Agentes da Balança -Preparação-

 

Não foi fácil para Adão convencer seus pais para obter um recurso extra e montar uma forja, mas ele conseguiu. Foi quase um mês de construção, a forja tomou quase todo o pequeno quintal da sua casa, ficou coberta e a fornalha era tampada, com uma chaminé longa, adornada por pequeno chapéu de ferro no topo. A bigorna ficava próximo à fornalha, era grande e nova em folha, sem nenhuma marca de uso, seus pequenos buracos estavam intactos, sem nem mesmo um arranhão. Olhou a obra pronta pela manhã, intacta, linda, limpa e organizada. Os martelos pendurados na parede, os sacos de carvão, as pinças… Pegou o avental aluminizado, sentiu seu peso, quatro quilos e meio, o vestiu e pegou um martelo médio, pesado, quase o mesmo peso do avental, sentiu-o na mão e sorriu ao ver o que estava se tornando. Guardou o martelo e passou a mão pela bigorna, pesada, não sairia do lugar nem com sua mais forte martelada. Estava pronto.

Ainda com o avental, entrou em casa apresado. Fernanda estava deitada no sofá, ainda de pijamas e com o cabelo bagunçado, assistindo o jornal. Olhou Adão andando de um lado para o outro da casa e arqueou uma sobrancelha, deu de ombros e deixou o homem cuidar de seus assuntos e suas excentricidades. Após um tempo passou novamente em sua frente balançando o desenho da armadura, sussurrando algumas coisas para ele mesmo, depois voltou e pegou seu caderno de desenhos. Parou um momento em frente à televisão, coçou a barba rala, arrumou o caderno embaixo do braço e ficou pensando, tentando lembrar o que tinha esquecido. Fernanda o encarava com uma expressão de descontentamento, as bochechas pressionadas e a boca transformada em um fio reto e fino. Adão a olhou por um momento e voltou ao seu quarto, pegou mais um caderno e finalmente parou de zanzar em frente a Fernanda.

Sem demora, pegou o caderno e começou a arrancar suas folhas, pregando em um quadro à esquerda da fornalha. Separava todos os seus desenhos, o peitoral, as manoplas, ombreiras, botas e algumas ideias de elmo que teve neste mês. Colocou todos, o pesado avental ainda estava lá mas ele nem mesmo se lembrava dele, seus olhos pareciam ver a armadura pronta, as barras de aço, empilhadas, organizadas em grandes caixas de madeira eram na realidade as empunhaduras, escudos e sua criação ali, completa. Pegou uma barra e a segurou por um momento, teria a resistência ideal? O protegeria do que estava por vir? E o que estava por vir? Por um momento Adão se pegou acreditando em tudo que viu nas visões e nos pequenos sonhos que tinha em noites mais turbulentas. Estava concretizando uma criação que o serviria de proteção, ainda assim, poderia simplesmente comprar um colete a prova de balas, mas no fim, em que estava pensando?

Adão olhou para o sol do meio dia, ele brilhava forte no céu sem nuvens, azul claro. Seus olhos doeram, cerrou as pálpebra e o olhou mais um pouco. Faria a armadura, nem que fosse apenas para enfeitar sua sala de estar.

Eva era, no mínimo, misteriosa. Olavo e Rodrigo sabiam que ela havia se mudado para a cidade para estudar, mas não conseguiam lembrar de onde ela vinha. Suas conversas eram vagas, se esquivava quando o assunto era seu passado, nem sabiam se ela tinha família ou qualquer outra relação social. Na manhã daquele mesmo dia, onde Adão começava o seu projeto, Eva estava com os cotovelos apoiados em um balcão, um homem careca e de cavanhaque branco digitava entediado as informações de um documentos no computador, os óculos refletindo a tela azulada do programa, enquanto Eva olhava ao redor.

