Queda livre

Em meio ao nada algo existe, esse algo sou eu.

Sei que caio, sem parar, sem saber de onde eu vim, para onde vou. Esta tudo escuro, negro, mas consigo me ver cair, vejo meu corpo com a claridade solar, mas tudo é escuro, paredes, teto, chão, tudo.

Então eu caio, em minha consciência, isso é tudo que sei, eu caio.

Eu existo, e caio.

Onde? Existe um fim nesse lugar? Porque caio?

Me viro no ar, giro, imagino que lugar é esse. Um buraco muito grande, é o que parece, algo colossal, tão grande que é impossível ver seus extremos. Mas se não há luz, porque me enxergo?

Começo a me lembrar, sou um homem, sou uma pessoa, tenho um nome. Vejo algo no fundo, se aproximando rapidamente, é um espelho, girando no ar, refletindo a minha imagem confusa. Assim que sou? Meus cabelos, meu rosto, meus olhos? Minha velocidade parece maior, o espelho fica para cima, eu continuo a cair.

Tive um pequeno vislumbre de como eu sou. Me perco nesses pensamentos, me perco em saber como sou, gostaria de mais um espelho. Meus olhos eram verdes ou castanhos? Não me lembro mais, foi tão rápido.

Escuto um ruído, estática. Escuto, existe algo a mais. Parece uma rádio sendo sintonizada, uma voz chama um nome, será meu nome? Eu me lembro dessa voz, é de uma mulher. Ela chama meu nome em meio a ruído e estática, mas acaba ai, e continuo caindo.

Estou sozinho novamente, sinto vontade, sinto desejo de rendição. Porque não caio mais rápido? Porque não mergulho de uma vez? Quero chegar ao final.

Esqueço algo, mas do que me lembro? Sinto lembranças, as toco, parecem reais, parecem televisões flutuantes de LCD em meio a esse mundo vazio, elas caem comigo, na mesma velocidade, produzem cenas de pessoas conversando, de lugares, hotéis, escolas.

Assisto aquilo, mas não são minhas memórias. Fragmentos de algo que eu fui. De algo que serei? Fragmentos da memória de quem? Como sei que são memórias? Apenas sei.

Fragmentos, eles se estraçalham, uma a uma as televisões se quebram, me deixando naquela imensidão sem uma resposta. Balanço meus braços no ar, tento alcançar algum pedaço, mas eu caio mais rápido que eles, e novamente fico sozinho.

Pisco, mas da escuridão passo para a escuridão. Não fecho meus olhos na esperança e ver algo que me responda o porque de tudo isso. Não sinto sono, nem cansaço, fome ou sede. Apenas caio, apenas sinto curiosidade, confusão. Sinto minha mente.

Ela desliza, escorrega, acompanha a queda. Vejo novamente um espelho, sorrio, fico feliz em ver novamente, mas estou mais velho. Qual idade eu tenho? Será que sou eu mesmo ou apenas outra memória?

Uma pressão me abate, me joga ao nada. O espelho some em uma velocidade incrível, sinto algo me puxando para baixo, algo forte, algo que eu já senti antes. Estática, algo querendo ser sintonizado, uma voz. Não uma, varias, centenas, todas falando ao mesmo tempo.

Percebo que estava de olhos fechados, então os abro. Milhares de bocas preenchem o espaço negro, como um grande cilindro de carne e dentes. Me sinto enojado, sinto medo, elas não param de falar, mas porque não dizem nada? Porque não me respondem? Não aparam minha queda?

Uma a uma, elas começam a desaparecer, as vozes começam a se calar. Finalmente entendo o que uma diz antes de desaparecer “Você diz que um dia vai encontrar o que esta procurando, mesmo sem saber o que procura. Então como você vai saber que encontrou? Eu não te entendo.”

Eu não te entendo ecoa após a boca sumir, a estática muda de estação, uma musica do U2 começa a tocar, “I still haven’t found what i’m looking for”. A voz era a mesma daquela mulher que chamava pelo meu nome. A musica toca, completa, do começo ao fim. O locutor começa a falar algo, mas logo some em mais estática.

Memorias. Tudo isso são memórias, peças de um grande quebra cabeça que luta para não ser montado. Levanto a mão, gostaria que alguém a segurasse, será que alguém pode segura-la? Parar essa queda?

Estática. Uma musica dos Bettles começa a tocar, “I want to hold your hand”. Com quem converso? Com um radio? Eu não deixaria você ser meu homem, mas deixaria ser minha mulher, só segure minha mão, impeça minha queda.

Nada acontece, a musica acaba, continuo caindo.

Entendo agora. Essa queda ainda não chegou ao fim, falta tanto, falta muito, ou talvez falte tão pouco. Sim, me ponho a mergulhar. Imagens aparecem a minha volta, coisas da vida, momentos da rotina, memórias, minhas memórias.

O que nos resta após a morte? Simplesmente paramos? Nos desligamos? Estaremos em um túnel negro, caindo, vendo nossas memórias?

Paro. Morte? Morreria se acertasse o chão com essa velocidade. Sinto medo, mas a queda continua.

Agora são sonhos, mas sinto medos deles também, eles dizem coisas sobre mim que não gostaria de saber, mesmo que já saiba de todos. Mostram como eu realmente sou, e a carne nua não consegue ser mais bela que a mascara que criamos sobre ela.

Então é assim que sou? Já sabia, não quero saber.

Caio. Um dia essa queda há de acabar, como todas as outras coisas que tem inicio. Sinto como se mais pessoas caíssem, todos os dias, o tempo todo.

Mas se todas caem, porque não vejo ninguém? Apenas memórias do que sou, memórias do que gostaria de ser, de viver, memórias.

Fecho os olhos por um segundo, sem me importar com o que perco. Abro e me vejo em um outro espelho, alguns anos mais velho.

Sorrio, ainda caio, mas sei que vai ter um fim, e me sinto aliviado por isso. Agora é só aproveitar a viagem, se é que é possível.

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