Agentes da Balança -O dia de Eva-

Eva acordou ouvindo a porta do quarto se fechar, mas continuou embaixo do edredom, estava confortável demais para se mexer no frio que aquele ar condicionado conseguia fazer. Depois sentiu um cheiro gostoso de ovo frito e suco de laranja. Tirou a cabeça para fora da coberta e viu Adão com uma pequena mesinha, apenas de bermuda, carregando um café da manhã que consistia em um sanduíche e um copo de suco de laranja. Eva sorriu corada e sentou, ajeitando os cabelos da melhor forma possível. O homem sorriu de volta e pousou a mesinha sobre as pernas de Eva.

__Aqui. –disse e lhe beijou a testa- O sanduíche tem um ovo frito, queijo prato, peito de peru… Tem um sache de açúcar, não sei se gosta com ou sem o seu suco.

Ela sorriu e pegou o sanduiche com as duas mãos, dando uma gostosa mordida e sorrindo como uma criança. Adão ligou a pequena televisão sintonizada em um canal musical e sentou ao lado da mulher, os olhos fixos na TV.

__Você… –tomou um gole de suco e continuou- Você faz isso com todas as mulheres que dormem com você?

__Quase todas. Apenas das que eu gostei. –sorriu e a olhou, ela sorria sincera, mastigando mais um pedaço do sanduiche- Na maioria das vezes em que isso aconteceu na minha casa, e que eu tive tempo, eu fiz sim. Não vejo por que não.

__Teria feito para a peituda daquela mulher na piscina?

__Não a teria trazido para casa. –suspirou e deitou, a cabeça alta pelo travesseiro- Já são quase dez horas.

__A faculdade! –Eva quase engasgou-

__Esquece. –sorriu carinhosamente, como um pai que deixa a filha fazer algo errado- Bebemos muito ontem, sem chance de assistir uma aula direito hoje.

Eva terminou o café da manhã e deitou ao lado de Adão, o abraçando. Alguns beijinhos, algumas caricias e acabaram se amando uma terceira vez.

Adão fazia o almoço, Eva o assistia com um sorriso no rosto. Se sentia um tanto sonolenta, porém muito, muito satisfeita e realizada. O cheiro da comida estava ótimo, Adão se movia com agilidade pela pequena cozinha, pegava um ingrediente aqui e ali, não usava processadores, descascava e picava tudo com uma faca fina e bem amolada.

__Você se importa se eu tomar uma taça de vinho?

Adão cravou a faca na tábua e, dois passos depois, apanhou uma garrafa de vinho fechada, olhou o rótulo, a devolveu e pegou outra, a abrindo e servindo para a mulher, sem deixar uma só gota pingar do bico, depois serviu uma taça para si. Eva sorriu surpresa e agradecida, Adão parecia um ótimo homem para se ter, mas ela sabia, com absoluta certeza, que aquele homem tão bom era um homem de ninguém.

Desencana Eva. Ele é assim mesmo. Você pode até fisgar esse homem, por um tempo.”

Eva tomou seu vinho um tanto sem se importar para esse fato, um tanto triste. Ele estava ali, jogando cebola e alho na frigideira, assobiando baixinho, vez ou outra sorria para Eva, falava alguma coisa, dava um pedacinho de carne ou um pedacinho da berinjela à milanesa em sua boca, seguido de um beijinho ou um cafuné. Se sentia mimada, era bom, tinha paz nas mãos fortes daquele homem.

Não se entregava demais, segurava o coração, não se permitiria se apaixonar por aquele homem. Ela o observava, as mãos ágeis preparando um almoço para dois, sem pressa e com muito capricho. Pensava se cozinhava assim o tempo todo, ou se era apenas uma qualidade dele, ser caprichoso em tudo.

O celular de Eva tocou, ela o olhou sem animo imaginando quem poderia ser para estragar aquela manhã tão gostosa que estava tendo. Viu no visor o nome de Selene e pôs no silencioso, suspirando aliviada por não ser nada importante. Adão não perguntou quem era, continuou fazendo o almoço e bebericando o vinho. O celular tocou novamente e ela o desligou.

