.

Quando Selene voltou para o quarto, viu Olavo sorrindo, ainda de olhos fechados. Ao seu redor uma suave aura esbranquiçada, alva como o próprio luar cobria todo seu corpo. Selene o olhou da cabeça aos pés, aquela aura também estava onde a luz não o tocava. A garota o guiou de volta para a cama, mas a imagem da aura que viu em Olavo ainda permanecia em sua mente, não sabia se era um efeito do luar ou se realmente alguma coisa diferente estava acontecendo com o irmão.

Em seus sonhos, Olavo caminhava em um deserto, sob o luar. Usava uma túnica amarela, pesada e, amarrado na cintura, estava um cinto de couro grosso, enrolado diversas vezes ao redor do corpo, onde Lunin Solza era carregada.

Já era sexta-feira e Eva ainda não havia encontrado com Adão novamente. Ele não havia ligado, a procurado na faculdade ou mesmo em casa. Eva praticava sua arte tediosamente, pintava um quadro onde copiava o seu celular, abandonado sobre a cômoda, tons pasteis e sombras deixavam o aparelho ainda mais triste, como se esquecido, como se esperasse por alguém. Nos toques finais, Eva sabia que era a ligação de Adão que esperava. Controlou a raiva e a vontade de destruir aquele quadro, esperando que aquela sensação fosse embora. 

Mas não o fez, sabia que a sensação não a abandonaria…

No fim de tarde de sexta, Adão experimentava duas braçadeiras, ajustando o couro e as presilhas no antebraço. Passou a semana inteira treinando e aperfeiçoando aquelas duas peças, até que se deu por satisfeito quando elas finalmente lhe serviram, ficando justas em seus braços. Fernanda havia chegado de viagem na quinta-feira, trazendo com ela uma boa quantidade de dinheiro pela venda dos quadros de Damasceno, comemoraram, fizeram amor, tudo como manda o figurino, mas Adão voltou para forja deixando Fernanda na cama, sozinha, até concluir seu trabalho. Era o que queria, e conseguiu.

Movia os braços para cima e para baixo, sentia o peso das braçadeiras, mas não o incomodava, conseguia se movimentar sem problemas. Como uma criança que fez um trabalho bem feito, correu até a sala e mostrou para uma Fernanda seminua no sofá, que assistia a um filme cult dos anos 70. Ela tocou o aço, avaliou o trabalho e o parabenizou com um sorriso e um beijo sincero. Eram realmente bonita as braçadeiras, o aço cromado refletia uma Fernanda desfocada e embaçada, mas não se esperava mais daquele material e ela sorriu ao se ver daquela maneira, sem uma forma definida.

Passou pela sua cabeça cortar os cabelos e usar um corte curto e militar.

Passou pela sua cabeça aqueles sóis estranhos que Adão desenhava sem parar.

Desviou o pensamento voltando para o sofá e o filme que assistia.

Banteng encarava Olavo de forma duvidosa. Tudo bem, sabia dos lacaios e o que seu pai lhe havia ensinado, mas para ele, Olavo era franzino e doente demais para suportar o que estava por vir e, levando em conta a veracidade dos acontecimentos, seu oponente o esmagaria como uma uva entre os dedos. A caixa em que Lunin Solza repousava estava sobre o balcão, a loja já fechada, Olavo curioso não conseguia conter o nervosismo enquanto Banteng ponderava se realmente lhe entregaria aquele objeto.

__Posso pelo menos ver o que é?

__Não. –respondeu cruzando os fortes braços sobre o peito- Já disse, espere meu pai sair do armazém.

__Mas ele já está lá a horas!

__Você está aqui a menos de meia hora. Controle-se! Você nunca nem a viu? Nem em sonhos?

__Não. Sei que eu a carregava em um deserto, mas não a vi, não sabia o que era. Mas só posso imaginar que seja uma…

__Banteng! –disse o armeiro, o corpo encurvado saia sem esforços da pequena porta- Se ele disse o nome, ela pertence a ele! Por quê hesita?

