Da traição.

Estou lendo “O Leitor” de  Bernhard Schlink e, enquanto viajo e imagino a relação do protagonista com sua amante, acabei caindo na seguinte reflexão:

“É nossa vida tão sem graça a ponto de gostarmos desse tipo de história, com traições amorosas, e também tão chata a ponto de trairmos?”

Ainda nem sei se o protagonista trai Hana ou alguma coisa assim, mas imaginei como seria o moleque de quinze anos com mais de uma mulher, então foi ai que comecei a pensar a imagem da traição na nossa vida, na nossa sociedade, e como ela esta tão presente, em praticamente todos os lugares.

Eu detesto esse tipo de historia, não só incita esse tipo de atitude, como também banaliza a mesma, tornando normal o que hoje em dia tem até nome chique, affair. Quem dera se fosse apenas em livros, assim dificilmente alcançaria a massa brasileira, (vulgo povão, como gostam de ser chamados) mas também vemos em filmes, musicas, novela…

Novela praticamente é todo mundo traindo todo mundo, e o mais interessante, é exatamente a novela que no Brasil dita e imprime modas, costumes e modelos de comportamento no povo “que já nasce semiparalítico” (Clarice Lispector). Poxa, se lá na TV, onde tudo é bonito e magico, lindo e emocionante ter um caso, porque não tê-lo na vida real? Porque não imitar a fantasia? Viver esta emoção, esta aventura?

A que ponto chegamos, hein? A que vida feliz e perfeita nós conseguimos criar e ainda a sustentamos, onde o feliz e divertido é quando o cara não consegue manter o pinto dentro da calça e a mulher não consegue manter suas pernas fechadas? A que ponto chegamos da vida em que o sexo é a melhor coisa a se fazer e correr atrás de mais sexo é ainda melhor?

Se isso é feliz, é curtir a vida, é o ápice da felicidade, então eu prefiro ser uma cara triste e depressivo.

Porque sentimos essa ânsia de trair, ou de ter vários companheiros(as) enquanto solteiro(a)? A banalização do sexo se tornou tão forte, tão intensa, que a vida feliz hoje se resume a um prazer barato, a uma forma de sustentação onde o sexo é o pilar base de tudo, tudo mesmo.

A ideia de varias(os) companheiras(os) me parece estupida e estupida e cada vez mais estupida a medida que eu penso sobre o assunto, na situação da nossa sociedade, na forma como isso é visto. Vejo pessoas se vangloriando por conseguirem tal mulher, e ainda acham bonito estarem casados enquanto isso.

Porque trair o amor? Se não há amor, porque permanecer juntos?

É uma forma de pensar primitiva, essa de trair sua pessoa querida só porque a pessoa alheia é mais bonita/gostosa/safada/vagabunda/puta e por ai em diante. Pensando bem, a sua pessoa querida, se você a trai, não é tão querida assim, não é verdade?

Concluindo essa reflexão, sem ter que entrar em mais detalhes e explicações sociológicas e psicológicas, e também para ser sincero, voltar ao ponto, essa á influencia boba e gananciosa sobre esse tema me enoja. Não só pelo fato das historias estarem tão vazias e pobres a ponto de ter que apelar para esse artificio, mas o que é pior, esse artificio funcionar. E funcionar tão bem…

Tão bem ao ponto de ser o enredo principal da historia e fazer parte de toda a trama. Deprimente.

2 pensamentos sobre “Da traição.

  1. O problema não está na banalização, afinal, ela existe desde que o mundo é mundo e as prostitutas estão ai pra provar isso.
    O que é realmente errado é incentivar a traição. Traição é quando as duas partes fazem um acordo e uma delas quebra o pacto. Se os dois prometeram que não iriam se relacionar com outras pessoas (entenda namoro ou casamento) então deveria ser assim para que não haja traição.
    O enredo da novela funciona por que as pessoas gostam de experimentar emoções das quais não teriam coragem de sentir se fossem reais.
    Não devemos tomar novela como exemplo, mas sim como uma mera diversão ou distração pras vidas tediosas dos teleespectadores.

    • Seria bom se essa fosse a verdade do brasileiro como “povão”, apenas assistir por diversão. Mas acham bonito, copiam a fantasia, se tornam os personagens. Afinal, quem não pensa por si próprio, deixa que os outros pensem por eles. Então a traição acaba sendo mais comum e banal do que deveria ser, e o amor como casal cai por agua abaixo.

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