O Perdão do Imperdoavel

Quando eu recebi a mensagem de um garoto ofegante, maltrapilho, que correu a vila toda para me alcançar, apenas juntei minhas coisas e fui correndo ate a casa de minha irmã. A inquisição estaria lá a qualquer momento e, com as coisas e os boatos que circundavam minha querida irmã, ela seria condenada a fogueira, sem duvida. Ao chegar lá, vi um pequeno rapaz, com o brasão dos inquisidores, segurando a corda de três cavalos. Meu coração se encheu de fúria mas, desde do momento em que minha irmã começou a me ensinar os conceitos de Deus, me tornei uma pessoa mais calma e controlada.

Entretanto, ao chegar a porta, saquei a espada e entrei gritando. Um velho barrigudo e estuprador estava vestido uma manta vermelha, também com o emblema dos inquisidores, em pé em frente a minha irmã amarrada, enquanto outros dois vasculhavam a casa. Ergui minha espada, vi o desespero nos olhos daquele gordo, mas minha irmã disse “não” com o olhar, ainda no mesmo contato visual, perguntei porque e ela me disse que eu não merecia o carma daquela morte, que a justiça iria prevalecer. Baixei então minha espada.

Ela não estava com medo de eu me machucar, pois conhecia muito bem minha habilidade com a arma, mas ela escolheu o outro caminho. Sempre foi uma pessoa muito bondosa, carinhosa, estudiosa… Conhecia segredos do céu e da terra, da natureza, da química e da matemática. Conversava com entidades que os olhos não treinados eram incapazes de enxergar, ajudava essas entidades… Minha irmã era uma peça de ouro em tanto latão. E naquele momento, rodeada de pedaços do carvão vestidos de vermelho, era que seu dourado brilhava ainda mais.

Um deles achou a obra prima da minha amada, um anel feito de um mineral condensado, banhado com ervas. Era só colocar no dedo e a harmonia de seu corpo voltava a ser restaurada… Curava doenças… Melhorava o humor, o funcionamento do corpo… Mas eles preferiram jogar no chão, como se fosse um pedaço de lixo qualquer e pisar em cima, com um sorriso maléfico no rosto.

Logo após me renderam e me ajoelharam, como cúmplice de pactos com o diabo. Pois bem lhe digo, diabo é uma criação desses malditos, como desculpa para poderem sair matando o conhecimento e propagando a ignorância entre os povos. Fazendo um reinado na base do medo, da veneração cega, do fanatismo…

Por toda sua bondade, seu amor, seu conhecimento, minha irmã iria ser estuprada, seus bens valiosos confiscados e o resto queimado em nome de Deus, o pior de tudo, ela também iria para fogueira e morreria como bruxa. Por um ultimo momento ela me olhou e, novamente com o olhar, ela me disse “Não me importo em morrer como bruxa, renascerei como cientista. Não se importe em morrer como meu irmão, você renascera como meu amante.” Olhei sem entender e logo após, senti o frio da lamina da espada maldita entrando em minha garganta, logo após o calor do sangue escorrendo pelo pescoço e pela roupa. Vi, dos olhos da minha irmã, brotarem lagrimas simples e contidas, como se não quisesse dar o prazer a eles de ver que ela sofria.

O que mais me deixava incapaz naquele momento de morte não era o ferimento, mas o desejo que não compreendia de minha irmã. Eu sabia que iria vê-la após a morte, que iria renascer no mesmo ano que ela, mas… Eu não aceitava que ela se entregasse tão facilmente aqueles porcos. Perola… Uma perola atirada aos porcos…

Após nossa morte, em uma gigantesca floresta, dentro de uma clareira, ela me explicou o motivo de seu desejo. Queria que morrêssemos limpos, sem o pecado da morte em nossas mãos, sem o rancor, a raiva e que apenas o perdão transbordasse em nossos corações. De principio não perdoei a ignorância dessas pessoas, o desejo de controle do estado, a ganância, a destruição e difamação em nome de Deus… Mas depois, quando comecei a compreender mais, na medida que ela me explicava, tive pena deles, dó… Os perdoei… Sabia que a Divina Providencia faria que eles pagassem por cada pecado na vida passada, sabia também que nós seriamos recompensados por nosso amor, compaixão e perdão…

Então eu lhes digo, em forma de palavras. Aqueles que antes foram assassinos do conhecimento, algozes da verdade, propagadores da ignorância e destruidores da verdadeira alquimia, eu os perdôo.

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Esse pequeno conto foi escrito a muito tempo atrás, nem me lembro quando, mas acho interessante compartilhar esse escrito com vocês leitores.

Abraços e até o proximo post.

Um pensamento sobre “O Perdão do Imperdoavel

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