Pistolas, rifles de caça e algumas escopetas estavam amostra na parede atrás do homem, presas em uma estante de ferro. Ao seu redor, algumas armas antigas, digna de museu, estavam sendo exibidas como enfeite. Ela sorriu ao ver algumas delas, inclusive ao ler a descrição de uma em especial, que dizia ter sido usada em um filme de faroeste dos anos 40. O homem tamborilava os dedos olhando para a tela do computador velho, esperando a resposta da pesquisa no sistema. Por um momento ele pousou os olhos sobre a mulher e seus olhos castanho-claros, coçou a cabeça raspada e Eva soltou um risinho carismático, que o fez rir também.

__Eva Casimir… Sabe? –tirou os óculos de armação grande e fina, limpando-os na camisa branca- Há muito tempo atrás eu ouvi falar de um tal de… Como era mesmo o nome? Ah sim! Amino! Amino Casimir! Um homenzarrão sabe? Bem grandão… Ele foi campeão de tiro, conhecido e tudo mais.

__E ele tinha meus olhos… –disse ela sorrindo-

__Sim, tinha mesmo. Era seu pai não é verdade? Vocês se parecem, eu sei que sim.

__Era sim, Amino Casimir. Na realidade, ele É meu pai, mas… –suspirou e sorriu, desencostando do balcão- Já faleceu a alguns anos, eu mesma já ganhei umas medalhas em olimpíadas de tiro, mas nada de especial, nada assim, de renome como ele.

__Casimir… É um belo sobrenome Eva.

__É sim, muito.

__Pronto, basta assinar aqui, aqui… –disse mostrando um caderno grande e de folhas amareladas- aqui também… –pegou um bloco de formulários e destacou uma folha- Esse aqui também, só preencher e assinar aqui… –apontou o verso da folha- E aqui também. Trouxe uma foto três por quatro?

__Aqui. –tirou a carteira e entregou a foto, junto com o dinheiro- A pistola… –disse contando as notas- O kit de limpeza, o coldre, as duas caixas de bala… –olhou para ele e sorriu- Estou esquecendo alguma coisa?

__Não não, está tudo certo. –sorriu e pegou o dinheiro, grampeando a foto de Eva no formulário- Vou organizar aqui sua pistola enquanto você preenche.

Eva saiu da loja quando o sol estava em seu pico. Pôs o grande óculos escuros e o chapéu preto, grande porém muito elegante ao combinar com suas roupas cinzas. Sentiu o peso da bolsa com sua mais nova arma e respirou fundo, tomando folego ao entrar em seu pequeno carro, abafado por ter ficado tanto tempo no sol, ficou mais de uma hora na loja enquanto seu porte de arma era verificado, enquanto escolhia a arma certa e que estivesse disponível. Ligou o carro e ficou parada por um momento, esperando o ar condicionado fazer o seu serviço. Achava que estava perdendo a cabeça, agora que sentou ali e tirou seu chapéu, cobrindo a bolsa no banco da frente. Havia mesmo comprado uma arma, pensou que nunca iria, mesmo tendo porte para tal.

__Seu Amino Casimir… –disse sorrindo e encostou a testa no volante do carro- Seu Amino Casimir… Que orgulho teria da filha agora, não? –olhou para o chapéu, visualizando a arma dentro da bolsa, ainda em sua caixa- Maldito Adão… Por quê que você está tanto na minha cabeça seu artistazinho cretino?

Rúbi mexia sem pressa no porta-luvas da pick-up, afastava uns papéis para cá e para lá. Estava amanhecendo em frente à casa de Adão, o sol tingia o céu de um tom cor de chumbo, azulado, com nuvens ganhando vagarosamente um tom dourado e resplandecente. Rúbi olhou para o céu abraçado ao volante e esfregou os olhos, estava sem dormir à um bom tempo, olheiras já cobriam seu rosto e o cansaço estava estampado como um outdoor em sua face. As nuvens iam perdendo seu tom dourado a medida que o sol subia no horizonte. Desviou o olhar das belas nuvens, sorrindo pela felicidade simples de apreciar a beleza de um amanhecer.

Mas seu sorriso aumentou, passou de um fino traço em seu rosto para uma verdadeira meia lua de orelha a orelha, mostrando os dentes brancos e bem cuidados ao ver subindo, consistente e esbranquiçada, a fumaça da fornalha de Adão.

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