__Pronto, ninguém vai me incomodar hoje. –disse sorrindo-

__Aqui. –Adão pegou a garrafa e completou a taça da mulher- Vou desligar meu celular também, quer passar o dia aqui?

Eva sorriu surpresa e contente, mas não expressou tanto contentamento, pelo contrário, se pôs em uma posição superior, como se ele que precisasse de sua companhia, não ela a dele. Ela fez que sim com a cabeça, o sorriso fino ainda na boca da taça. Adão era péssimo jogador de poker, mas de mulher ele entendia muito bem, sabia que ela estava se sentindo nas nuvens depois desse convite.

Adão enxugou as mãos e pegou seu celular, no momento que o ia desligar, seu celular tocou, era Selene. Ele ignorou e também desligou, deixando sobre a mesa. Imaginou quantas ligações perdidas teria no final do dia quando o religasse, no mínimo umas cinco do seu trabalho, umas duas de Olavo ou Rodrigo e uma cinco ou dez de Fernanda. Isso se Fernanda o ligasse hoje. Sorriu se sentindo livre por esse pequeno ato.

__Sabe o que vou fazer? Vou fechar a casa toda, vou ligar o ar condicionado central, vamos assistir uns filmes no pay-per-view… –sorriu e comeu um pedaço da berinjela, tomando um gole de vinho em seguida- Vamos ter um dia só nosso, vamos nos conhecer e conversar sobre aquelas… Essas coisas estranhas nossas, unh? Que tal?

__É.. Dá pro gasto. –disse brincando- É uma ótima ideia Adão. –se levantou e lhe beijou os lábios, depois deu uns tapinhas em seu peito- Continue com seu almoço, eu fecho a casa para você, onde liga o ar?

__Ali. –apontou com a faca na mão- Ao lado da televisão, na sala.

Ela fez um sinal de positivo e piscou para ele, indo em passos tranquilos com sua taça na mão. Adão ficou um momento com seus pensamentos, só tinha feito o que faria hoje com duas mulheres. A primeira foi sua namorada por seis meses, seu nome era Magda, uma mulher alguns anos mais velha, de curvas lindas e perfeitas. A segunda, foi Fernanda… Balançou a cabeça sorrindo, tirando as imagens da mente. Hoje era o dia de Eva, e nenhuma outra mulher poderia estar em seus pensamentos.

Olavo cambaleava, se apoiava na parede e em postes. Caminhava descalço em tropeços pelas ruas da cidade, estava quente, seus cabelos loiros grudados no rosto pelo suor, sentia-se péssimo, tonto, mal sabia para onde ia. Os pés iam sozinhos, ardendo, queimando, ele apenas tentava se controlar, não cair. Algumas pessoas passavam, umas o ignoravam, outras tentavam lhe ajudar. Ele recusava, as empurrava, grunhia palavras que ninguém entendia e acabavam deixando ele seguir seu caminho. Perdido, olhou para o sol que castigava aquela cidade, seu calor estava insuportável. De tão quente, começou a sentir calafrios, estava com febre, o corpo tão fraco que lhe doía cada passo.

Bateu com força a porta de uma loja, a abriu em um estrondo onde a sineta balançou com violência. Se apoiou em um estande que mostrava iscas de pesca de várias cores, em plumas. Aquelas cores se mesclavam, fundiam, rodopiavam. Olavo levou a mão na boca quando sentiu o vomito lhe assaltando a garganta, mas conseguiu se conter, o suor pingava no estande em gotas rápidas. Um homem negro e alto notou o que acontecia e se aproximou, Olavo levantou os olhos e o encarou, não conseguia ver direito, queria dizer alguma coisa, mas nada saia.

