O Observador.

Não fiquei contente quando recebi minhas ordens ao embarcar na nave Pioneira IV. Observador. Simplesmente, depois de cinco anos de treinamento militar e mais seis anos de atuação em campo, defendendo a colônia da Federação da Terra nesse sistema estrelar, eu recebo o cargo de Observador.

O que eu teria que fazer? Observar os soldados e a equipe cientifica fazer seu trabalho, escrever um relatório detalhado sobre isso e enviar diariamente um resumo dos resultados para a Inteligência da Colônia Pioneira IV. Eu não tinha palavra superior a ninguém, não tinha ninguém sob meu comando ou ao menos um auxiliar. Tudo que me deram foi a merda de um computador portátil, até a garrafa de café eu tive que trazer em minha mochila.

A missão não podia ser mais simples: Entrar em contato com a raça dominante do planeta D52, categorizar, conhecer e, se não houver raça inteligente, colonizar. É claro que já aconteceu varias e varias vezes do planeta ser colonizado ainda com alguma raça primitiva em desenvolvimento, como no D48, onde uma raça de primatas foi extinta para dar lugar a uma linda e deliciosa colônia humana em um planeta quase tão perfeito como a Terra. Era o que fariam, sem duvida, no D52.

O primeiro contato com a raça dominante foi… Interessante. A raça se denominavam de Elars, ou como ficaram conhecidos nos relatórios e processos científicos, D52-A. D52-A é uma raça de humanoides, bem semelhante aos seres humanos, com alguns detalhes diferentes, a pele de todos eles variavam de rosa a vermelho rubro, seus rostos eram alongados para baixo e para trás, como se esticados, seus olhos eram puxados diagonalmente e negros, graças a baixa luminosidade da estrela, os olhos eram praticamente apenas pupila. Tinham também um pelo bem ralo e duro, que cobria todo o corpo, com uma cor esbranquiçada. Não tinham cabelo e suas orelhas eram bem pequenas, e bem parecidas com as nossas.

Ficou claro, logo no primeiro contato, que D52-A era uma raça inteligente, tecnológica, mas ainda incapaz de viagem espacial. A progressão cultural era extremamente compatível com a nossa, tinham fé em um deus único, tinham televisão, carros, motos… Como se a humanidade tivesse simplesmente evoluído em outro planeta. Teste do dna dos D52-A comprovaram essa ideia, já que a semelhança era tanta que seria possível até a reprodução entre humanos e D52-A. E foi ai que o problema começou…

Sim, éramos semelhantes em muitos aspectos, mas os D52-A tinham uma espécie de neurotoxina em seus pelos, que afetavam diretamente nosso cérebro e células nervosas, induzindo a uma sensação semelhante ao orgasmo.

Imagino que você já tenha entendido o problema.

Começou com o cabo Ricardo, um brasileiro jovem, de cara bem quadrada e robusto como um touro. Mas eu sempre comentava em meus relatórios que o cabo Ricardo era muito sensível para a profissão, não era voluntario e foi tirado da sua vida normal para o alistamento obrigatório. Faltava homens capacitados fisicamente para as viagens das Pioneiras, o cabo Ricardo, por azar, foi um dos convocados.  Cinco anos de viagem apenas para chegar na colônia, exatamente na qual eu defendia.

O cabo Ricardo era um homem direito, seguia as leis, normas e ordens ao pé da letra e sempre se empenhava. Como a nossa missão era reconhecer e manter contato, ele não teve que se preocupar com entrar em uma batalha e matar inocentes, coisa com a qual, uma hora ou outra, qualquer membro das naves Pioneiras deverá lidar. Tudo corria muito bem, houve contato com os D52-A, alguns foram convidados para a nave, houve um breve estudo, conseguimos ossadas antigas em cemitérios e tudo mais.

Contudo, o cabo Ricardo recebeu uma correspondência de sua namorada. Era um vídeo dela e mais dois caras, transando. O cabo nunca ficou tão abalado, e até hoje eu tenho um processo em aberto contra a Inteligência que deixou um vídeo desses entrar em contato com um oficial em ação. Não precisa dizer que aquele homem ficou em cacos. Para qualquer membro das Pioneiras, o único contato físico com uma raça que não fosse humana era em caso de extrema urgência, onde fosse necessário entrar em combate corpo-a-corpo. Mas o cabo Ricardo achou que seria uma boa ideia mostrar que ele não havia sido afetado por aquele vídeo e decidiu que a melhor forma seria fazer o mesmo, com os D52-A.

O cabo Ricardo então se apoderou de um veiculo do acampamento e foi até uma pequena cidade e estuprou uma D52-A, filmando todo o processo.  Mas com isso o cabo descobriu que o contato dos pelos com a nossa pele nos dava uma sensação quase orgasmica, o que levou esse soldado a ficar quase seis horas com essa D52-A em particular. Uma patrulha foi enviada para resgatar o cabo depois que sua ausência foi notada. O vídeo foi confiscado e ele foi preso pela corte militar, por tantas coisas que nem vou lista-las aqui.

Esse vídeo foi estudado pela equipe cientifica, o caso foi abafado e aquela D52-A foi capturada para que a noticia não se espalha-se. O que aconteceu depois foi os cientistas estudarem a fundo aquela espécie, bem a fundo, a ponto de copular com ela diversa vezes ao dia. Em algumas semanas toda a nave Pioneira IV já sabia que aqueles pelos eram melhores que as drogas que circulavam “clandestinamente” pela nave. Tiravam então os pelo dela semanalmente e vendiam para a tripulação, até o ponto que 90% dos tripulantes já estavam viciados na toxina, e o pior, não ligavam para o claro efeito colateral. Suas peles começavam a avermelhar e seus pelos a perder a coloração, ficavam extremamente irritadiços quando não estavam sobre o efeito da toxina, e não era rara as vezes que entravam em uma depressão muito pesada, que levou alguns ao suicídio. Aquela toxina se espalhou como uma praga pela Pioneira IV.

Foi então que dei graças a Deus por ser apenas observador. Graças aos meus relatórios, um segundo batalhão foi enviado para D52, com a missão de exterminar qualquer infectado e também, os infecciosos. A raça D52-A foi catalogada como perigosa e sua existência desnecessária. O batalhão era conhecido como “Purgadores”, o qual eu fui felizmente convocado a participar, ainda como Observador.

Posso descrever o que aconteceu com duas palavras, genocídio e extermínio. Os Purgadores não se importavam e não desejavam nenhuma toxina orgasmica ou coisa semelhante, eram os soldados mais rigorosamente treinados da Federação da Terra. Os mais ignorantes, sem escrúpulos ou moral, acho que lhes faltavam até sentimentos. O que é ótimo para a profissão, já que graças a uma atitude guiada pelo sentimento, uma raça foi extinta. Uma raça inteligente. Agora D52 é um planeta de recursos, mineração e extração de madeira.

Antes disso acontecer, eu havia conversado com um D52-A sobre o que achavam dos seres humanos, e ele me disse o seguinte:

“Vocês são muito inteligentes. São capazes de viajar no espaço e visitar outros planetas. Nos tratam de forma cordial e hospitaleira, sem se importar em nossas diferenças. Aqui, ainda temos preconceito entre nossas espécies, entre nossas religiões, entre nossas escolhas e comportamentos. Vejo vocês como nosso futuro, espero que um dia consigamos chegar a um ponto, em que nosso pensamento, como sociedade, se torne tão unificado como o de vocês. Todo o planeta, unido como um só.”

Por isso agradeci em ser apenas um Observador, porque não consigo mais ser nada além disso.

Um pensamento sobre “O Observador.

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