__Olhe você mesmo para ele, pai. Não sei nem mesmo se o homem consegue levantar uma arma!

__Uma arma? –Olavo arregalou os olhos, depois voltou a encarar a caixa- É uma arma?

O armeiro pegou a caixa de madeira velha e a abriu, revelando uma cimitarra, uma espada de lamina curva, com uma empunhadura de couro vermelho. Sua lamina era lustrosa, refletia bem os olhos de Olavo, cansados e fundos, mas surpresos e admirados. Era uma espada, era uma arma e parecia bem afiada.

__Lunin Solza… –tocou a empunhadura, deslizou os dedos e depois a segurou com firmeza- É a minha espada!

__Sim, é. –Banteng observava bem aquele momento em que Olavo se perdia em admiração pela arma- E o que você vai fazer com ela?

__Isso não é da sua conta Banteng. –disse com rispidez o armeiro- Deixe que o homem siga seu destino. Não esqueça de devolver quando terminar.

Olavo pode sentir a areia nos seus pés, o vento gelado do deserto, o peso e a dormência no braço de incontáveis combates. A experiência do manejo daquela arma parecia ser apenas uma memória latente que agora estava totalmente desperta, como se sempre soubesse como brandi-la. Sabia quem era o seu inimigo e não importava o porquê.

Era por ela que lutaria, por Eva.

Adão ainda estava com as braçadeiras quando Fernanda saiu para mais um evento, ainda viu Olavo chegando a pé, carregando uma caixa de madeira velha debaixo do braço. Se cumprimentaram se seguiram seus caminhos.

Tocou a campainha um tanto nervoso e logo foi atendido por um Adão sorridente, de braços abertos que pediu que entrasse. Levou Olavo até a fornalha e vestiu as braçadeiras molhadas de suor para mostrar para o amigo. Ele por sua vez abriu a caixa e pegou a espada.

__Opa! –disse Adão surpreso- Onde arranjou essa arma?

__Ela é Lunin Solza. –disse refletindo a luz da lua em sua lamina- E você… Você é o mal que macula a noite.

__Anh… –Adão o olhou sem entender- Desculpe?

__Você é o inimigo da noite Adão!

__Ei! Se você está bravo comigo por que eu transei com a Eva… Cara, isso não é motivo para…

Adão esquivou do primeiro e do segundo golpe, Olavo brandia aquela espada como se já estivesse acostumado com ela, a precisão dos seus golpes surpreendeu seu adversário. Pego desprevenido, Adão não sabia como lidar com a situação, apenas pensava no que poderia estar acontecendo.

__Ei Olavo! Pare com isso! Que porra é essa?

Olavo atacou novamente, descendo a espada sobre Adão. Ele defendeu com a braçadeira, sentiu o impacto no braço, o peso do golpe. De onde aquele homem fraco e doente conseguia toda aquela força? Pensou quando defendeu mais um golpe, a lamina zunindo e vibrando pelo golpe no aço.

__Olavo, não sei que porra você está fazendo, mas eu vou ter que quebrar sua cara se você não parar com…

Olavo deu uma estocada com a espada, acertando de raspão na lateral do abdômen de Adão. O sangue escorreu sem pressa, a dor latejou em aviso. O homem pôs a mão e viu o sangue nos dedos, seu inimigo não sorria, mal esboçava alguma expressão. A lamina da espada estava linda, brilhante, sem uma gota de sangue.

__Foi só um arranhão… –disse para si mesmo, assustado- Mas que porra…

Um golpe o pegou de surpresa, Adão defendeu com os braços juntos sobre a cabeça e, depois do impacto, perdeu o equilíbrio, dando passos trôpegos para trás até que bateu as costas na fornalha quente. Por sorte não se queimou, mas encontrou um martelo no alcance da mão. O pegou e ameaçou dar um golpe no amigo, que não recuou, apenas parou, o olhando, como um caçador esperando o movimento da sua presa.

Adão já havia visto aquela lamina, podia ter certeza que sim.