O homem se aproximou mais, ele pode ver que era jovem, uns vinte anos, cabelo crespo e cheio, acompanhado de uma barba bem cuidada e fechada. Usava um par de brincos em argola, pequenos e prateados. Foi tocar o ombro de Olavo, dizer alguma coisa, mas ele bateu em sua mão e caminhou para o balcão. Limpou o suor da testa e olhou ao redor, tinha várias varas de pescar a mostra em um estande improvisado de um cabideiro. Suas cores eram vivas, os molinetes brilhavam mais que o normal.

Olavo viu um homem mais baixo, mais velho, um tanto curvado. Era negro como o rapaz, mas seus cabelos eram brancos e suas mãos enrugadas, de unhas rosadas. Ele se aproximou do rapaz doente e chamou o outro homem, para que se aproximasse.

__Qual seu nome meu filho?

__O… O… –tentava falar, mas arfava, encontrava dificuldade em formar as palavras- O… Ola… Ola…

__Banteng, pegue uma cadeira para esse rapaz. –disse falando para o outro rapaz, que rapidamente pegou uma banqueta, onde Olavo sentou- E traga um copo d’agua também.

__Olavo… –disse por fim, tão zonzo que não se lembrava mais onde estava- Olavo.

__Olavo, sim, tudo bem. –o velho pegou um copo d’agua que Banteng trouxe e lhe entregou- Me diga Olavo, o que aconteceu com você?

__Lu… –tossiu ao beber a água, olhou para os lados, procurando alguma coisa- Lu…

__Lutou? –indagou Banteng-

__Não. –respondeu o velho em tom sério, encarando Olavo-

__Luni… Luni so… –Olavo tentava, as palavras se formavam de forma lenta nos pensamentos, escorriam como tinta recém pintada- Luni so…

__Lunisô? –Banteng foi ao lado de fora da loja, olhou a rua sem movimento e voltou- Lunisô? Pai, o que significa isso?

__Não é Lunisô Banteng. –o velho se agachou em frente a Olavo e o olhou nos olhos- É um nome, não é garoto? Se acertar o nome dela, ela é sua.

__Ele é um… –Banteng olhou surpreso-

__Não meu filho. –respondeu antes que terminasse, a cabeça baixa- Ele é apenas um lacaio.

__Lac… Laca…?

__Não Olavo, se concentre no nome. –disse o velho, estalando os dedos na frente de seus olhos- Vamos, concentre-se!

Olavo fechou os olhos com força, as mãos pressionando as têmporas. Sentia uma dor excruciante entre os olhos, no centro da testa. Segurou a cabeça com duas mãos, sentia o suor frio, os cabelos molhados. Banteng olhava sério, mas preocupado com o rapaz que parecia sofrer tanta dor.

__Pai. Sei que você está sempre certo, mas não seria melhor chamarmos uma ambulância?

__Não Banteng, esse é o destino de Olavo. Se jogássemos dez vezes os búzios, dez vezes nos diriam a mesma coisa.

__Lunin! –disse em um rápido momento de clareza- Lunin Solza!

__Lunin Solza. –confirmou o homem, antes de Olavo desmaiar-

Quando acordou, estava em outro lugar, sentado em um banco de madeira, sentia o corpo molhado de suor, a pele ardendo de queimaduras pelo sol. Ele estava em seu ápice, deveria ser quase três horas da tarde. Mais são e lucido, levantou e começou a caminhar, procurando a saída daquele lugar. Era verde, para todos os lados que olhava, verde, bonito, exuberante, uma amostra de como a natureza era bela em seus tons mais simples. Mas Olavo não percebeu nenhuma daquela beleza que o rodeava, seu estomago estava fraco, sentia fome, sentia dores e ardor por todo o corpo, a febre ainda não tinha o abandonado, pelo contrário, parecia pior. A única coisa que amenizou foi a intensa dor de cabeça.

Não conseguiu sair do parque, contudo. Andando por uma trilha, a fraqueza lhe venceu. Sentou para descansar, recuperar as forças. Então ficou sonolento, e cada vez mais, seus sentidos iam lhe abandonando, até que apenas uma completa escuridão lhe fizesse companhia.

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