Vou voltar para o meu céu.

Quinze anos. A pequena Emma agora já tem dezesseis, Elizabete tem vinte e seis, o garoto Eduardo estaria fazendo vinte e oito. Quinze anos que eu passei em coma, como pode eu ter acordado assim, tão de repente?  Ainda mais, nesse mundo de agora.

2030. Eu tinha trinta e cinco anos na época do acidente, Eduardo não teve a mesma “sorte”. Minha querida Joana teve de criar as duas pequenas sozinha, esposa fiel, de acordo com minhas filhas, nunca arranjou outro marido enquanto eu estava em coma e um belo dia, faleceu, ataque cardíaco. Não aguentou a emoção ao saber o que aconteceu em 2014, que o cometa ISON na realidade era uma gigantesca nave mãe, imagine, do tamanho da Austrália!

Do tamanho da Austrália… E eu, acostumado com meu espaço de algumas quadras, indo e vindo do meu trabalho, as vezes visitando outras partes da cidade para um jantar, umas compras ou um passeio no parque. Uma nave, do tamanho da Austrália.

Agora, a nave pediu para, olhe só, seus conterrâneos aqui na Terra, ajuda para reparos e que logo voltaria à viagem cósmica que faziam. Sabe, seus conterrâneos, já havia extra terrestres aqui na Terra e nem sabíamos! O que importa é que eles tiveram que, finalmente, se mostrar e a revolução cientifica começou. Os governos aceitaram, ou melhor dizendo, revelaram os seres extraterrestres e, surpresa, não havia apenas uma raça, mas quatro! Quatro!

Sabe como eu saí do coma? Minha filha mais velha, a Elizabete, se casou com um deles, um cara importante. Ele mexeu uns pauzinhos e eu pude ser curado do que quer que seja que não me deixava acordar, mas eu vou lhe dizer, acordar naquele lugar, com aquele tipo de tecnologia e com aqueles rostos tão familiares, mas tão… Extraterrestres, me fez entrar em choque, fiquei mais de um mês sem saber se aquilo era real até que finalmente, aceitei aquela realidade.

Era uma mulher, esquisita, cabeça redonda, era humana, mas sabe? Sabe quando olhamos para uma pessoa e dizemos “Nossa, que cara de cachorro?”, então. Olhos da cor de duas ameixas, não tinha nem a parte branca, era preto, brilhante e molhado. Fiquei sabendo mais tarde que usavam lentes, disfarçavam, se misturavam mais fácil do que imaginamos. O rosto enrugado me deu a impressão que eu olhava para um filhote de mexicano com buldogue. Enfim, foi um mês em estado de choque, minha boca se esforçava para lembrar como falava, as palavras saiam enroladas, preguiçosas, molhadas e mofadas.

Arranjei outro emprego, bobo, estacionava carros em um hotel. Olhava para todas as pessoas com outros olhos, eu não sabia identificar ao certo as raças, acabei me dando conta que elas não eram tão estranhas assim. Era como olhar uma pessoa de outro país, sabe? Eu, aqui no Brasil, olhando para um mexicano, um alemão grandalhão ou um esquimó. Tinha uma em especial que era mais fácil identificar, o rosto era fino, lembrava uma cobra, os ossos da bochecha eram esticados, puxados e afinados para baixo, era bem estranho, mas não chegava a ser feio sabe?

Eu sempre pensei que minhas filhas iriam se casar com um homem de bem, nem rico nem pobre, nem feio nem bonito, nunca imaginei que iria casar com um extraterrestre, ainda mais, com esses daí, de bochecha fina. No final, eu não sabia mais diferenciar nenhum, nem ninguém.

A vida foi perdendo a graça, perdendo o sentido, a noção, perdeu tudo. Resolvi ir embora, fugir de toda essa coisa alienígena, fugir de toda essa estranheza, eu não me sentia mais na Terra, parecia outro planeta, outro mundo do qual eu não pertencia. Fui para a roça, virei peão, capinava e colhia e plantava e capinava e por aí vai. Mas não funcionou, eles tinham criados esses “faróis”, uns pilares de luz que podiam ser vistos do espaço, era bem medonho, uma luz branca, fraca, doente, mas estava sempre lá no céu noturno, uma faixa, me lembrava o holofote que usavam para chamar o Batman.

Comecei a não sair de casa à noite, não ver mais as estrelas, não via mais televisão, não falava mais com ninguém, ficava sozinho na maior parte do tempo. Os donos da fazenda vinham falar comigo, os meus chefes e alguns dos meus parceiros no trabalho, e eu sempre respondia sim senhor, não senhor e logo logo me afastava e voltava a ficar sozinho. Não sabia de onde eram, quem eram e como eram, os rostos se confundiam, minha cabeça começou a me pregar tantas peças que, quando eu me olhava no espelho, achava que era um deles.

Então nem espelho mais eu tinha.

E foi indo, de pouco em pouco, os meses se passaram, as colunas de luz ainda estavam adoecendo meu céu e, vez ou outra, ainda via uma nave passando, esquisita, pontuda ou em forma de charuto. Então em uma tarde onde o sol estava me castigando, uma nave parou no ar, em cima de mim, sem fazer um só ruído e de lá, uma nave menor desceu e minha filha saiu dela, veio me fazer uma visita.

Minha filha era uma alienígena então.

Foi naquele dia, depois de ela ir embora, que eu escrevi está carta, fotocopiei um monte delas, enviei para tudo quando é revista, jornal, blog e site que eu encontrei e, do jeito mais terreno que eu conheço, vou amarrar uma corda no meu pescoço, a outra ponta na arvore e saltar.

Só peço perdão por não ter conseguido entender esse mundo de vocês, Emma, Elizabete, mas fico feliz que vocês estejam aí, felizes, com seus amigos do outro mundo. Eu vou para o meu céu agora, onde eu deveria estar a muito tempo, onde eu deveria ter acompanhado, segurando na mão do inocente Eduardo, e caminhado os degraus até o céu que eu conhecia, que para mim, ainda deve ser o mesmo céu do meu paraíso.

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