Agentes da Balança -Visões-

Primeiro foi a visão em um pequeno espelho em dedos finos e delicados, seus olhos eram como as aguas do caribe, azuis, verdes, difícil dizer, ficava naquele tom que lembrava as praias paradisíacas das propagandas de turismo. Seus olhos eram emoldurados por um óculos de armação fina, vermelha e retangular. Seu rosto era fino, branco, avermelhado pelo frio, seus cabelos eram curtos, loiros e lisos. Ficava difícil dizer se era uma mulher com rosto masculino ou um homem de rosto afeminado, sua androgenia era muito marcante, mas conseguia ser bela, ou belo, ainda assim.

Os dedos finos deixaram o espelho de lado após alguns toques no cabelo e apanharam um lápis amarelo, a borracha vermelha do topo gasta e redonda. Estava em uma sala de aula, bateu tediosamente o lápis contra um caderno rabiscado, cheios de desenhos de roupas, vários mantos e capas, sobretudos e capuzes. Olhou pela janela, nevava, os rostos dos alunos se confundiam, não havia foco, como bonecos, manequins em uma loja de roupa. Ele ainda olhava, ou ela, a neve cair sem vontade, plainando no ar até finalmente cair.

Apoiou, entediado(a), o queixo sobre a mão e continuou encarando a janela, prestando atenção a uma árvore sem folhas, cinza, que era parasitada por um grande tufo de visco. Sorriu, mordeu a ponta do lápis e o manteve na boca, balançando-o com a ponta da língua. Ouvia-se um professor dizendo algo, incompreensível, parecia nada, coisa alguma, um som distante de uma conversa fiada. O tufo era de um verde exuberante, vivo e saudável, entrava em contraste com um céu azul que de tão puro parecia o céu das histórias sobre o paraíso.

Mas para quem via com tamanha atenção aquele visco, para ela, ou ele, aquele tufo era uma coisa tão triste, uma planta que precisa de outra para sobreviver, grudada, presa, se alimentando e crescendo, quase como um câncer. Um câncer vegetal, poderia ser.

__Locke! –disse em voz alta aquela vozinha tão monótona-

Os olhos da cor das aguas caribenhas encarou uma forma embaçada, que se focava lentamente em um rosto velho, marcado pelo tempo, de cabelos e barbas pretas. O homem voltou a falar sobre alguma coisa no quadro, algo sem importância e logos os olhos oxalés* se voltaram para o visco e seu brilho verde daquela manha fria.

Locke tirou o lápis da boca e escreveu seu nome, diversas vezes, naquela folha em que desenhava. Escrevia por cima das roupas, das capas, dos mantos… Locke, Locke, Locke, tantas vezes que cobriu toda a página. Um garoto ao seu lado via tudo aquilo curioso, com um sorriso bobo mas simpático. Locke sorriu de volta e, de todos os rostos sem detalhes, aquele era o que mais chamava a atenção. Era um rapaz de rosto redondo, cabelo de um castanho tão claro que era confundido com um ruivo. Seus olhos brilhavam, pareciam duas bolas de gude escuras. Uma barba rala que mais parecia uma penugem lhe cobria os lábios e o queixo em um cavanhaque descuidado. Não tinha mais que vinte anos.

__Ei Locke… –o garoto disse e se apoiou sobre a cadeira, para ficar mais próximo- Você está bem? Parece tão… Fora de orbita ultimamente.

__Não ligue Baldur. –disse Locke com uma voz muito fina para ser masculina, muito grossa para ser feminina- Essa aula parece não acabar nunca. –o lápis voltou para a boca, os olhos para o professor- Com licença! Preciso ir ao toalete. –se levantou e ajeitou o cachecol ao redor do pescoço-

O professor fez um sinal para Locke, que aproveitou a deixa e saiu da sala, parou do lado de fora, Baldur acompanhava seus passos com os olhos. Locke piscou para ele e tirou um maço de cigarros do bolso, saindo dali e caminhando, lenta e tediosamente, sobre a neve que lhe cobria até o tornozelo. Com passos vagarosos, deu a volta em todo pavilhão de salas e foi até a árvore sem folhas, onde o visco repousava em um dos seus galhos mais altos. Deu uma tragada longa, os olhos grudados naquelas folhas exuberantes acima da sua cabeça.

