Laranja Mecânica, de Anthony Burges

Narrada pelo protagonista, o adolescente Alex, esta história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma resposta igualmente agressiva de um governo totalitário. A estranha linguagem utilizada por Alex- soberbamente engendrada pelo autor – empresta uma dimensão quase lírica ao texto. Ao lado de 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ‘Laranja Mecânica’ é um dos ícones literários da alienação pós-industrial que caracterizou o século XX.

O protagonista Alex, amante da música clássica (principalmente Ludwig van Beethoven) e líder de uma gangue de delinquentes que roubam e estupram, cai nas mãos da polícia. Preso, Alex é usado numa experiência chamada “Método Ludovico”, criada pelo Estado e destinada a refrear os impulsos destrutivos dos delinquentes. Quando volta às ruas regenerado, passa a sofrer com aqueles que antes eram as vítimas. Após ser usado num jogo político pelo partido de esquerda, o Estado reverte o seu “tratamento”.

Laranja Mecânica é sem duvida alguma uma experiência única, graças ao extenso vocabulário Nadsat criado pelo autor. Esse vocabulário, unido à forma peculiar de Alex narrar a história, torna toda a leitura uma experiência singular e realmente divertida. Por mais que faça uso das gírias Nadsat, a leitura é fluente e o controle de narrativa é bem eficaz, prendendo o leitor a seguir os passos nada corretos do “humilde narrador”.

O livro não trata apenas da ultraviolência e do velho entra-e-sai entra-e-sai, mas do percurso do narrador, que envelhece, ainda que poucos anos, e adquire uma mentalidade diferente, onde ele se vê em conflito sobre seus conceitos e sobre o que realmente ele queria da vida. Um fato interessante é que esse conflito é retratado no ultimo capitulo do livro, sendo este cortado da versão cinematográfica, por motivos de “razões conceituais”, como conta Fábio Fernandes, responsável pela tradução pela editora Aleph, em seu prefacio.

E meus druguis, que tradução! Eu fiquei muito feliz em ver que a tradução foi levada tão a serio e que as gírias continuaram como tinham de ser, mas de forma que o leitor brasileiro consiga a sonoridade original das palavras. Essa edição da editora Aleph conta com um glossário bastante útil, mas não exatamente necessário, já que Burges narrou muito bem, de forma que usando todo o contexto, dar-se a entender o que cada palavra significa.

Não é a toa que o livro tenha sido considerado um dos cem melhores romances em língua inglesa, afinal, o mundo “futurista” que Burges cria é magnifico, quase profético, ainda que não tenhamos gangues mirins violentando as noites das cidades, mas ainda vemos uma violência cada dia mais jovial, onde as crianças estão desde cedo entrando em contato com o crime.

Se um dia tiverem a oportunidade, ou curiosidade, leiam essa grande obra que já tem mais de cinquenta anos, mas é tão moderno quanto nós mesmos.

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