O Call Center do pânico

No centro da capital do Tocantins, um funcionário de um Call Center coçava a barba a fazer, entediado, enquanto ligava já depois das sete da noite, para um numero aleatório, em uma cidade do interior do mesmo estado, uma cidade que ele nunca pensou que existisse pelo nome tão estranho que tinha, Pugmil. Encarava a tela sem expressão, enquanto o telefone no município do interior tocava, e o terror começava…

Era uma noite como qualquer outra para os poucos habitantes de Pugmil. A noite já caíra e seus moradores estavam em suas casas de madeira velha, iluminadas apenas pela luz de alguns lampiões e tochas. Em uma das casas, uma pequena família de apenas vinte pessoas, o telefone tocou, do nada, como um sinal de mal agouro.  Os anciões da família apenas olharam, cansados demais para se levantar, enquanto as mulheres pararam de lavar a louça e a roupa e os homens se aprontaram para defender seja lá o que ia acontecer. Foi então que uma das crianças correu para atender esse telefone, que insistia em tocar.

Enquanto isso, o funcionário, já cansado de esperar atender e meio chateado porque o ar condicionado estava forte demais, levou o dedo ao botão para desligar a ligação, mas instantes antes, a criança atendeu, e foi assim que começou a noite mais negra de Pugmil.

__Oi? –disse a criança, tremula-

__Alo, boa noite. Meu nome é Carlos, eu gostaria de fazer uma pesquisa de opinião. Há alguém na casa acima de 16 anos que possa responder esta ligação? –disse animado ao ouvir a voz da criança-

__Oh manhê! –gritou com a voz estridente, fazendo o funcionário bater repetidamente no botão para abaixar o volume- Tem um omi qui ta querendo fala cum a sinhora! Um tal di Carlo, disse qui quiria faze um tal di pesquisa!

A mãe então corre em socorro do filho, largando a panela na pia e enxugando as mãos no longo e pesado vestido, daqueles que as empregadas em um engenho costumavam a usar.

__Oi, quem é?

__Boa noite senhora, meu nome é Carlos, eu gostaria de fazer uma pesquisa de opinião. Eu gostaria de contar com a sua colaboração respondendo algumas perguntas e…

__Tu que sabe o que infeliz? Que qui tu qué cum nois? Nois num fez nada! Nois vive aqui!

__Sim senhora, é apenas uma pesquisa de…

__Quim pesquisa u que omi? O sinhô presta atenção qui aqui ta chei di omi! Tu num vem não.

Atrás da roda curiosa que se formou, o ancião fumou seu cachimbo na sua cadera de balanço e soltou uma baforada ao ar, pensativo.

__É a historia, num tem? –disse o velho- aquela qui diz dum cabra mal qui vai vim come agente pusque agente num reza direito. Vai volta o omi que comi os mininu.

As crianças assustaram, a mulher continuou.

__Pois qui pesquisa é essa infiliz?

__Senhora, é apenas uma pesquisa de opinião para saber se…

__Pois num queru sabe di nada!

E desligou o telefone.

Houve um silencio total, a mulher arfafa, olhando para aquele aparelho branco, como se tivesse lutado contra algum animal feroz. Do outro lado, o funcionário suspirou e gerou outro numero aleatório, seguindo com o seu serviço.

__Hum bom minha fia, ate qui tu fez bem. –deu mais uma tragada longa, de olhos fechados- Assim u omi num sai dali e comi agente. Primeiro ele se poe a pergunta da nossa vida num tem? Ai ele vem ni nois e mata tudo na faca cega. –deu mais um trago e sorriu, um sorriso macabro e nego- Faca cega qui nem quina de porta, mais parece qui bati do qui fura.

As crianças se reuniram ao redor do pai, com medo do que poderia acontecer naquela noite. As chamas dos lampiões tremulavam,  fazendo com que as sombras dançassem de forma aterrorizante. O crepitar do fogo dava a impressão de silencio absoluto, aquele silencio que a besta faz antes de dar o bote.

__Mas tem aquela pranta num tem? –continou o ancião- A pranta afasta o omi. Oceis num precisa fica cum medo pusque eu to com essa pranta, to cheio da pranta. –levantou com dificuldade e enfiou a mão no bolso, tirando uma erva velha e preta, podre com fungos esbranquiçados em torno das folhas- Aqui ta a pranta, é só nóis dexa nu telefone qui ele num sai de dentro.

Um dos homens daquela casa pegou a erva e cobriu todo o telefone. Todos estavam encarando o aparelho, com medo de que um homem com uma faca saísse dali e matasse toda a famila.

A noite passou devagar, todos temiam o que poderia acontecer. Houve silencio pelo resto da noite, alguns adormeciam e cochilavam, mas não conseguiam pegar no sono, logo acordavam e voltavam a montar guarda ao redor daquele aparelho cheio de musgo e erva. O ancião ainda fumava seu cachimbo, o segurando com a mão cansada, balançando para frente e para tras na sua cadeira, esperando o dia chegar.

Então o dia veio e aquela pequena família voltou a seus afazeres, plantar e colher e contar para todo o resto da cidade o que havia acontecido naquela noite.

Já pela manha, o funcionário estava se arrumando para mais um dia de serviço.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s