__Um dia… –olhou para a janela de sua sala e pode ver Baldur, com o mesmo sorriso, assistindo a aula como se fosse uma das coisas mais interessantes do mundo- Um dia… –tragou e cerrou os olhos- Um dia ainda mato aquele cara. –sorriu e jogou a guimba na neve, acendendo outro em seguida- Filho da puta…

Baldur levantou a mão, disse alguma coisa e foi seguido de aplausos da turma e do professor, pode ouvi-los de longe, o garoto sorria acanhado, se levantou, fez uma reverencia em agradecimento e voltou a sentar. Um sorriso cínico e sombrio brotou dos lábios de Locke, olhando aquela cena.

__Um dia eu ainda te mato. –apontou para Baldur, os dedos como um revolver- Imagino se vai continuar sorrindo, depois de morto.

A visão congelou como um filme pausado, escureceu e derreteu. No escuro ouviu-se um barulho de isqueiro, tic-tic, e um lampião ascendeu, iluminou um corredor empoeirado, de madeira, tão pequeno e cheio de objetos que transmitia uma sensação claustrofóbica. Uma mão negra, enrugada e de unhas rosadas segurou o lampião e levantou na altura de um rosto velho, negro, de olhos avermelhados e um cabelo crespo, branco, em um corte arredondado como um pequeno “black power”. O rosto sorriu quando a luz o tocou e olhou ao redor, procurando, os dedos passando sobre empunhaduras empoeiradas e bainhas, até mesmo por uma katana em um suporte de ébano. Uma mão forte lhe segurou o ombro, o homem deu dois tapinhas naquela mão e disse em uma voz rouca, poderosa e de sotaque carregado.

__Presa aqui e você não irá encontrá-la. Há muitas como ela, mas como ela, não há nenhuma. –sorriu e continuou- Essa espada que procura, por quê agora?

__Por que? É a nossa vez. –disse uma voz masculina, grave, por trás do homem- Ela está aqui, você tem certeza?

__Claro que tenho, eu sou o armeiro a mais de cinquenta anos. Herdei do meu pai, meu pai do meu avô… –tossiu, o lampião balançou e a luz projetou sombras que pareciam pequenas pessoas dançando nas caixas e paredes- Você sabe de toda a história, por que então está com tanta pressa. Unh… –coçou o rosto e levantou o dedo para cima, sorridente- Ah já sei! Não gosta daqui não é? É… Meu pai, que o Barão Samedi o guie, sempre me falava sobre vocês, o povo branco, as suas culturas e seus deuses e toda sua importância. Sabe bom homem, ser o armeiro é muito interessante.

O homem pegou uma katana e a desembainhou, mostrando uma lamina suja e marcada de um sangue seco, preto e grosso pela sujeira e pó acumulado. Pousou o lampião e deixou a lamina próxima a claridade, o brilho passou da empunhadura a ponta.

__Não podemos limpá-las, não senhor. –apontou o sangue e sorriu, os dentes perfeitamente brancos- Olhe só aqui, de quem é? É de um japonês, pelo que eu soube. Pelo que me contaram, sempre me contam, suas histórias e essas coisas… Mas vai ficar aí, até o próximo vir usá-la. Você sabe, não sabe? Você não vai poder pegá-la, só ele.

__Eu sei disso armeiro. –uma mão surgiu na escuridão e gesticulou- Vamos continuar, quero ter certeza de que está aqui. Eu o enviarei para buscá-la no tempo certo.

__E ele virá? –riu de boca fechada, com uma tosse contida- Não tenha tanta certeza meu jovem guia. O crepúsculo de todos nós pode estar aí, acontecendo, e nem mesmo sabemos.

A mão tocou seu ombro novamente, o armeiro virou e encarou o rosto do homem. Um rosto branco, ruivo, barba a fazer. Seus olhos azuis safira brilharam na escuridão e ele disse, sério, a voz saia firme e decidida.