__No início minha mestra reinava soberana, linda em sua paz primordial. Por que você decidiu pôr um fim a isso?

__Eu não sei do que você…

Desviou de um golpe que teria lhe custado o braço, a lamina bateu na forja e arrancou uma lasca de concreto. Adão tentou golpear mas o martelo era pesado, estranho, não conseguia conter a investida que fez, era muito desengonçado com aquilo. Olavo esquivou sem dificuldades e em um contra ataque, acertou um golpe em seu peito. Lunin Solza cortou fundo, o sangue verteu com vontade e empapou a camisa rapidamente.

Empalideceu, o suor escorria de sua testa pelo seu rosto, estava com medo. Olavo estava certo do que queria e deixou bem claro neste golpe. Via aquele que era seu amigo ali, os pés ainda enfaixados, o corpo franzino, o rosto sem expressão. Queria ver um sorriso, queria que ele se preocupasse e dissesse desculpas, que foi longe demais.

Mas não aconteceu.

Adão parou e manteve o martelo levantado, esperando o próximo ataque, mas parecia que Olavo havia adquirido uma experiência em combate fora do comum. Ele descansou a espada abaixando o braço, relaxando os músculos e a tensão, ao contrário de Adão, que forçava o braço a segurar o martelo e começava a se sentir tonto.

__Por que você não brilha? –disse Olavo o encarando- Vê? Estamos sob o véu de minha rainha, você não pode…

__É, eu não posso. –disse e abaixou o martelo- Puta que pariu, acho que você vai me matar mesmo… E tudo por causa de uma boceta.

__Ainda zomba? –sorriu-

__Rainha, mestra, que porra idiota… É só mais uma boceta que comi e pronto. Levei duas facadas por isso? –riu- Quer saber Olavo? Você sempre foi muito frouxo para conseguir alguma mulher. Você é o marmita, sabe que é. Esquenta para os outros comerem.

__Vou acabar com sua vida de uma vez. –aprontou a espada e a girou- Vou arrancar seu coração em nome de…

Adão investiu em uma corrida desesperada, Olavo apenas sorriu, preparado para lhe  dar o golpe de misericórdia assim que chegasse mais perto.

Mas ele não chegou.

Adão arremessou o martelo parando a poucos passos do alcance da espada e Olavo. Ele tentou desviar, mas estava muito próximo e ainda assim o acertou no ombro, esmigalhando os ossos da clavícula, do braço e algumas costelas. Ele caiu no chão e a espada foi atirada longe.

__Puta que pariu… –disse Adão ofegando e segurando o corte no peito que ainda sangrava- Acho que matei… –Olavo se levantou com apenas um braço, o rosto com uma expressão clara de dor- Ah, graças a Deus.

Olavo correu curvado, sem jeito até a espada e Adão de volta a forja, pegou outro martelo, ainda maior e mais pesado. Sentiu o peso, deu dois golpes no ar e o segurou com as duas mãos. Agora sim, pensou, esse vai servir.

Olavo balançou a espada com o outro braço, mas não conseguiu o resultado que esperava. O ombro quebrado inchava e o braço pendia mole, imóvel.

__Vai embora cara. –gritou Adão- Seu louco! Vai embora daqui!

Ele resmungou alguma coisa e correu até a caixa de madeira, pegando com dificuldade e saindo pela mesma porta que entrou. Adão correu até a porta e ainda pode ver ele dobrando a esquina, correndo de forma esquisita, quase sem se importar com a dor no ombro. Bateu a porta e a trancou, ainda sangrava, mas sabia que o corte não era assim tão profundo.

Ligou para Rodrigo, mas não foi atendido. Não queria ir para o hospital, nenhum médico ia cair em uma conversa fiada vendo os dois cortes. Não podia incriminar Olavo, acreditava que o amigo estava febril, doente, que a doença que a tanto ia lhe degenerando finalmente havia lhe atacado a sanidade.

Ligou novamente, sem resposta. Pensou em quem ligar, Fernanda iria carregá-lo direto para um hospital e que se fodesse Olavo, ele era mais importante e a vítima ali.

Riscou o nome de Fernanda.

Ligou então sem muita vontade, não era o número que queria discar, mas era o único que poderia contar naquele momento.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s