__Eu sou o crepúsculo.

O armeiro arregalou os olhos em espantou, sentiu o queixo cair mais logo fechou a boca e sorriu, voltando a procurar a espada. Parecia que sabia exatamente onde ela estava por quê, depois desse momento, levantou a mão sobre uma estante e pegou uma espada longa, embainhada. A empunhadura era toda feita em ouro, grossa em forma de T, enrolada por um couro negro e seco. Sua ponta era adornada pelo símbolo do sol, grande e brilhoso, com quase dez centímetros. A poeira parecia desviar do símbolo, estava impecavelmente dourado.

__Eu tenho um filho, rezo para que os Loa sejam bons com ele. –disse o negro, pousando a espada de volta sobre a prateleira- Eu não sei, e não é para eu saber, quais são seus planos ou o que vai acontecer, não senhor. Meu filho já sabe do arsenal, sim, já tem dezoito, vai herdar. Homem forte, pau grande como o do pai. –riu, a tosse contida- Grande, parece um cavalo, que varão ele é!

__Estou orgulhoso de você armeiro. Nunca imaginei que vocês realmente tê-las-iam.

__Tudo bem homem. –a risada continuou, a tosse venceu- Tudo bem… Esse é o nosso trabalho. Mas, se me permite, vou lhe confessar uma coisa. –girou o corpo e gesticulou para que seguisse na frente- Vamos sair daqui primeiro, sei que não gosta. Já sei qual deles você é. Claro que sei.

Com passos trôpegos, o homem alto foi na frente, o armeiro iluminava o caminho, o seguindo e o empurrando as vezes. Quando abriu a porta, o homem apagou o lampião e o prendeu em um gancho atrás da porta, a luz do dia entrava no aposento, a poeira dançava como as sombras. O homem não percebeu, mas o armeiro passou os dedos pelas figuras, sorrindo.

__Vou lhe confessar e depois você vai embora. Tenho medo que o filho do filho do meu filho não se importe mais com o arsenal. Sei que o varão vai herdar, sim, e seu filho também… Mas a terceira geração depois de mim…

O homem se virou, o blazer esportivo branco e justo tinha pequenos pontos de poeira pousada. Segurou os dois ombros do armeiro e sorriu, acolhedor. Deu-lhe dois tapinhas no rosto e respirou fundo, olhando a loja de pesca, a fachada para o arsenal.

__Como você mesmo disse, não é para você saber. –concluiu- Só posso lhe dizer que o seu trabalho está completo.

__Não está. –a risada, a tosse- Todos dizem isso, mas sei que só vai acabar quando eu morrer e o varão do meu filho me sepultar para o Barão da Cruz.

__É verdade armeiro… Ele virá buscar a espada. Estou certo disso.

__Você sabe? –disse o acompanhando até a porta- Essa daí, quantos anos tem?

__Há alguma coisas que não é para eu saber, também. –sorriu complacente- Sei que ele irá perguntar, responda para ele, ele vai saber.

__Ah se vai. –tossiu e riu, riu e tossiu- Maldita poeira…

Novamente, o filme foi pausado, a imagem derreteu e deu lugar a um homem saindo da juventude, vinte e um, seus cabelos castanhos escuros, longos, preso em um rabo de cavalo, a barba perfeitamente raspada, sem um só pelo. Era um homem lindo, rosto quadrado, sereno, olhos fechados. Estava em pé, uma roupa pesada e branca lhe protegia do frio. Tinha um arco de caça preto nas mãos, pequeno, de tão moderno parecia ter saído de um filme de ficção cientifica. Puxou a corda, as rodas giraram, a flecha foi armada.

Quem assistia se encostou na mureta de madeira que dividia os arqueiros do campo de disparo. O alvo estava a mais de cem metros, os braços rechonchudos se apoiaram na madeira fria, a jaqueta marrom pesada fez um ruído agudo ao roçar dos braços.

__Baldur. Sem, barulho. O que eu lhe disse? –aliviou a tensão da corda e abaixou o arco-

__Desculpe, desculpe… Pode continuar.

Via o homem pelos olhos de Baldur, que ficou imóvel depois da bronca. Novamente puxou a flecha e atirou. Ela voou veloz, firme, em um arco. Subiu, desceu e acertou o alvo. Baldur pegou o binóculos que estava pendurado ao pescoço e olhou onde a flecha havia acertado.

__Errei. –disse o homem- Acertei na faixa azul.

__Sim. –disse Baldur com um sorriso- Errou o centro, mas acertou na segunda faixa azul. Ainda não sei como consegue fazer isso sem enxergar Hodur. É incrível!

__Obrigado.

Hodur pegou outra flecha e atirou novamente, sem parecer mirar, os olhos fechados. A flecha voou e acertou no centro, fincando com firmeza. Baldur largou os binóculos pendurados e aplaudiu vigorosamente.

__Hodur! –e os aplausos não cessavam- Hodur! –e o homem de olhos fechados sorria, contente- Hodur!

Eva estava por cima de Adão, ainda sentada em seu membro. Se olhavam nos olhos, atônitos. Toda a visão que tiveram não durou mais do que alguns segundos. Ele despertou após sentir o liquido quente escorrer pelo seu membro, chamou Eva pelo nome, que piscou algumas vezes e desviou o olhar, até um tanto envergonhada depois do gozo e se levantou, indo ao banheiro.

O homem sentou na cama por um momento e passou as duas mãos no rosto, respirando fundo, ainda ofegante, as imagens que viu estavam frescas na memória como um filme. Eva tomava banho com a porta aberta, ele a olhou, sua linda silhueta pelo box de vidro acidado.

__Adão! Venha tomar um banho comigo. –disse uma Eva que parecia perfeitamente normal, sua voz nem ao menos parecia bêbada- Venha…

Ele abriu a porta do box e Eva sorria embaixo do chuveiro, os cabelos presos sobre a cabeça para evitar de serem molhados.

__Não se preocupe. –disse Eva quando ele entrou e o puxou para baixo do chuveiro- Eu tomo anticoncepcionais. –olhou por um momento o homem e lhe deu um abraço rápido, voltando a se lavar depois- Você viu?

__Sim. –disse exalando todo o ar dos pulmões- Locke, o garoto Baldur, o armeiro, Hodur…

__Eu vi a mesma coisa. Locke é um homem ou uma mulher?

__Bem… –Adão sorriu- Se for homem, é bem afeminado com aquele óculos e aquela voz.

__Verdade. Eu não gostei do que vi no armeiro. Sua espada.

__Minha espada? –apanhou uma toalha e entregou outra para Eva- Como sabe que é minha?

__Eu sei que é! –Eva se enrolou na toalha e saiu do banheiro, acompanhada de Adão- Eu sei que é, aquele símbolo… Aquele maldito símbolo!

__Ei, calma. –Adão a abraçou, ela relutou um momento e depois retribuiu- Eu não sei o que essas visões significam, mas não precisa se preocupar.

__Você vai perfurar meu coração com ela, e depois?

__Ei! Eu não vou perfurar seu coração! –Adão ia leva-la para a cama, mas estava suja de suor e sêmen- Eu não sei nada disso e mesmo que, por alguma razão, eu tenha alguma visão, eu não te machucaria, ainda mais matar você… Na primeira visão, eu não tinha espada alguma. –sorriu, tocando o rosto da mulher, que sorriu de volta- E você, vai atirar em mim?

__Só se for preciso.

__Venha, depois troco esses lençóis, venha dormir na minha cama.

Adão a levou para o quarto, sua cama de casal que tantas vezes se deitou com Fernanda e a amou. Viu Eva se deitar, nua, e puxar o lençol para se cobrir. Adão ligou o aparelho de som com uma música baixa e tranquila, ligou o ar condicionado e diminuiu a luz, deixando uma fraca penumbra no ambiente.

Ela o chamou com a mão e sorriu, como havia sorrido antes, de forma sacana. Adão não a desobedeceu, se deitou com ela e a amou mais uma vez, mas dessa vez não tiveram nenhuma visão. Dormiram em seguida, cansados, preferiram deixar a conversa sobre o que viram para outro dia.

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